Dedicado a David Cronenberg
Aranha, querida aranha, deixa-me sair da tua teia. Não me faças mal. Não precisaste da força para me levares contigo. Minha amiga, minha amiguinha, dá-me o prazer de, pelo menos uma vez, conhecer a luz do dia, sair do quarto escuro. As memórias são longas. Poderia contar tudo sobre o passado: o pai fugiu, a criança ficou. As memórias doem nas têmporas. A criança ficou deitada na sua caminha de pré-adolescente à espera que algo acontecesse. Um milagre que trouxesse o velho de volta. Uma carta do velho que demonstrasse o mais pequeno sentimento. Que Deus inventasse um avô. Foi deste jeito que a criança ficou deitada. Sabes que é muito exasperante esperar, minha cara. Fazer fretes, contar segundos para estar com uma pessoa. A criança nunca esteve com o pai, nem com o avô, nem com pessoas, porque estas são todas más, querem destruir, cortar pedaços do corpo, partir os ossos, fazer nódoas negras nos olhos. Esperar, caro animal, como pode uma criança fazê-lo quando está ansiosa por tudo, desde conhecer a galáxia a dar festinhas nas pernas da ninfeta? Como podes constatar, sou pacífico, calminho mesmo. E se não fosse, a tua teia seria tão forte que me impediria de me movimentar. Precisaria de todas as armas possíveis para rebentar com o que me prende. As tuas algemas são fortes, ferem-me os pulsos e um coração que parece estar a perder força de dia para dia. Nunca te resisti. Apareceste dizendo que tinhas mandato de busca e de apreensão e levaste-me na tua jaula. Fiquei fechado na escuridão durante séculos. Não me alimentaste, nem me apaparicaste. Quando me deste palavras, já eu tinha perdido a alegria. Estava pálido, cego, completamente à deriva. Cheguei a pensar que estava morto (compreende o que é o negro nos olhos). Gostaria de ter morrido dentro da tua jaula, amiga aranha. Agora, aqui estou na tua teia, a ver mas com os membros amarrados a fios mais duros do que aço. Espero, muito sinceramente, que um dia me possas libertar, fazer-me uma surpresa. Que a criança voltasse a sorrir, por exemplo, seria extremamente agradável.
Aranha, querida aranha, deixa-me sair da tua teia. Não me faças mal. Não precisaste da força para me levares contigo. Minha amiga, minha amiguinha, dá-me o prazer de, pelo menos uma vez, conhecer a luz do dia, sair do quarto escuro. As memórias são longas. Poderia contar tudo sobre o passado: o pai fugiu, a criança ficou. As memórias doem nas têmporas. A criança ficou deitada na sua caminha de pré-adolescente à espera que algo acontecesse. Um milagre que trouxesse o velho de volta. Uma carta do velho que demonstrasse o mais pequeno sentimento. Que Deus inventasse um avô. Foi deste jeito que a criança ficou deitada. Sabes que é muito exasperante esperar, minha cara. Fazer fretes, contar segundos para estar com uma pessoa. A criança nunca esteve com o pai, nem com o avô, nem com pessoas, porque estas são todas más, querem destruir, cortar pedaços do corpo, partir os ossos, fazer nódoas negras nos olhos. Esperar, caro animal, como pode uma criança fazê-lo quando está ansiosa por tudo, desde conhecer a galáxia a dar festinhas nas pernas da ninfeta? Como podes constatar, sou pacífico, calminho mesmo. E se não fosse, a tua teia seria tão forte que me impediria de me movimentar. Precisaria de todas as armas possíveis para rebentar com o que me prende. As tuas algemas são fortes, ferem-me os pulsos e um coração que parece estar a perder força de dia para dia. Nunca te resisti. Apareceste dizendo que tinhas mandato de busca e de apreensão e levaste-me na tua jaula. Fiquei fechado na escuridão durante séculos. Não me alimentaste, nem me apaparicaste. Quando me deste palavras, já eu tinha perdido a alegria. Estava pálido, cego, completamente à deriva. Cheguei a pensar que estava morto (compreende o que é o negro nos olhos). Gostaria de ter morrido dentro da tua jaula, amiga aranha. Agora, aqui estou na tua teia, a ver mas com os membros amarrados a fios mais duros do que aço. Espero, muito sinceramente, que um dia me possas libertar, fazer-me uma surpresa. Que a criança voltasse a sorrir, por exemplo, seria extremamente agradável.