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terça-feira, 6 de julho de 2010
Almofada
A almofada a pressionar-lhe a cabeça. Não me mates, não, ainda tenho tanto para dar, sou novo. A almofada na nuca. Tenho tanto para conhecer, queria ter filhos. O gatilho.
terça-feira, 22 de junho de 2010
Ainda bem
«Ainda bem que podemos pegar numa faca e rasgar os pulsos», murmurou o homem, envergonhado e pouco confiante nas suas palavras.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Apanhado
Foste apanhado. Quando se descobre a verdade, cai a guilhotina. O crânio a rebolar. Descobre-se a verdade e, de face inchada (de inchaço de porco), pede-se clemência. Que esqueçam o crime praticado conscientemente.Perdoar a traição planeada e repetida. A dura verdade. Pouco a fazer para além de rezar. Piedade de nós e de todos. Insistir no chamamento do irracional. Baba e ranho na proclamação da fé. Piedade de nós. Responder à pergunta do como foste capaz de trair. A verdade é uma faca espetada no teu estômago. Foi um erro, não se voltará a repetir. Toda a piedade de nós. Foi a última vez.
domingo, 6 de junho de 2010
Parte, quebra
Sei que gosto mais de ti do que tu de mim. Nunca me incomodei com isso, mas sei-o desde o início. É a minha paciência que sustenta a relação. A minha voz enjoa-te, não te atraio, evitas-me. Pode ser exagero, que seja, do aborrecimento não passo. Vivemos juntos e sei que poderias viver com outra qualquer pessoa, que seria parecido. Desde que mantivesses o teu pequeno espaço ou que tivesses comida, poderias abdicar de mim. Não te peço amor, que isso não se fabrica com trabalho. A tua afeição chegava-me, mas deixou de haver afeição. Queres partir? As portas estão abertas, apanha o primeiro táxi e desaparece. Não quero reconquistar-te. Não tens esse tempo. Nem sei bem o que tens de fazer para que as coisas voltem a funcionar, para que nos consigamos relacionar mesmo sendo eu quem carrega o enternecimento. Há algo que podes fazer. Sair-me da frente.
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Fundo sem fim

O erro do costume. Não esquecer. Permanecer, como uma estaca na rocha, agarrado às sombras. Não esquecer as unhas da mulher cravadas nas minhas costas, o sorriso prazenteiro e o cheiro, o cheiro, cometer o mesmo erro, alimentar um tempo que acabou, o cheiro dela no meu nariz, perfume, suor, sorriso, unhas cravadas nos ombros. Esquece-a. Os joelhos no calhau, a testa no calhau, o ar de súplica, que a esqueça. Sentimento insuportável. Ácido nas veias. Tenho um buraco. Um fundo sem fim.
domingo, 30 de maio de 2010
Queda, caio
Queda, cair, caio, rebolo no meio dos calhaus. Dores nas costas, nos joelhos, na nuca. Rebolo nas pedras. Demasiado mundo nos meus olhos fracos. Demasiado mundo. Expurgar o caos. Rebolar durante o tempo necessário para deixar o caos sair. O pânico transformado em soluço e em desilusão e em calma. Chorar o que houver para chorar. Esgotar o arsenal. Amontoo um conjunto de calhaus e sento-me, contemplo o dedo martelado (pena do dedo e de mim próprio), mais uma lágrima em honra da minha miséria. Tenho um buraco no lugar do coração. Chama-se infelicidade. Um buraco do qual não me sei livrar. Suplico-lhe, vai-te embora, infelicidade, tento expulsá-la com murros que me enchem de nódoas negras, sai, infelicidade.
sábado, 29 de maio de 2010
Apagar
Esquecer a outra, estimar esta. Cortá-la aos pedaços. Retalhar o nome, deixar de dizê-lo. A primeira letra. T. Engolir o resto. Apagar a primeira letra antes de dizê-la. Apagar a mulher com os dentes cravados na língua. Não te vou dizer, se o fizer, fraqueza, cobardia, o costume, a decadência e a fraqueza. O só saber agir contigo por perto. O cheiro que me comanda.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Correr melhor
Não tenho a certeza mas, se passar cabisbaixo pelas pessoas, se fingir distracção, vergonha, talvez evite abrir a boca e deixar cair palavras que se transformam em ligação e em amizade e em solidão, talvez se baixar os olhos, não vi, olha o passarinho, peço desculpa, erro lamentável não ter falado, que encrenca, fica para a próxima, talvez se me limitar a ler os meus livros e a bater com a testa na parede com aquela vontade costumeira de morrer, pode ser que corra melhor.
sábado, 15 de maio de 2010
Perdes-te
«Perdes-te lá fora.»
Perder-me lá fora. Qual o mal? Apanhar ar, levar chapadas do vento na fuça. Mal nenhum. Levo o cão. Cadela. Quando regressar, talvez traga um zero dentro do estômago. Agora, parece uma bola de pêlo. Começaremos de novo, história nova, um zero no estômago para escorraçar a bola de pêlo, para perder a vontade de ficar sem pescoço.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Abraçados
Sempre em frente até cairmos os dois juntos, abraçados, contra o mundo, no fundo do poço, disse ele, e engoliu um comprimido. De mãos dadas, até ao fim, e engoliu outro. O resto que desapareça, e engoliu outro e estatelou-se no chão, quase morto, sozinho, cão moribundo.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Enterrado
Na primeira noite, tive medo de ser mordido por alguma cobra se adormecesse. Um medo infantil, inocente e real, o medo de jazer dentro da casa em ruínas. Ela dormia feliz da vida e eu, obcecado com uma cobra irreal, encolhia-me na minha parte do colchão. Medo da cobra e do vazio. A primeira noite no sítio da amargura, ao lado de uma mulher que me enterrava no desespero, por não me despertar riso ou choro, só vazio. Não saber de outra muito mais importante do que esta, imaginá-la distante, satisfeita por ter-me deixado para trás, era esse o meu medo, o de ficar sozinho.
terça-feira, 4 de maio de 2010
Tefe-tefe
Parto a janela do quarto dela com uma pedrada e entro. O quarto vazio. Nem um cabide no armário. Estou perdido. Tenho a sensação de ter sido enterrado vivo e de estar debaixo do chão a esgatanhar para sair. O meu reino perdido. Sofro como um cão. Viva o rei, viva o rei, perdeu o ouro e a rainha. O tefe-tefe no peito cortado pelo vidro. Foguetes em honra do rei nu. O coração é vidro feito em pedacinhos.
domingo, 2 de maio de 2010
Boomerang
Olha para a vingança, o tempo passou e fiquei calado, não ouviste uma palavra minha, nem sequer uma notícia, podia ter telefonado, pois é, uma chamadinha, que a rapariga sofria, eu disse-te na altura para pensares bem, que era capaz de ser a última vez que me mandavas embora, não acreditaste, tenho cara séria, não me apanham a rir, e se uma mulher me diz que não me sei divertir, do género «não me acompanhas à noite», pior, que vingança terrível, esperar dois anos para te matar com o silêncio.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Muito pessimista
A namorada acabou a relação, acusando-o de ser demasiado pessimista. Ele puxou de uma fotografia da infância e gritou: «Também eu fui bonito e simpático. Foi o mundo que me tornou assim. Fará o mesmo contigo e com todos os outros. Basta esperares.»
terça-feira, 6 de abril de 2010
Perfurar
Um dia vai, a lâmina perfura, basta coragem, parece pouco, coragem para enterrar a morte na carne.
Últimos dias
Ela não queria que o pai a visse de cabeça rapada. O pai de cabeça rapada não podia ver a cabeça de cabeça rapada. O pai viu-a, escondeu a lágrima e seguiu o seu caminho. A última vez que ela viu o pai foi dentro do campo de concentração.
quarta-feira, 10 de março de 2010
Indiferença
Eles não gostam de mim, também não gosto deles, quem não gosta de mim não pode receber a minha simpatia, embora eu seja simpático para eles, deveria ser menos, sou muito simpático para eles, se fosse menos, não me magoava tanto.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Mamã
A mamã não sabe o que é um sentimento. Se lhe pedirem para amar, ela deita-se no chão, abre as pernas e, qual cadela no cio, pede: «Entra.» A mamã poderia ter o homem que quisesse, desde que quisesse apenas um e não todos. Querendo todos, nenhum a quer, e os que a procuram exageram na potência. Acertam-lhe com murros e pontapés. A mamã pensa que, se o homem lhe bate, é por adorá-la. Quando lhe batem, ela sente-se amada e, como não sabe exprimir-se através de sentimentos, ama de volta, oferecendo sexo ao agressor. Possui-me porque agora estou a amar-te, deve pensar a mamã, e o agressor vê o seu trabalho reconhecido. Uma sessão de sexo por cada sessão de pancadaria. Tenho de bater-lhe mais vezes, deve pensar o agressor. A mamã não tem tino. O murro acerta na face, a mulher levanta a saia, o homem baixa as calças, a mulher finge prazer, o homem pensa que é o símbolo machão, a mulher faz ai-ai, o homem desfaz-se em suor, a mulher faz mais ai-ai, o homem é machão. A mamã ganharia muito se percebesse que, apesar do seu aspecto grotesco, o representante masculino da espécie humana não exprime os seus afectos do coração com as nozes dos dedos. O homem apaixonado oferece flores, bilhetes para o cinema, jóias, carinho, qualquer coisa, menos um murro. A mamã fica assaz vaidosa depois de cada bofetada que o seu companheiro lhe oferece. Sinal que se preocupa com a mulher. O estalo é dado para que a mulher se sinta reconhecida. Sim, senhor, este gosta mesmo de mim. A mamã foi empurrada, ficará dorida durante algum tempo. Em reconhecimento disso, aproxima-se do seu agressor, despe-o e entrega-se a ele.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
I don't blame you
Não te culpo. Foste embora porque eras livre para fugires para longe. Não te aponto o dedo. O que digo é que, depois de partires, veio a tristeza. Fiquei preso ao vazio. Esperei por ti durante todos estes meses, não voltaste, não deste notícias. Poderia ter-te algemado na cama. Não teria sido a mesma coisa.
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