domingo, 26 de outubro de 2008

Ele e ela (afastamento)



Ela disse que não queria mais nada com ele. Estava tudo acabado. «Podemos ser amigos. Há pessoas que ficam amigas. Não olhes para mim desse modo, consegues arranjar melhor e, mesmo que não conseguisses, continuo a não ser grande coisa.» Devastado, ele começou a chorar. Mas não havia nada a fazer, uma vez que ela já não sentia nada por ele.

Ele ficou sentado no chão a observar a forma como ela se movimentava ao percorrer as divisões da casa. Com os olhos molhados, aplicou vários murros de revolta no chão. «Isto não pode terminar assim.» Tendo o coração vazio, ela apenas tentava empacotar rapidamente algumas roupas dentro de uma mala de viagem. «Para onde vais?»

A dor dele era do tamanho de Saturno. Queria apertá-la nos braços e dizer: «Fujamos do passado. Sei que fui mau, perverso, tudo o que quiseres. Nunca te liguei nenhuma. Não te mereço, não, não te mereço mesmo. Mas abraça-me e foge comigo e deita-te nesta cama e deixa-me dar-te tudo aquilo que nunca te dei.» Mas ficou calado a sofrer, a empurrar a língua para o palato, para que a sua angústia não soltasse um furacão.

Ela gostara dele. Amara-o. Contudo, começou a deixar de conseguir suportá-lo. «Espero que esta noite ele não venha para casa, que arranje uma amante e que seja muito feliz longe de mim.»

Nem sempre ele a tratara como um homem deve tratar uma mulher. Nem sempre fora adulto. Quando cresceu, era tarde. Ela estava perdida. E ele que a amava tanto.

Ele fechou os olhos e implorou ao divino para que ela não lhe fugisse. Ela abriu a porta de casa. «Vou-me embora.»

Naquele dia, ele rezou para que ela ficasse, para que o abraçasse e o fizesse tocar com a ponta dos dedos nas estrelas. Como ela não ficou, ele deixou de acreditar em Deus.