sábado, 27 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Mamã
A mamã não sabe o que é um sentimento. Se lhe pedirem para amar, ela deita-se no chão, abre as pernas e, qual cadela no cio, pede: «Entra.» A mamã poderia ter o homem que quisesse, desde que quisesse apenas um e não todos. Querendo todos, nenhum a quer, e os que a procuram exageram na potência. Acertam-lhe com murros e pontapés. A mamã pensa que, se o homem lhe bate, é por adorá-la. Quando lhe batem, ela sente-se amada e, como não sabe exprimir-se através de sentimentos, ama de volta, oferecendo sexo ao agressor. Possui-me porque agora estou a amar-te, deve pensar a mamã, e o agressor vê o seu trabalho reconhecido. Uma sessão de sexo por cada sessão de pancadaria. Tenho de bater-lhe mais vezes, deve pensar o agressor. A mamã não tem tino. O murro acerta na face, a mulher levanta a saia, o homem baixa as calças, a mulher finge prazer, o homem pensa que é o símbolo machão, a mulher faz ai-ai, o homem desfaz-se em suor, a mulher faz mais ai-ai, o homem é machão. A mamã ganharia muito se percebesse que, apesar do seu aspecto grotesco, o representante masculino da espécie humana não exprime os seus afectos do coração com as nozes dos dedos. O homem apaixonado oferece flores, bilhetes para o cinema, jóias, carinho, qualquer coisa, menos um murro. A mamã fica assaz vaidosa depois de cada bofetada que o seu companheiro lhe oferece. Sinal que se preocupa com a mulher. O estalo é dado para que a mulher se sinta reconhecida. Sim, senhor, este gosta mesmo de mim. A mamã foi empurrada, ficará dorida durante algum tempo. Em reconhecimento disso, aproxima-se do seu agressor, despe-o e entrega-se a ele.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
I don't blame you
Não te culpo. Foste embora porque eras livre para fugires para longe. Não te aponto o dedo. O que digo é que, depois de partires, veio a tristeza. Fiquei preso ao vazio. Esperei por ti durante todos estes meses, não voltaste, não deste notícias. Poderia ter-te algemado na cama. Não teria sido a mesma coisa.
A melancolia

Na verdade, o desgosto não é aquela clara melancolia com que os jovens o definem. É como um assédio numa cidade tropical. A pele cresta-se e a garganta seca como sob o calor do deserto; a água e o vinho parecem-nos mornos na boca e a comida adquire uma consistência de areia; rosnamos a quem nos acompanha; os pensamentos atormentam-nos o sono como mosquitos...
- Rebecca West, O Regresso do Soldado
A form of constancy
I knew that what I was seeking to discover was a thing I'd always known. That all courage was a form of constancy. That it was always himslef that the coward abandoned first.
- Cormac McCarthy, All the Pretty Horses
- Cormac McCarthy, All the Pretty Horses
Abatido
«Um cão só é raivoso enquanto não for abatido», ouviu, e foi para a cama com a frase na cabeça, até adormecer e sonhar que era um cão que ladrava muito e que tinha um dono muito impaciente que tinha uma pistola e que, depois de alguma perseguição, acabava por acertar-lhe com um tiro no focinho.
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Sinais
Jorge de Sena detestava muitas coisas em Portugal. Curiosamente, são muitas dessas coisas que hoje o tornam famoso. Para ele, a crítica portuguesa não existia. Os portugueses cultos que acusava de serem analfabetos, tacanhos e provincianos, são aqueles que tantos anos depois da sua morte elogiam a obra de um «génio desconhecido». Os portugueses que detestava por serem lambe-botas (Sena regozijava-se por não querer nenhum tacho em Portugal), são aqueles que agora abrem um programa de entrevistas intitulado Sinais de Fogo (provavelmente, para lamber as botas a um primeiro-ministro).
Para sempre
Quando disse que era para sempre, esperava que para ti também fosse. Para mim também era. Então? Não deverias ter sido tão radical. Radical, por querer estar contigo? Foste radical. Por gostar de ti. Por dizeres que gostavas de mim para sempre. Até morrer e depois de morrer, juntos até no céu. Que exagero.
Grief
The closest bonds we will ever know are bonds of grief.
- Cormac McCarthy, All the Pretty Horses
- Cormac McCarthy, All the Pretty Horses
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Quando precisares
You never know when you'll be in need of them you're despised, said Blevins.
Where the hell'd you hear that at?
I don't know. I just decided to say it.
- Cormac McCarthy, All the Pretty Horses
Where the hell'd you hear that at?
I don't know. I just decided to say it.
- Cormac McCarthy, All the Pretty Horses
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Alunos especiais
O bicho não entende os alunos da Faculdade de Letras de Lisboa. Não gastam um cêntimo em cadernos ou livros (um aluno dizia que só estudava a partir de apontamentos para não gastar a vista a ler livros) e depois vão escrever poemas nas portas das casas-de-banho enquanto defecam, ou vandalizar paredes com frases como «o fascismo é a meta do capitalismo».
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Espetar a caneta
O escritor enterrou a caneta na carne da mão que escrevia. Já com um pano a tapar a ferida, desabafou: «Será assim tão difícil transpor isto para o papel?»
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
A mãe deitada
A mãe deitada no caixão e a família a tentar descobrir quem roubou o dinheiro da carteira da defunta.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Parto
Nas noites que se seguiram ao parto, a mãe levantava-se para sufocar o filho com uma almofada. Não chegou a sufocá-lo mas pensava sempre: não devias ter nascido, estragaste-me a vida.
Flores
A rapariga garantiu-me que desmaiaria caso alguém lhe oferecesse flores. Comprei-lhe flores. Ela disse-me obrigado e eu, que esperava um desmaio ou uma mera tontura, pensei que era um ninguém.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Mamã
A mamã tem tantos namorados que o filho fica confuso. Nomes a mais para uma cabecinha débil. Há uma forma de salvá-la da desgraça. Amarrando-a com uma corda a uma árvore. Mas mal se veja livre, ela irá a correr para os braços do homem que lhe tem enchido a face de nódoas negras. A mamã não resiste aos mistérios da carne.
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