Ele queria estar com ela. A única coisa que sabia fazer era amor com ela, só com ela. Antigamente, nos tempos da ignorância, ele apanhava mulheres da rua e levava-as para a cama apenas para poder contar aos amigos. Para contar os seus feitos heróicos a gente que não queria saber de heróis. Mas a ignorância foi passando, nunca totalmente, porque a ausência de saber está sempre presente no cérebro do animal. Foi aprendendo que todas as mulheres com quem dormia o deixavam sempre decepcionado. Existem sempre as horas que antecedem o orgasmo, claro. O macho esfrega-se na fêmea e ama-a, adora-a, até não ter esperma dentro dos testículos. Acontecerá sempre do seguinte modo: primeiro, trata-se do corpo, depois, do poema. De cada vez que tentava fazer amor com alguma mulher, ele ficava triste por se sentir vazio, sem vontade de mais nada que fosse diferente de dizer isto: «Foi bom, espero que tenhas gostado, agora desaparece.» E elas desapareciam. Por vezes, chegavam a voltar uma, duas, dez vezes, mas acabavam sempre por desaparecer como fotografias que se rasgam e se põem no lixo.«Por que não gostas de mim?», perguntou uma vez uma rapariga. «Poderias despir-te para mim todos os dias: nunca conseguiria sofrer por ti.» E elas choravam. Algumas. Nenhum homem consegue fazer chorar todas as mulheres. Algumas já é um grande desperdício. Até que chegou o dia. Sim, o dia em que a viu na rua e disse: «Parece francesa.» E ficou a olhar para ela durante muitos dias, meses, anos, séculos, eternidades, ganhou pó, morreu e voltou a nascer. Ela lá estava, sempre francesa e bonita e sorridente e simpática. Uma vez, ele ganhou coragem para lhe falar. Antes disso, precisou de deixar alguns litros de urina caírem-lhe involuntariamente pelas pernas. Mas lá falou. Tão depressa que se pôs a fugir até se ter conseguido esconder debaixo da cama, para que o monstro das figuras ridículas não lhe cobrisse a cara de vergonha. Reconheça-se, no entanto, que ele falou. Isso é o mais importante: ter falado à dama. Há pessoas que se apaixonam por lindas mulheres mas que, por cobardia, se escondem sem lançarem a palavra, o isco. «Queres jantar comigo?» Como quem diz: «Na tua casa ou na minha?» A verdade é que ele, que nunca até ver a francesa se tinha apaixonado, se viu com o coração mais pronto a rebentar do que nunca. «E agora, o que faço a este coração cheio de vermelho?» Ir ter com ela, fazer como os animais: passar por trás, cheirar o pescoço, agarrar. Ele queria estar com ela e esteve e está e vai estar. É assim que as coisas funcionam quando, no meio do incêndio, o velhinho se abraça ao retrato da esposa e decide morrer.