Num livro intitulado A Guerra da Sucessão, D. Pedro e D. Miguel, Charles Napier (1786-1860), um almirante britânico que serviu as hostes liberais de D. Pedro aquando da guerra civil que opôs os dois irmãos, refere o seguinte:
D. Pedro era o único português que eu tenha visto que não entendia a palavra «amanhã», usual resposta dos portugueses. Mesmo nas questões urgentes, em que se carece de pronta decisão; na verdade, não fazer hoje nada do que se pode fazer amanhã, é o carácter preponderante dos portugueses; e nunca poderão ser uma nação, senão quando riscarem aquela palavra do seu dicionário.
Palavras acertadas, as de Napier. Se os dias se passassem numa ruela sossegada, com música de bairro a ser tocada, de mãos nos bolsos, os portugueses estariam no paraíso. É, aliás, no paraíso que este singelo povo vive. Temos ruelas, temos música da Amália, temos mãos nos bolsos. Mais, temos calor. O que mais se poderia pedir? Dinheiro? Convenhamos que seria pedir demasiado do Senhor. Não necessitamos, no entanto, de recorrer a britânicos para analisar um pouco da nossa substância. Contrariemos Teixeira de Pascoaes com uns pensamentos que Oliveira Martins, homem de adolescência complicada, nos deixou como legado no primeiro volume de Portugal Contemporâneo:
O povo nasceu criança, e nada há mais feroz do que a infância. Não a movem raciocínios, apenas instintos. Não distingue, vê as coisas, grosseiramente, como parecem, não como são.
Em Portugal, tal como noutro país, o povo é mesquinho, é baixo, é criança. Oliveira Martins sabia do que falava. Parece que, em termos de optimismo luso, ficamos com A Arte de Ser Português. Mas até na introdução a essa obra nos aparece alguém com lucidez suficiente para esclarecer qualquer incauto. Atentemos nas sábias palavras de Miguel Esteves Cardoso:
Os Portugueses não queriam ser quem ele queria. Os Portugueses de Pascoaes nem sequer existiam. Pascoaes nunca percebeu que era tudo invenção dele.