Tens o martelo na mão. Que vais fazer com ele? Pousa-o na mesa. Por favor, deixa-o adormecer longe da força. Que fazes, caro amigo, com um martelo na mão numa noite fria como esta? Vai dormir, descansa esses miolos, esse pedaço de estrume. Há imagens que custam, reconheça-se. Abrir a porta de uma casa-de-banho pública e encontrar quatro paredes cobertas por uma pintura de fezes e um homem, chame-se-lhe isso, sentado no chão a brincar com a plasticina fabricada pelos seus intestinos. Duro. Ver a desgraça à porta de casa. O sem-abrigo que só tem jornais para enfiar dentro da camisola piolhosa. Querer amigos e não os ter. Ter vontade de comer um frango assado e só poder abrir a boca para receber pingos de chuva. Certas imagens são como bater com a testa num pedaço de mármore. Duro, duro. Mas diz-me, que fazes com um martelo a estas horas da noite? Vais pregar um prego? Estás à espera da invasão dos bárbaros? Não penses que eles te atacarão durante o período mais frio do dia. O gelo está por todo o lado, ninguém quer sair debaixo dos cobertores.
«Não estou à espera dos bárbaros.»
Não estás à espera dos bárbaros. Muito bem. Boa resposta. Então, por quem esperas? Por Deus? Queres dar com esse meio quilo de metal na cabeça de Deus? E se Ele decidir responder? Poderia acabar com o mundo. Estás à espera de assaltantes? De criminosos que atacam pela calada? Espera. E se o criminoso fores tu?
«O criminoso sou eu.»
Não. Larga o martelo, deixa-o cair no tapete da sala, atira-o contra a janela, parte o vidro e deixa entrar a neve, qualquer coisa, mas larga o martelo. Desfaz-te disso. O crime não compensa. Toda a gente sabe isso, até os mais burros. Vá lá, larga isso, deves ter família, amigos, namoradas. Mulher. Uma fêmea para o quarto escuro, não? Nada? Nada, nadinha, zero. Se não conheceres pessoas, começa à procura, compra uma agenda e pede os nomes, as moradas e os números de telefone dos transeuntes. Dizem que a vida é uma aventura. Procura contactos, olhares. Observa aquela mulher. Tão graciosa, tão bela, tão tudo. Belisca-lhe o rabo, vai lá, vai, sim, belisca-lhe o prolongamento da coluna vertebral. Não. Para que queres um martelo?
«Dói-me.»
Sim, as dores. Agora, explica o martelo.
«Quero fazer com que alguém sinta dores. Como eu.»
Como tu. Tu, sempre tu nesta história. Talvez sofresses menos se houvesse menos tu. Se abdicasses de ter nome, personalidade, ideias, palavras, gestos, desejos, sentirias menos isso a que chamas dor. Mas tudo se resolve, tudo, até a morte. Se caíres para o lado, enfiam-te dentro de um caixão e enterram-te. Problema resolvido. E esse martelo, não o largas?
«Vou matar aquela velha.»