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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Alunos especiais

O bicho não entende os alunos da Faculdade de Letras de Lisboa. Não gastam um cêntimo em cadernos ou livros (um aluno dizia que só estudava a partir de apontamentos para não gastar a vista a ler livros) e depois vão escrever poemas nas portas das casas-de-banho enquanto defecam, ou vandalizar paredes com frases como «o fascismo é a meta do capitalismo».

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Aguentar

O bicho não aguenta mais mas, como todos os dias é obrigado a aguentar mais e mais, reconhece que não vale a pena queixar-se de um sofrimento que não desaparece.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Ilusões

O bicho não quer sair do planeta das ilusões porque, fora dele, só há vazio. Ter de bater com o queixo no chão, levar pontos, ter tentações suicidas, nem pensar.

Conversa

O bicho julga que não é louco por ficar muito tempo sozinho e já não saber o que pode ou não ser tema de conversa.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Chuva

O bicho acha muito bem que chova muito. Não se vê ninguém nas ruas, dá para vestir camisas sem manchar o tecido de sebo, os dias acabam depressa, as noites são longas, enfim, nem tudo é mau no reino da Dinamarca.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Prioridades

O bicho perguntou à velha se sentia desejo sexual. A velha disse que sim, mas que a resolução do problema da solidão vinha primeiro.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Liquidação

Na hora de se deitar, o bicho lembrou-se das sábias palavras da avó («Não vivas o dia como se fosse o último») e contorceu-se de remorsos por ter gasto todo o seu dinheiro numa livraria em liquidação.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Abandonar a meio

O bicho foi aprendendo a abandonar livros a meio. Esta ainda é uma das poucas virtudes do cansaço: a partir de certa altura, nem tudo entra. Palomar que o diga

sábado, 12 de dezembro de 2009

Despercebido

O bicho passa tão despercebido pela Humanidade que, ontem à noite, a meio de um passeio, ia levando com um bêbedo arremessado por um garçon enraivecido.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Idiotas úteis

O bicho acha que os críticos literários portugueses são do tempo do neo-realismo, mas é capaz de estar enganado porque, depois de ler muito livros, ficou com miopia.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Apertões

Na livraria que vendia os livros baratos, o bicho descobriu que também os produtos culturais podem constituir motivo de discussões e de bofetadas.

sábado, 7 de novembro de 2009

Bicho-gato

O bicho emprestou um livro a um bicho-gato, sem desconfiar que esta espécie de bicho lê com os dentes.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Os escritores

Após a leitura de Vidas Escritas, de Javier Marías, o bicho tentou arrumar ideias: William Faulkner era doido por cavalos, só abria cartas que contivessem dinheiro, era taciturno, adorava o silêncio, lia todos os anos D. Quixote; Joseph Conrad era tão distraído que queimava os móveis e as roupas com cigarros, o seu estado natural era uma inquietação que rondava a irritabilidade, usava monóculo e detestava poesia e Dostoiévski; Isak Dinesen (ou Karen Blixen) foi gozada por Arthur Miller por só beber champanhe e comer ostras, renunciou à vida sexual devido a uma sífilis; James Joyce escrevia cartas pornográficas à sua mulher Nora Barnacle («Vens-te enquanto cagas ou masturbas-te até ao fim primeiro e cagas a seguir?»), era pomposo, supersticioso, convencido, taciturno e orgulhoso, embebedava-se até de madrugada; Giuseppe Tomasi di Lampedusa nunca sentiu o que era ser escritor por nunca ter sido publicado em vida, foi um leitor obsessivo, deixou cerca de mil páginas sobre literatura inglesa e francesa; Henry James era corpulento e possuidor de um olhar temível, penetrante, falava com tantos rodeios e parênteses que, em vez de dizer «cão», dizia «uma coisa negra, uma coisa canina...», as suas relações com as mulheres foram pouco mais que inexistentes; Arthur Conan Doyle era autoritário com a família; Robert Louis Stevenson dava-se com criminosos na juventude mas era muito generoso; Ivan Turgeniev sofreu o ódio e o desprezo dos seus compatriotas, que viam nele um ocidentalizado, ateu, que passava demasiado tempo em França, era apaixonado pela cantora Pauline Viardot (conhecida como La Garcia), que não hesitava em humilhá-lo, confiava muito nas pessoas e passava o tempo a ser enganado; Thomas Mann achava-se genial e importante, cada passo que dava era digno de ser registado no seu diário («Irritação intestinal»), olhava para meninos com desejo de dormir com eles; Vladimir Nabokov era pouco dotado para dar aulas (lia-as para dentro), dava opiniões demasiado fortes para o pacato mundo de Nova Inglaterra (ensinou na Cornell University e no Wellesley College), adorava borboletas, detestava Dr. Jivago, Freud e o epiléptico Dostoiévski, sofria de insónias; Rainer Maria Rilke andou com muitas mulheres mas a condessa de Noailles achou-o muito feio; Malcolm Lowry vendia a roupa para comprar álcool; a Madame du Deffand pregava o agnosticismo e participou em várias orgias; Rudyard Kipling não apreciava graçolas, detestava intromissões na sua vida privada, recusava-se a falar sobre a obra dos seus contemporâneos; Arthur Rimbaud deixou de escrever aos 20 anos, não tomava banho, enchia os colchões dos amigos de piolhos, a sua atribulada amizade com Verlaine e Mathilde (mulher deste) acabou com a prisão de Verlaine (por ter perseguido Rimbaud com uma arma); Djuna Barnes era mais elegante do que bela e, apesar de ter Carson McCullers doida por ela, tinha como companheira uma escultora chamada Thelma Wood; Oscar Wilde era um grande conversador, tinha mãos pegajosas e gostava de ir para a cama com gente de ambos os sexos, casou com Constance Lloyd, que lhe deu dois filhos e apanhou sífilis de uma prostituta; Yukio Mishima, fortemente atraído pela morte, organizou um pequeno exército de cem homens, os Tatenokai (Sociedade do Escudo) e, a 25 de Novembro de 1970, acabou por fazer harakiri; Lawrence Sterne fez-se clérigo em Cambridge e, quando morreu, o seu cadáver foi roubado à terra e acabou nas mãos de um médico que ensinava precisamente na mesma universidade.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Aspecto

O bicho tinha tão mau aspecto que, no autocarro, uma velha enjoada quase lhe vomitava em cima.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Dois marginais à pancada



O bicho viu dois marginais à pancada em Odivelas. Querendo armar-se em grande para a namorada, um deles saiu todo esmurrado. Pensava que chegava lá, esticava o peito e agora é boxe, dás tu um, depois dou eu, como se isto fosse brincadeira de cavalheiros. O bicho teve vontade de dizer ao que saiu esmurrado que não é assim, que é chegar, dar uma patada nos testículos e um uppercut no nariz e não dar tempo ao outro de respirar, porque as rajadas vão como tijolos.

Caderno de gatafunhos

Nas fases de menor proficiência, o bicho abre o seu caderno de gatafunhos e risca todas as folhas brancas que lhe aparecem à frente.

Oito

O bicho precisa muito de dormir. Tanto que, para não se esquecer de se deitar cedo, pintou nas paredes do quarto a seguinte frase: «Dormir oito horas.»

O leitor

O bicho conhece um rapaz chamado Rocinante que não lê livros para não estragar a sua perfeita acuidade visual.

Zumbido

O bicho começou a semana com um forte desejo de não falar com ninguém, de nem sequer dar os bons-dias à senhora do segundo esquerdo. Há fases em que até o zumbido de uma mosca pode dar origem a um assassinato.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Odivelas

O bicho teve de se deslocar a uma terra chamada Odivelas e ficou muito espantado com o que viu. Tanto que, no final do dia, um pouco antes de adormecer, questionou-se se a cidade que visitara não teria parado na década de 90.