quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Once Upon a Time in America (1984), Sergio Leone

Arame farpado no campo de concentração

Por vezes, ao serão, o som de tiros atravessa a charneca, como ocorreu certa vez, quando um homem cego se perdeu demasiado perto do arame farpado.

- Etty Hillesum, Cartas 1941-1943

Silêncios

Não é preciso falar sempre.

Precaução

Quando te vier um sorriso aos lábios, lembra-te da doença e do quanto sofres quando a dor não te larga.

Depressões optimistas

Depressões pessimistas devem ser consideradas pausas criativas nas quais as forças se restabelecem. Se tivermos consciência desse facto, as depressões passarão mais depressa. Jamais devemos sentir-nos deprimidos numa depressão.

- Etty Hillesum, Cartas 1941-1943

The Far Country (1954), Anthony Mann

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Zodiac (2007), David Fincher

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Palavras

Podes sempre dizer: não gosto de falar com pessoas. As pessoas que te ouvem entenderão que não gostas de falar com elas e permanecerão caladas a olhar para ti e tu para elas. As pessoas ficariam muito mais tranquilas se soubessem que se podem relacionar umas com as outras sem dizerem uma única pavorosa palavra.

Erro

Se tudo o que fazes é um erro, começa a pensar numa forma de rentabilizá-lo.

Ilusões

O bicho não quer sair do planeta das ilusões porque, fora dele, só há vazio. Ter de bater com o queixo no chão, levar pontos, ter tentações suicidas, nem pensar.

Conversa

O bicho julga que não é louco por ficar muito tempo sozinho e já não saber o que pode ou não ser tema de conversa.

Para a criança morrer

Por entre as plantas mais estúpidas que arrancou, o pai diz: As ameixas verdes fazem mal, o caroço ainda está mole e trinca-se a própria morte. Ninguém nos pode valer, morremos mesmo. Com as febres claras, o coração queima-se-te por dentro.

Os olhos do pai estão nublados e a criança vê que o amor que o pai lhe tem é como um vício. Que ele não consegue controlar o seu amor. Que ele, que fez cemitérios deseja a morte à criança.

Daí que mais tarde a criança coma bolsos inteiros de ameixas. Todos os dias, quando o pai não está a ver, a criança esconde metades de árvores na barriga. A criança como e pensa, isto é para morrer.

- Herta Müller, A terra das Ameixas verdes

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Das promessas

Faz assim: promete que sofrerás ainda mais e que farás um esforço para esquecer que tudo isto é podre e que serás justo, recto, sóbrio e disciplinado, e que abanarás o rabo caso te façam festinhas na nuca.

the antlers : sylvia

sábado, 2 de janeiro de 2010

Bird (1988), Clint Eastwood

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Lispector

Vida curta, dias longos.

Criança

Veio-lhe então o desejo de que uma criança começasse a chorar para ele ser bom para ela. É que estava desamparado e sentia necessidade de dar, que era a forma como uma pessoa desajeitada sabia pedir.

- Clarice Lispector, A Maçã no Escuro

Tentar

Se ficares parado, nunca cairás no chão mas pensarás que antes valia teres tentado andar.

Esperamos tudo

Now we seem to expect perfection from government and then throw temper tantrums when it is not achieved. We seem to be in the position of young adolescents — who believe mommy and daddy can take care of everything, and then grow angry and cynical when it becomes clear they can’t.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Dos anos


Pego na minha fúria reprimida e, com uma pá, escavo um buraco muito fundo onde possa enterrar o ano que morre e todos os outros vinte e tal anos que morreram e que ainda não consegui engolir, de tão maus que foram.

O homem espanta-se

O que o surpreendia era a extraordinária paz do inferno.

- Clarice Lispector, A Maçã no Escuro

Donovan's Reef (1963), John Ford

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Engolir o berro

Guarda toda a tua fúria para ti, tapa a boca com uma mão, com as duas, aliás, que uma é capaz de não ser suficiente, e grita para dentro o hum-bf-hum-argh até sufocares. Não preocupes ninguém com problemas típicos de uma não-existência.

All the President's Men (1976), Alan J. Pakula

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Frost/Nixon (2008), Ron Howard

Fingir

Treina muitas vezes a cara de derrotado para que, quando estiveres em público e te sentires mesmo, mas mesmo muito em baixo, totalmente humilhado, possas fingir que consegues transformar a dor num sorriso.

Do esforço

Esforçaste-te, esforçaste-te bastante, é verdade, mas teria sido preciso que te esforçasses ainda um pouco mais, percebes agora, e assim todo o teu esforço foi vão. Mais valia que tivesses ficado quieto

Un conte de Noël (2008),Arnaud Desplechin

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Chuva

O bicho acha muito bem que chova muito. Não se vê ninguém nas ruas, dá para vestir camisas sem manchar o tecido de sebo, os dias acabam depressa, as noites são longas, enfim, nem tudo é mau no reino da Dinamarca.

Do sangue

O primeiro crime é aquele que custa mais. A partir do segundo, do terceiro, do quarto, perdes o remorso e fazes a coisa automaticamente, como se a pilhagem e a destruição fizessem parte de ti.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Sim?

Conhecer a vida dos outros 2

Poderia jurar que isto sou eu:

Se alguém me abordava da maneira certa, sabia ser franco, encantador e positivamente gregário. De outro modo, era fechado e taciturno, quase ausente. Acreditava em mim e, ao mesmo tempo, não tinha confiança nenhuma em mim.

- Paul Auster, Da Mão para a Boca

Conhecer a vida dos outros

É bom saber que outros viveram o mesmo que eu:

Entre os meus vinte anos e o início dos trinta, atravessei um período de vários anos em que tudo aquilo em que tocava se transformava num fracasso: o meu casamento terminou em divórcio, o meu trabalho como escritor soçobrou e vivi assoberbado por problemas de dinheiro. Não estou a falar de uma simples e ocasional escassez de fundos ou de alguma necessidade periódica de apertar o cinto, mas sim de uma falta de dinheiro contínua, crónica, opressiva, quase asfixiante, que me envenenava a alma e me mantinha num estado de pânico interminável.

- Paul Auster, Da Mão para a Boca

sábado, 26 de dezembro de 2009

Maradona (2008), Emir Kusturica




I should have left a long time ago
The best idea I've ever had

Prioridades

O bicho perguntou à velha se sentia desejo sexual. A velha disse que sim, mas que a resolução do problema da solidão vinha primeiro.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Slumdog Millionaire (2008), Danny Boyle

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Sonho

Um teórico da alienação diz que o sonho nega a realidade existente. Mas o meu sonho é sempre negro.

Os portugueses (quer dizer que foi o espírito de grupo que salvou a Suécia?)



Um professor muito reputado, principalmente quando traz a cara muito inchada devido ao nó da gravata, diz-me que não posso ceder a impulsos portugueses como o pessimismo, o sarcasmo, o bota-abaixismo, a tristeza ou o inefável individualismo, e que uma graxinha de vez em quando não magoa ninguém. Quer dizer que sou muito português por ter sido alimentado durante anos por estes impulsos? E eu que pensava que a prática lusitana era ter contratos para toda a vida no Estado, arranjar subsídios no Estado para publicar livros de colóquios ou teses de mestrado e de doutoramento que, apesar de não serem lidos, têm tiragens de mil exemplares, ou atacar tipos sozinhos loucos ou com mau feitio que não se juntam às ovelhinhas. Afinal, os portugueses são sarcásticos e muito bota-abaixistas e muito individualistas. Pelo andar da coisa, aparecerá alguém a garantir que José Sócrates se doutorou em Hobbes e Locke e que Michael Oakeshott era um perigoso socialista. Aqui fica uma palavra em inglês para os loucos que querem fazer tudo sozinhos nesta querida pátria: restless.

James Meredith, Marcha Contra o Medo (1966)



Não tenhas medo, terás de passar pelos cães de qualquer maneira. Se tiveres de rastejar, ainda mais importância terá o teu acto.

Liquidação

Na hora de se deitar, o bicho lembrou-se das sábias palavras da avó («Não vivas o dia como se fosse o último») e contorceu-se de remorsos por ter gasto todo o seu dinheiro numa livraria em liquidação.

Os romances de Paul Auster

Leia-se um texto que diz mal de Paul Auster. Previno os leitores habituados à crítica nacional que James Wood não se limita ao gosto/não gosto, ao é bonito/feio, ao mais adjectivo/menos adjectivo ou ao falo bem se for amigo/falo mal se não for. Aqui deixo os excertos que considero mais relevantes:


Clichés, borrowed language, bourgeois bêtises are intricately bound up with modern and postmodern literature. For Flaubert, the cliché and the received idea are beasts to be toyed with and then slain. “Madame Bovary” actually italicizes examples of foolish or sentimental phrasing. Charles Bovary’s conversation is likened to a pavement, over which many people have walked; twentieth-century literature, violently conscious of mass culture, extends this idea of the self as a kind of borrowed tissue, full of other people’s germs. Among modern and postmodern writers, Beckett, Nabokov, Richard Yates, Thomas Bernhard, Muriel Spark, Don DeLillo, Martin Amis, and David Foster Wallace have all employed and impaled cliché in their work. Paul Auster is probably America’s best-known postmodern novelist; his “New York Trilogy” must have been read by thousands who do not usually read avant-garde fiction. Auster clearly shares this engagement with mediation and borrowedness—hence, his cinematic plots and rather bogus dialogue—and yet he does nothing with cliché except use it.

(...)

One reads Auster’s novels very fast, because they are lucidly written, because the grammar of the prose is the grammar of the most familiar realism (the kind that is, in fact, comfortingly artificial), and because the plots, full of sneaky turns and surprises and violent irruptions, have what the Times once called “all the suspense and pace of a bestselling thriller.” There are no semantic obstacles, lexical difficulties, or syntactical challenges. The books fairly hum along. The reason Auster is not a realist writer, of course, is that his larger narrative games are anti-realist or surrealist.

(...)

What Auster often gets instead is the worst of both worlds: fake realism and shallow skepticism. The two weaknesses are related. Auster is a compelling storyteller, but his stories are assertions rather than persuasions. They declare themselves; they hound the next revelation. Because nothing is persuasively assembled, the inevitable postmodern disassembly leaves one largely untouched. (The disassembly is also grindingly explicit, spelled out in billboard-size type.) Presence fails to turn into significant absence, because presence was not present enough. This is the crevasse that divides Auster from novelists like José Saramago, or the Philip Roth of “The Ghost Writer.” Saramago’s realism is braced with skepticism, so his skepticism feels real. Roth’s narrative games emerge naturally from his consideration of ordinary human ironies and comedies; they do not start life as allegories about the relativity of mimesis, though they may become them. Saramago and Roth both assemble and disassemble their stories in ways that seem fundamentally grave. Auster, despite all the games, is the least ironic of contemporary writers.

(...)

The classic formulations of postmodernism, by philosophers and theorists like Maurice Blanchot and Ihab Hassan, emphasize the way that contemporary language abuts silence. For Blanchot, as indeed for Beckett, language is always announcing its invalidity. Texts stutter and fragment, shred themselves around a void. Perhaps the strangest element of Auster’s reputation as an American postmodernist is that his language never registers this kind of absence at the level of the sentence. The void is all too speakable in Auster’s work. The pleasing, slightly facile books come out almost every year, as tidy and punctual as postage stamps, and the applauding reviewers line up like eager stamp collectors to get the latest issue.

Alice Doesn't Live Here Anymore (1974), Martin Scorsese

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Das mulheres

O AMO - E a Suzon?

JACQUES - Safou-se.

O AMO - Mal?

JACQUES - Não. As mulheres safam-se sempre bem quando não são surpreendidas em flagrante delito.

- Denis Diderot, Jacques o Fatalista

Abandonar a meio

O bicho foi aprendendo a abandonar livros a meio. Esta ainda é uma das poucas virtudes do cansaço: a partir de certa altura, nem tudo entra. Palomar que o diga

Minnie and Moskowitz (1971), John Cassavetes

Transmissão

A prostituta emendou-se, uniu-se a um cidadão honesto e respeitável. Passados vinte anos, e sem nunca ter ouvido história alguma sobre o passado da mãe, a filha da prostituta prostituiu-se. Levanta-se a questão: estará o mal no sangue?

The State of Things (1982), Wim Winders

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Paths of Glory (1957), Stanley Kubrick

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Tombo

Pensas, na tua ignorância de jovem, que manipulas o Outro com palavras brandas e astuciosas, com elogios em momentos estratégicos ou com a traição sempre espetada pelas costas, mas lembra-te disto (para depois não dizeres que o castigo divino foi funesto): o rico nunca diz que é rico porque sabe que é dando a sensação de mão vazia que se ganha um jogo.