Oldboy
Andas nervoso, tão nervoso, nervosinho. Já tomaste todos os comprimidos, todas as drogas, já foste a santuários, a outros países. Leste livros de autores que nem gostavas só porque te disseram que te fariam bem. E agora? Nada. Sempre o nada. A repetição sempre a fazer mal a quem não conhece mais do que vinte palavras. Como no desporto. Ser o avançado que está sempre a repetir a mesma jogada para não falhar no momento em que lhe forem pedidos os cem por cento de eficácia. A repetir sempre tudo, como se este tudo fosse diferente da palavra nada. É como quando te vêm dizer que a vida é curta, que precisas de aproveitar. Não há nada que aproveitar, porque, quando nasceste, vinhas com uma etiqueta na orelha a dizer tristeza. Querias ser perfeito? Vai culpar aquele que te faz andar com a perna direita para a frente e com a perna esquerda para trás, aquele que te faz ficar parado durante todo o tempo. Os segundos que pensas que tens e que afinal não tens, uma vez que tudo é vão, curto, lento, agonizante, doloroso, angustiante, nojento. Olhas para a cara de um homem: não sabes se te enoja, se te dá pena. Tudo depende da forma como te posicionas em relação a ti próprio. Como te posicionas, amigo? Mal, muito mal. Sê optimista, pensa nos anos que tens e nos que te restam de vida. A mãe morre, a avó morre, o pai morre, os filhos morrem, os amigos morrem, tudo morre, tudo à volta do bicho morre e desaparece e faz sofrer. E agora, para onde vais zé-ninguém? Quem te quer? Para a guerra, para o conflito interior. Ver a bala todos os dias e levar sempre com ela. O sempre, a mesma palavra repetidamente ensaiada até à exaustão, até não dar mais, até ter que mudar de rumo, de estilo, de vida. O sofrimento. Fecha os olhos, fecha-os mesmo, não vale a pena fingires que os tens fechados. Imagina o seguinte: no cimo de um monte, está espetada uma grande cruz de madeira na qual repousam dois, três corvos. O céu que ilumina a cruz, embora não tenha sol, é da cor de uma laranja. Não existem nuvens. Nem gente. Só a cruz e os corvos. E tu, que te encontras a duzentos metros de distância do grande naco de madeira. Caminhas a passos curtos, cada vez mais curtos. Páras. És levado pelo divino para a cruz e lá ficas pregado durante a eternidade. Pensa que a eternidade é o tempo da tua existência. E depois há a esperança. Não penses que tudo é sangue: tens os caderninhos pretos cheios de palavras bonitas, prontas a irem para livros, tens a mulher linda, tens aqueles que gostam de ti, tens os amigos (um?). Há quem se contente com menos. Um mendigo, esboça um sorriso quando recebe um pão. Um drogado desmaia de felicidade quando recebe a esmola para a dose seguinte. Há bem pior, muito pior. O mal absoluto: o homem das cavernas que viajou para a Suíça e que ficou debaixo da avalanche.