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sexta-feira, 14 de maio de 2010
Arquipélago da Insónia
Deixou de narrar e passou a ser voz, várias vozes interiores cortadas por breves vozes exteriores que marcam as pausas e os ritmos. Uma linguagem tão evoluída que se torna ininteligível.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Os escritores
Após a leitura de Vidas Escritas, de Javier Marías, o bicho tentou arrumar ideias: William Faulkner era doido por cavalos, só abria cartas que contivessem dinheiro, era taciturno, adorava o silêncio, lia todos os anos D. Quixote; Joseph Conrad era tão distraído que queimava os móveis e as roupas com cigarros, o seu estado natural era uma inquietação que rondava a irritabilidade, usava monóculo e detestava poesia e Dostoiévski; Isak Dinesen (ou Karen Blixen) foi gozada por Arthur Miller por só beber champanhe e comer ostras, renunciou à vida sexual devido a uma sífilis; James Joyce escrevia cartas pornográficas à sua mulher Nora Barnacle («Vens-te enquanto cagas ou masturbas-te até ao fim primeiro e cagas a seguir?»), era pomposo, supersticioso, convencido, taciturno e orgulhoso, embebedava-se até de madrugada; Giuseppe Tomasi di Lampedusa nunca sentiu o que era ser escritor por nunca ter sido publicado em vida, foi um leitor obsessivo, deixou cerca de mil páginas sobre literatura inglesa e francesa; Henry James era corpulento e possuidor de um olhar temível, penetrante, falava com tantos rodeios e parênteses que, em vez de dizer «cão», dizia «uma coisa negra, uma coisa canina...», as suas relações com as mulheres foram pouco mais que inexistentes; Arthur Conan Doyle era autoritário com a família; Robert Louis Stevenson dava-se com criminosos na juventude mas era muito generoso; Ivan Turgeniev sofreu o ódio e o desprezo dos seus compatriotas, que viam nele um ocidentalizado, ateu, que passava demasiado tempo em França, era apaixonado pela cantora Pauline Viardot (conhecida como La Garcia), que não hesitava em humilhá-lo, confiava muito nas pessoas e passava o tempo a ser enganado; Thomas Mann achava-se genial e importante, cada passo que dava era digno de ser registado no seu diário («Irritação intestinal»), olhava para meninos com desejo de dormir com eles; Vladimir Nabokov era pouco dotado para dar aulas (lia-as para dentro), dava opiniões demasiado fortes para o pacato mundo de Nova Inglaterra (ensinou na Cornell University e no Wellesley College), adorava borboletas, detestava Dr. Jivago, Freud e o epiléptico Dostoiévski, sofria de insónias; Rainer Maria Rilke andou com muitas mulheres mas a condessa de Noailles achou-o muito feio; Malcolm Lowry vendia a roupa para comprar álcool; a Madame du Deffand pregava o agnosticismo e participou em várias orgias; Rudyard Kipling não apreciava graçolas, detestava intromissões na sua vida privada, recusava-se a falar sobre a obra dos seus contemporâneos; Arthur Rimbaud deixou de escrever aos 20 anos, não tomava banho, enchia os colchões dos amigos de piolhos, a sua atribulada amizade com Verlaine e Mathilde (mulher deste) acabou com a prisão de Verlaine (por ter perseguido Rimbaud com uma arma); Djuna Barnes era mais elegante do que bela e, apesar de ter Carson McCullers doida por ela, tinha como companheira uma escultora chamada Thelma Wood; Oscar Wilde era um grande conversador, tinha mãos pegajosas e gostava de ir para a cama com gente de ambos os sexos, casou com Constance Lloyd, que lhe deu dois filhos e apanhou sífilis de uma prostituta; Yukio Mishima, fortemente atraído pela morte, organizou um pequeno exército de cem homens, os Tatenokai (Sociedade do Escudo) e, a 25 de Novembro de 1970, acabou por fazer harakiri; Lawrence Sterne fez-se clérigo em Cambridge e, quando morreu, o seu cadáver foi roubado à terra e acabou nas mãos de um médico que ensinava precisamente na mesma universidade.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
O problema dos autodidactas

Em Às Avessas (Lisboa, Assírio & Alvim, 1990), Vasco Pulido Valente dá a sua opinião sobre os autodidactas: «O azar do autodidacta é o de que ele, como jamais estudou nada do princípio ao fim, com alguma ordem e alguma minúcia, não sabe em que consiste isso de saber.» E dá como exemplo Ramalho Ortigão, um ser que, apesar de ter encomendado livros em Paris e em Londres sobre os mais variados temas, desde a química à filosofia, passando pela mecânica, não saía da irrelevância.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Nikolai Leskov*
Nikolai Leskov (1831-1895). Influenciado por Tolstoi (interesses e simpatias pelo campesinato) e por Dostoiévski (tendências religiosas). Pertenceu à igreja ortodoxa mas não deixava de se opor à burocracia eclesiástica. Não se dava bem com o funcionalismo leigo. Os cargos públicos que exerceu foram de curta duração. Ocupou durante muito tempo o lugar de representante russo de uma grande firma inglesa. Viajou pela Rússia. Apesar de dotado de religiosidade, não era dado à exaltação mística. Começou a escrever aos vinte e nove anos. Escreveu sobre a classe operária, o alcoolismo, os médicos da polícia e os negociantes desempregados.
*Ver W. Benjamin, Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política
domingo, 28 de junho de 2009
Os Logocratas, George Steiner
Tal como Walter Benjamin, gostaria de um dia vir a escrever um livro só com citações.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
A favor
Contra a publicação do Diário de Luto, notas de Roland Barthes sobre a morte da mãe, pelas edições Seuil, poder-se-ia dizer que as grandes obras do autor já foram publicadas e, portanto, esta não trará nada de substancial. Por outro lado, como não transformar em livro as palavras que um autor consagrado não quis publicar, sabendo que, se não forem publicados, os escritos cairão no esquecimento?
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Nietzsche 2
Não há nada mais perigoso e mais ignorante do que o homem que deposita toda a sua força numa só ideia.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
De Maistre
O Homem é louco, irracional, lunático, por conseguinte, deve ser controlado por indivíduos investidos do dever que lhes foi imposto pelo Criador.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Nietzsche
A decadência como experiência pessoal. Um homem que sabe dar valor à saúde por ter estado doente.
domingo, 11 de janeiro de 2009
Moshé Dayan
Os melhores guerreiros são os piores amantes. Que o diga a israelita Ruth Dayan a propósito de Moshé Dayan (1915(1915-05-20)-1981): «Se ele fosse um bom marido talvez não fosse um bom soldado» (in Diário Popular, 12-10-69).
domingo, 14 de dezembro de 2008
A experiência da guerra num velho alemão
*Já publicado no Orgia Literária
Ernst Jünger (1895-1998) atravessou várias fases da História Contemporânea. Se nos remetermos apenas ao que se passou dentro das fronteiras alemãs, contamos com a passagem do autor pelo Império, pela República de Weimar, pelo regime de Hitler, pela República Federal e pela Alemanha reunificada.
Jünger alistou-se como voluntário para a Primeira Guerra aos dezanove anos. Durante o tempo que gastou a combater, leu Nietzsche, Schopenhauer, Goethe, Sterne, Ariosto, entre outros. Para além da leitura, a escrita de diários também fazia parte da sua rotina. Ferido várias vezes, o autor viria a descrever, em A Guerra como Experiência Interior, muitas das situações pelas quais haviam passado os soldados. Eram os devastadores efeitos psicológicos da guerra nas mentes dos seres humanos que lhe importavam retratar. Logo nas primeiras páginas, referia o seguinte: «Sob a superfície polida cada vez com mais brilho, sob os adornos com que nos ataviávamos como mágicos de feira, continuávamos tão nus e tão brutos como os homens das florestas e das estepes.» Numa época de suposto progresso industrial, as populações europeias não estavam mentalmente preparadas para a descrença no brilho e na felicidade dos bens materiais. Isso levaria a que o autor argumentasse que o desenvolvimento contínuo não passava de uma ilusão. Se «a selvajaria, a brutalidade, a crueza própria do instinto, se alisaram, polidas, esbatidas ao fim de milénios em que a sociedade refreou a pulsão dos apetites e dos desejos», o «bestial» continuava. O atavismo fazia sempre questão de irromper nas veias do animal racional: «Dilacerado pela fome, na união anelante dos sexos, no choque do combate mortal, ele continua como foi sempre.» Dir-se-ia que, face à força bruta, o progresso nada representava.
Uma das temáticas exploradas pelo autor ao longo desta obra é a do horror. Enquanto combatente, experimentara o horror sob diversas perspectivas. A primeira dessas perspectivas, e talvez a mais curiosa, era a do prazer. «Não seria prazer que o horror me causava? Ninguém pode dizer que é estranho aos prazeres das crianças e do povo.» Havia também o horror à morte e à putrefacção. «Para quê poupar os nervos? Não ficámos, uma vez, quatro dias seguidos num caminho fundo entre cadáveres? Não estávamos todos, mortos e vivos, recobertos de um grosso tapete de grandes moscas azuis-escuras?» A indiferença ao horror. A fuga ao horror. O espanto. «Na noite de uma batalha, à procura de um amigo caído, separei à viva força os corpos de um montão de cadáveres, De repente, do dólman rasgado de um deles, um rato gordo saltou-me à cara.» Se a violência provocada pela guerra poderia originar algum tipo de prazer aos que nela participavam, também originava dor, sofrimento, nojo, espanto, indiferença.
O quarto capítulo de A Guerra como Experiência Interior dá pelo nome de «Trincheira». Seguindo as palavras de Jünger, trincheira era «muralha e bastião entre mundos que se combatem, mas não só: muralha e antro de trevas para os corações que aspirava e expelia numa incessante alternância.» A trincheira era lugar de tensão, um peso cada vez maior para os seus ocupantes, sítio onde os silêncios se ocupavam com sangue: «Os dias e as noites passavam de novo sobre a trincheira (…). Lentamente, os mortos desfaziam-se, ligavam-se à terra, à trincheira por que tinham combatido.»
Após um longo período de acalmia e de prosperidade motivada pelo surto industrial, os povos do mundo, mas mais especificamente os povos europeus, voltaram a descobrir o ser animal dentro deles próprios. Jünger falava da redescoberta da violência. Contudo, como em tudo o que era brutal, animal, a violência estava associada ao eros, à sensualidade. Volte-se a citar o autor de Sobre as Falésias de Mármore: «Qualquer abalo nos fundamentos da civilização desencadeia bruscas erupções de sensualidade.» Todavia, quem participava numa guerra entrava numa espécie de incerteza, de dúvida, a vida tornava-se precária. Por conseguinte, vivia-se nos limites. O álcool, por exemplo, era algo que não poderia passar ao lado do soldado.
O pacifismo, ou a sua crítica. Seguindo aquilo que Nicolau Maquiavel já havia defendido séculos antes, referia Jünger: «a guerra é o mais forte encontro dos povos.» E acrescentava que uma civilização, por mais forte que pudesse ser, não perderia a sua fragilidade enquanto não se dotasse de um sistema militar forte, capaz de vencer as grandes batalhas. Como combatente, Jünger professava a bravura do guerreiro como se apenas quisesse mostrar que nada havia de mais importante numa guerra do que os próprios soldados.
Outra questão posta em relevo em A Guerra como Experiência Interior foi já bastante explorada por outros autores, entre os quais se destacaria George Steiner. Será possível cultivar o espírito no meio da trincheira? Melhor: poderão os homens da frente, aqueles alemães que assaltavam os postos franceses, ler Rabelais, Molière, Baudelaire? Poderá um alemão falar em língua francesa com um soldado francês e depois enchê-lo de balas? Poder-se-á falar na trincheira de algum mestre flamengo? Poderá um homem morrer baleado porque se distraía a ler um escritor russo? Não só pelas palavras de Jünger mas também por aquilo que praticou durante os tempos em que foi soldado activo na Primeira Grande Guerra, é possível verificar-se que a erudição anda lado a lado com a realidade bélica.
Todavia, a guerra faz parte dos nossos instintos. A barbárie é algo que não desaparece do peito dos homens, sejam eles muito ou pouco desenvolvidos intelectual e cientificamente. Isto porque a marca do homem primitivo continua sempre presente. Pegando numa expressão usada pelo autor em Tempestades de Aço, «viver é matar.» São as pulsões interiores que os homens contêm dentro de si que levam a que a violência se deixe mostrar. É a necessidade de superiorização de determinada pessoa em relação a outra que faz com que o conflito surja. Por isso mesmo, a paz é uma ilusão: os homens, na sua generalidade, são violentos, remontam sempre aos tempos primitivos, nos quais já se matava e já se morria.
Ernst Jünger (1895-1998) atravessou várias fases da História Contemporânea. Se nos remetermos apenas ao que se passou dentro das fronteiras alemãs, contamos com a passagem do autor pelo Império, pela República de Weimar, pelo regime de Hitler, pela República Federal e pela Alemanha reunificada.Jünger alistou-se como voluntário para a Primeira Guerra aos dezanove anos. Durante o tempo que gastou a combater, leu Nietzsche, Schopenhauer, Goethe, Sterne, Ariosto, entre outros. Para além da leitura, a escrita de diários também fazia parte da sua rotina. Ferido várias vezes, o autor viria a descrever, em A Guerra como Experiência Interior, muitas das situações pelas quais haviam passado os soldados. Eram os devastadores efeitos psicológicos da guerra nas mentes dos seres humanos que lhe importavam retratar. Logo nas primeiras páginas, referia o seguinte: «Sob a superfície polida cada vez com mais brilho, sob os adornos com que nos ataviávamos como mágicos de feira, continuávamos tão nus e tão brutos como os homens das florestas e das estepes.» Numa época de suposto progresso industrial, as populações europeias não estavam mentalmente preparadas para a descrença no brilho e na felicidade dos bens materiais. Isso levaria a que o autor argumentasse que o desenvolvimento contínuo não passava de uma ilusão. Se «a selvajaria, a brutalidade, a crueza própria do instinto, se alisaram, polidas, esbatidas ao fim de milénios em que a sociedade refreou a pulsão dos apetites e dos desejos», o «bestial» continuava. O atavismo fazia sempre questão de irromper nas veias do animal racional: «Dilacerado pela fome, na união anelante dos sexos, no choque do combate mortal, ele continua como foi sempre.» Dir-se-ia que, face à força bruta, o progresso nada representava.
Uma das temáticas exploradas pelo autor ao longo desta obra é a do horror. Enquanto combatente, experimentara o horror sob diversas perspectivas. A primeira dessas perspectivas, e talvez a mais curiosa, era a do prazer. «Não seria prazer que o horror me causava? Ninguém pode dizer que é estranho aos prazeres das crianças e do povo.» Havia também o horror à morte e à putrefacção. «Para quê poupar os nervos? Não ficámos, uma vez, quatro dias seguidos num caminho fundo entre cadáveres? Não estávamos todos, mortos e vivos, recobertos de um grosso tapete de grandes moscas azuis-escuras?» A indiferença ao horror. A fuga ao horror. O espanto. «Na noite de uma batalha, à procura de um amigo caído, separei à viva força os corpos de um montão de cadáveres, De repente, do dólman rasgado de um deles, um rato gordo saltou-me à cara.» Se a violência provocada pela guerra poderia originar algum tipo de prazer aos que nela participavam, também originava dor, sofrimento, nojo, espanto, indiferença.
O quarto capítulo de A Guerra como Experiência Interior dá pelo nome de «Trincheira». Seguindo as palavras de Jünger, trincheira era «muralha e bastião entre mundos que se combatem, mas não só: muralha e antro de trevas para os corações que aspirava e expelia numa incessante alternância.» A trincheira era lugar de tensão, um peso cada vez maior para os seus ocupantes, sítio onde os silêncios se ocupavam com sangue: «Os dias e as noites passavam de novo sobre a trincheira (…). Lentamente, os mortos desfaziam-se, ligavam-se à terra, à trincheira por que tinham combatido.»
Após um longo período de acalmia e de prosperidade motivada pelo surto industrial, os povos do mundo, mas mais especificamente os povos europeus, voltaram a descobrir o ser animal dentro deles próprios. Jünger falava da redescoberta da violência. Contudo, como em tudo o que era brutal, animal, a violência estava associada ao eros, à sensualidade. Volte-se a citar o autor de Sobre as Falésias de Mármore: «Qualquer abalo nos fundamentos da civilização desencadeia bruscas erupções de sensualidade.» Todavia, quem participava numa guerra entrava numa espécie de incerteza, de dúvida, a vida tornava-se precária. Por conseguinte, vivia-se nos limites. O álcool, por exemplo, era algo que não poderia passar ao lado do soldado.
O pacifismo, ou a sua crítica. Seguindo aquilo que Nicolau Maquiavel já havia defendido séculos antes, referia Jünger: «a guerra é o mais forte encontro dos povos.» E acrescentava que uma civilização, por mais forte que pudesse ser, não perderia a sua fragilidade enquanto não se dotasse de um sistema militar forte, capaz de vencer as grandes batalhas. Como combatente, Jünger professava a bravura do guerreiro como se apenas quisesse mostrar que nada havia de mais importante numa guerra do que os próprios soldados.
Outra questão posta em relevo em A Guerra como Experiência Interior foi já bastante explorada por outros autores, entre os quais se destacaria George Steiner. Será possível cultivar o espírito no meio da trincheira? Melhor: poderão os homens da frente, aqueles alemães que assaltavam os postos franceses, ler Rabelais, Molière, Baudelaire? Poderá um alemão falar em língua francesa com um soldado francês e depois enchê-lo de balas? Poder-se-á falar na trincheira de algum mestre flamengo? Poderá um homem morrer baleado porque se distraía a ler um escritor russo? Não só pelas palavras de Jünger mas também por aquilo que praticou durante os tempos em que foi soldado activo na Primeira Grande Guerra, é possível verificar-se que a erudição anda lado a lado com a realidade bélica.
Todavia, a guerra faz parte dos nossos instintos. A barbárie é algo que não desaparece do peito dos homens, sejam eles muito ou pouco desenvolvidos intelectual e cientificamente. Isto porque a marca do homem primitivo continua sempre presente. Pegando numa expressão usada pelo autor em Tempestades de Aço, «viver é matar.» São as pulsões interiores que os homens contêm dentro de si que levam a que a violência se deixe mostrar. É a necessidade de superiorização de determinada pessoa em relação a outra que faz com que o conflito surja. Por isso mesmo, a paz é uma ilusão: os homens, na sua generalidade, são violentos, remontam sempre aos tempos primitivos, nos quais já se matava e já se morria.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Do kitsch
Em Blow-Up (1966), primeiro filme em inglês de Michelangelo Antonioni (1912-2007), no qual Jane Birkin (n.1946) é filmada nua, existe uma muito boa crítica ao chamado kitsch. A assistir a um concerto, o fotógrafo Thomas, personagem interpretada por David Hemmings (1941-2003), leva com um pedaço de guitarra que um dos membros da banda em actuação partira e atirara para o público. Como toda a gente queria o objecto, o fotógrafo fugiu do público que o perseguia. Contudo, já na rua e afastado da multidão, atirou-o para o lixo. Ou seja, se a disputa pelo produto mágico que o músico famoso decidira dar às massas levara o fotógrafo a fugir para não perder o que lhe caíra nas mãos por sorte, na rua, longe do irracionalismo colectivo, viu que aquele pedaço de guitarra que tinha não lhe servia para nada.
domingo, 16 de novembro de 2008
Fédon
Estou rodeado de amigos e tenho o veneno nas veias. Vou morrer. Mas sei que, do outro lado, encontrar-me-ei com outra realidade. Se o sol derrete a neve e se o frio arrefece o calor, a morte apaga a vida e a vida apaga a morte. O momento de morrer não é o fim, portanto. Estou a desaparecer, meus amigos, é triste: mas pensem que a vida continuará a existir para quem sempre foi virtuoso.
Críton
Não se deve responder à injustiça com injustiça. Mesmo que a justiça tenha sido injusta para comigo, tenho o dever de cumprir a pena que me foi aplicada. Tudo em nome da comunidade.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
A arte e Marcuse
Herbert Marcuse diz, em Counterrevolution and Revolt, o que é a obra de arte: the authentic oeuvre has indeed a meaning which claims general validity, objectivity. Ou seja, pode haver arte feita por burgueses com características burguesas (dá o exemplo de Dickens), mas a obra, sendo dotada de significado universal, não é burguesa mas apenas arte. Marcuse diz também que, se a cultura burguesa é feita para elites, isso já acontece desde a Antiguidade. O que o leva a argumentar que a revolução cultural, adaptando Marx aos tempos modernos, deve ser feita para além da burguesia. Contudo, o mesmo pode ser dito para as classes trabalhadoras. Já não existindo proletariado, mas uma grande maioria de trabalhadores explorados (incluindo a classe média) dentro de uma sociedade de consumo, o conceito de classe trabalhadora deverá ser alterado, alargado. Os romances para negros, por exemplo, são um bom exemplo, deste necessário alargamento.
Conjugando a arte com a revolução, Marcuse defende o esforço para encontrar formas de comunicação artísticas que possam quebrar o domínio opressivo da linguagem estabelecida e das imagens que oprimem o corpo humano. A esse esforço dá o nome de comunicação dos não-conformados. A linguagem dos oprimidos. E como se processará a revolução? Através do sonho. O sonho precisa de se tornar força política. Por virtude de uma forma estética, a obra cria o seu próprio universo de seriedade, que não é o da realidade existente, mas a sua negação. Em Brecht, afirma Marcuse, a revolução está mais presente na lírica do que nas peças políticas. Assim, a beleza artística funciona, não só como negação da realidade, mas como elemento de criação de um outro mundo que, embora combatendo a racionalidade, a Razão do Establishment, dará a mão à causa dos oprimidos.
Ora, o que me interessa em Marcuse é a definição de clássico: aquilo que tem validade, que pode ser lido em qualquer altura, em qualquer tempo. Tudo o resto nada me diz. No meu entender, o escritor apenas provoca revoluções dentro dele próprio, para ele próprio, contra ele próprio. Nada de mudar o Establishment. A arte como fuga da realidade é uma imagem bonita e aconselha-se, no entanto, o objectivo primordial do escritor não deverá ser esse.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Um apontamento sobre uma ida à Fnac
A Fnac do Chiado tem Happy Together (Wong Kar-Wai), um dos meus filmes preferidos, na área gay & lesbian. Se, do ponto de vista moral, não me parece ofensivo o facto de um filme que aborda a triste história de um homem que ama outro homem estar guardado na área gay, do ponto de vista artístico, parece-me completamente errado haver uma etiqueta gay para o que quer que seja. Ao colocar uma etiqueta num produto, chamando-o de homossexual, estou a desvalorizá-lo enquanto arte. Falemos de contemplação: alguém que procure uma história de amor, uma coisa de fazer chorar o rio Hudson, vai procurar o seu produto, precisamente, na área que diz «drama» e não na parte «gay», que, quer se queira ou não, desvia o cérebro do consumidor daquilo que realmente pretende.
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Pensadores nacionais
Um texto meu sobre «pensadores nacionais» no Sempre a Produzir.
O acto de generalizar não representa o mais alto nível de honestidade intelectual, nem sequer para lá caminha, no entanto, quando se está a dar uma simples e banal opinião sobre determinado assunto, pouco importa que certas generalizações pareçam erradas a quem as possa vir a ler.
Assim sendo, sinto-me livre para divagar sobre aquilo que penso que sejam os pensadores nacionais.
Quando li a Arte de Ser Português, fiquei com a ideia de que Teixeira de Pascoaes tentava ser optimista em relação a um povo que não lhe dava grandes motivos para sorrir. Em relação a isso, já Miguel Esteves Cardoso me tinha alertado no seu prefácio ao livro: «Os Portugueses não queriam ser quem ele queria. Os Portugueses de Pascoaes nem sequer existiam. Pascoaes nunca percebeu que era tudo invenção dele.»
Eu diria mais: os portugueses de Pascoaes não eram bem portugueses, eram o mito. O mito de Camões, da pátria, de Afonso Henriques, de Vasco da Gama: «As Descobertas foram uma obra essencialmente portuguesa, porque o génio português, encarnado em Camões, lhe deu a forma espiritual, sublimada e eterna.»
A grandeza nacional não pode ser grande quando aquilo que verdadeiramente aconteceu foi sempre na direcção de um lento caminhar para a catástrofe.
Imagine-se se, em tempos de conquista, setenta por cento da população portuguesa passasse fome. Ou se, para que houvesse um Convento de Mafra, os desgraçados tivessem que agonizar. Pense-se que isso pode ter sido verdade.
Clara Pinto Correia, autora de um romance genial, diria melhor: «Se nós nem quando fizemos o nosso melhor fomos bons nisso, porque é que havíamos de ser bons agora fosse no que fosse, estafados, empobrecidos, sugados até ao tutano e com os restos atirados aos cães?» (Trinta Anos de Democracia – E Depois, Pronto).
Por que motivo os portugueses passam a vida a pensar que têm uma superioridade moral em relação a tudo o que não é «nosso»? Já se sabe: não há comida como a portuguesa, não há hino tão bonito como o nosso, não há cidade mais bonita do que Lisboa e praias mais vistosas do que as do Algarve ou de Santa Cruz ou da Ericeira.
A língua portuguesa é, surpresa das surpresas, a mais complexa das línguas. Pois.
Uma generalização: o pensador português é alguém que me irrita. Ainda não começou a escrever e já sei que vou achar pretensioso, ridículo, idiota, imbecil, analfabeto.
Digam-me que não é bem assim, que temos homens de valor como Eduardo Lourenço ou Jorge de Sena. Pois sim. Lourenço vive em França, Sena viveu no Brasil e, posteriormente, nos Estados Unidos.
Sartre, Camus, Aron, Heidegger, Berlin, Popper, Hayek? Não são portugueses. Resta o pensador português que, embora não pertença verdadeiramente a nenhuma elite cultural, se julga dotado, não só de um QI de proporções dantescas, como de uma moral superior a qualquer outra coisa que seja diferente da sua voz.
O intelectual português não fala para mais ninguém do que para ele próprio. Verdade seja dita: só poderia ser dessa maneira. Intelectual nacional que tivesse verdadeiro público, deveria preparar-se para levar com quilos de tomates. Mas não. O intelectual fala para dentro. O público não ouve, não escuta, não quer saber. E, quando quer saber, quando se interessa, é para imitar, para copiar, para ser igual ou melhor do que o intelectual que fala para si próprio.
Verdadeiros génios em Portugal? O Nobel iberista, José Saramago? Não vive em Portugal e, por mais qualidades que possa ter, é bom em tudo menos a ter ideias.
Os escritores são bons em Portugal, diz-se. Os poetas portugueses ainda são melhores do que tudo o resto que possa existir no país. Pois bem. Caro leitor: tem lido poesia portuguesa? Gosta? Se gosta, tem o hábito de ler poesia estrangeira? Se tem, por que motivo consegue gostar da poesia que se publica actualmente em Portugal?
Um poeta actualmente genial dentro de portas: nenhum. Não há nenhum génio a escrever versos em Portugal (não digo onde vivo, para que não me queiram linchar). Todavia, admito que possa existir algo para além do normal, do medíocre, a respirar dentro de fronteiras.
Já dizia Rubem Fonseca que nenhum escritor admite a sua mediocridade. Quem me estiver a ler, pensará «o tipo é um idiota, não conhece a minha escrita brilhante.» Claro.
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