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sábado, 26 de junho de 2010

Banalidades

Encarregue de escrever um texto sobre O Complexo de Portnoy, um crítico literário do suplemento Ípsilon diz coisas ao alcance de poucos:

«O romance é pouco convencional no sentido em que não está construído de forma a que o leitor alimente expectativas em relação ao final.»
Isto é hilariante porque, seguindo este raciocínio, diríamos que os romances convencionais são aqueles em que os leitores alimentam expectativas em relação ao final.

«Mais que tudo, estamos na presença de um livro cheio de defeitos (é histérico, farsola, cheio de "clichés" e de psicanálise de alpaca), mas que não só transforma uma boa parte desses defeitos em qualidades (...)»

Interessar-me-ia saber onde o crítico encontra estes defeitos. Principalmente, a parte do farsola e da psicanálise de alpaca. Sempre gostei muito de gente que, em vez de interpretar um texto, pega em meia dúzia de rótulos que dizem tudo.

terça-feira, 11 de maio de 2010

A fisionomia do conde de Romanones



Nada como a leitura de um artigo fraquinho imbuído de fracas teorias peninsulares e de tiradas de humor para dar graça a uma tarde de má memória:

O seu nariz expressivo, que se desenvolveu em movimentos vários, guardou todos os estigmas da raça semítica. Os olhos espertos, fechados para melhor verem, parecem dois traços feitos com um tira-linhas. (...) As orelhas grandes, deslocadas do crânio, indicam uma tendência para a raça judaica.


(Lopez Muñoz, Jornal da Noite, 14/4/1917)

sábado, 16 de janeiro de 2010

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Ambição de saber

Ter a ambição de vir a saber distingue-nos dos animais, que, nisso, não são tão estúpidos.

- Miguel Esteves Cardoso, Público

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Os romances de Paul Auster

Leia-se um texto que diz mal de Paul Auster. Previno os leitores habituados à crítica nacional que James Wood não se limita ao gosto/não gosto, ao é bonito/feio, ao mais adjectivo/menos adjectivo ou ao falo bem se for amigo/falo mal se não for. Aqui deixo os excertos que considero mais relevantes:


Clichés, borrowed language, bourgeois bêtises are intricately bound up with modern and postmodern literature. For Flaubert, the cliché and the received idea are beasts to be toyed with and then slain. “Madame Bovary” actually italicizes examples of foolish or sentimental phrasing. Charles Bovary’s conversation is likened to a pavement, over which many people have walked; twentieth-century literature, violently conscious of mass culture, extends this idea of the self as a kind of borrowed tissue, full of other people’s germs. Among modern and postmodern writers, Beckett, Nabokov, Richard Yates, Thomas Bernhard, Muriel Spark, Don DeLillo, Martin Amis, and David Foster Wallace have all employed and impaled cliché in their work. Paul Auster is probably America’s best-known postmodern novelist; his “New York Trilogy” must have been read by thousands who do not usually read avant-garde fiction. Auster clearly shares this engagement with mediation and borrowedness—hence, his cinematic plots and rather bogus dialogue—and yet he does nothing with cliché except use it.

(...)

One reads Auster’s novels very fast, because they are lucidly written, because the grammar of the prose is the grammar of the most familiar realism (the kind that is, in fact, comfortingly artificial), and because the plots, full of sneaky turns and surprises and violent irruptions, have what the Times once called “all the suspense and pace of a bestselling thriller.” There are no semantic obstacles, lexical difficulties, or syntactical challenges. The books fairly hum along. The reason Auster is not a realist writer, of course, is that his larger narrative games are anti-realist or surrealist.

(...)

What Auster often gets instead is the worst of both worlds: fake realism and shallow skepticism. The two weaknesses are related. Auster is a compelling storyteller, but his stories are assertions rather than persuasions. They declare themselves; they hound the next revelation. Because nothing is persuasively assembled, the inevitable postmodern disassembly leaves one largely untouched. (The disassembly is also grindingly explicit, spelled out in billboard-size type.) Presence fails to turn into significant absence, because presence was not present enough. This is the crevasse that divides Auster from novelists like José Saramago, or the Philip Roth of “The Ghost Writer.” Saramago’s realism is braced with skepticism, so his skepticism feels real. Roth’s narrative games emerge naturally from his consideration of ordinary human ironies and comedies; they do not start life as allegories about the relativity of mimesis, though they may become them. Saramago and Roth both assemble and disassemble their stories in ways that seem fundamentally grave. Auster, despite all the games, is the least ironic of contemporary writers.

(...)

The classic formulations of postmodernism, by philosophers and theorists like Maurice Blanchot and Ihab Hassan, emphasize the way that contemporary language abuts silence. For Blanchot, as indeed for Beckett, language is always announcing its invalidity. Texts stutter and fragment, shred themselves around a void. Perhaps the strangest element of Auster’s reputation as an American postmodernist is that his language never registers this kind of absence at the level of the sentence. The void is all too speakable in Auster’s work. The pleasing, slightly facile books come out almost every year, as tidy and punctual as postage stamps, and the applauding reviewers line up like eager stamp collectors to get the latest issue.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Não gostar deste mundo

Chateia-te a idade que tens?

Por um lado dá-me uma grande tranquilidade, porque não gosto muito deste mundo e suponho que isso sucede a todos os velhos, não gosto muito deste mundo normativo em que vivemos.

Vasco Pulido Valente em entrevista ao i.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Maria Filomena Mónica



Recomendo vivamente a entrevista (disponível online) dada por Maria Filomena Mónica, uma intelectual e, acima de tudo, uma escritora que muito prezo, ao jornal i. Aqui fica um excerto:


Os queirosianos vivem do Eça, é como se fossem sanguessugas. O Eça é a razão de ser da carreira e da promoção deles. Tenho a sorte de não pertencer a uma faculdade de letras. Fiz Filosofia, saltei para Sociologia, e agora faço história e de vez em quando escrevo biografias. Não preciso do Eça para subir na carreira. Para começar, já estava no topo, a liberdade era total. Comecei a perceber quando fui a uma conferência nos Estados Unidos, no centenário do Eça em 2000. Havia 40 portugueses que não tomavam o pequeno-almoço comigo, que não se sentavam ao meu lado no autocarro, que não me falavam. Achei aquilo estranho. Mas quem é esta gente? Depois, havia um professor da Faculdade de Letras, o António Feijó, que me disse: "Mas ainda não percebeste? Estás-lhes a roubar o território" Aquilo é território murado, é o território deles. E o professor americano depois explicou-me que quando me convidou por causa da biografia do Eça teve imediatamente cartas de alguns queirosianos a dizer que o Instituto Camões não me devia pagar o avião. Isto disse- -me o americano, que respondeu que se o Instituto Camões não pagasse, a universidade americana pagaria. Não sabia nada disto quando fui, só quando cheguei aos Estados Unidos é que verifiquei que era uma persona non grata.

Mas quem são esses queirosianos?


Basicamente, é o Carlos Reis. É catedrático de Coimbra e agora é reitor da Universidade Aberta. E é autor do mais ridículo programa de Português que eu li em dias da vida. As criancinhas entre o 1.o ano e o 9.o ano vão ter de ser sujeitas a um programa de Português que é uma aberração total e completa. Os outros são assistentes dele. Como ele é catedrático, os outros têm medo de falar comigo, porque se na América os vissem a tomar o pequeno-almoço comigo, depois não iam a professor auxiliar.

sábado, 4 de julho de 2009

Também eu



E eu tive professores na Faculdade de Letras que eram, pura e simplesmente, analfabetos.


- Vasco Pulido Valente, Ler

A ler

O artigo de hoje de Vasco Pulido Valente, no Público. Eis um excerto:

O primeiro problema de Manuel Pinho é a língua portuguesa, que ele não conhece bem. Viveu em Paris, viveu em Washington e partilha com o economista comum uma certa dificuldade de expressão.

terça-feira, 10 de março de 2009

Cavalo Degolado

Até os melhores escritores se deixam acometer por fortes rasgos de mau gosto. Através de artigo de Ana Margarida de Carvalho, no Jornal de Letras, fico a saber que Manhã Submersa, de Vergílio Ferreira, esteve para se chamar Cavalo Degolado.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Fezes intelectuais

É uma grande pena que se não possam ver os intestinos intelectuais dos escritores para que deduzamos o que comeram.

- Mark Twain, Jornal de Letras e Artes, Abril de 1968, p.14.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Aprender a ser mulher



A sensualidade que se exigia nos anos 60 e 70 para a mulher portuguesa era muito diferente da que se exibia lá fora. Enquanto a mulher estrangeira era melhor apreciada nua, a nacional era ainda uma senhora de família a aprender o básico dos básicos da feminilidade, como se depreende de recomendações como esta:

«Uma mulher deve tratar das unhas pelo menos uma vez por semana; fará parte da sua rotina, tal como tomar banho ou lavar a cabeça» (Século Ilustrado, 18-7-70, p.39)

O primeiro



Que rico consolo são as palavras de Augusto Abelaira (1926-2003) para quem vai começar:

«Tornei-me escritor em circunstâncias deveras caricatas: várias editoras se recusaram a editar o livro; uma porém reteve-o durante dois anos com a promessa de que o editaria; mas como se não decidia, resolvi fazer a edição por minha conta» (Notícias da Amadora, 23-3-68. p.5)

domingo, 11 de janeiro de 2009

Moshé Dayan



Os melhores guerreiros são os piores amantes. Que o diga a israelita Ruth Dayan a propósito de Moshé Dayan (1915(1915-05-20)-1981): «Se ele fosse um bom marido talvez não fosse um bom soldado» (in Diário Popular, 12-10-69).

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Buracos em mim para saber como morres

É pelo tiro que nos dão que corrigimos a nossa própria pontaria.

- Millôr Fernandes, Pif-Paf (Diário Popular), 10 de Abril de 1968

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Todos os dias



Aqui.





quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Uma paixão louca

Um paixão desbragada, daquelas que dão vontade de rasgar a camisa no meio da rua, numa carta sentimental de um leitor d' A Mosca, suplemento do Diário de Lisboa, datada de 23 de Maio de 1970:

Mas que confusão! Estou a olhar para a minha mulher e não vejo a cara dela. Vejo a carinha linda da empregada da tabacaria do café que frequento...! Sinceramente, Edwiges, dá-me um conselho para que tudo volte à normalidade! Estou farto desta aventura - porque é uma aventura, uma traição, sei lá o que é!