Em comparação com o núcleo comunista português, Fernando Namora poderia ser considerado um autor desapegado de ideologia política. Comparativamente com Até Amanhã Camaradas, os romances do escritor-médico são neutros, isentos. Em A arte, o artista e a sociedade, Cunhal critica, precisamente, essa falta de rigidez de Fernando Namora. Refere Álvaro Cunhal que, no romance A Noite e a Madrugada, o escritor, «pela boca dos vários personagens descarrega a caracterização que de Clemente fazem os trabalhadores e os camponeses» Vadio, mentiroso, traste, valdevinos, palhaço e miserável são alguns dos nomes usados. De seguida, Cunhal conclui que se trata de uma «grosseira retratação, uma agressão política preconceituosa e gratuita. Ora, ao escrever estas palavras sobre a ficção do autor de O Trigo e o Joio, Cunhal parte do pressuposto de que um escritor não tem liberdade para caracterizar cada uma das suas personagens da forma que mais lhe aprouver. Além disso, Cunhal mais não está a fazer do que censurar um autor que não cumpre as regras pré-estabelecidas pelo centro, isto é, por quem manda em termos ideológicos. À semelhança do intelectual comunista português, também Estaline manteve o hábito de censurar e de apagar aqueles que não seguissem a «linha dura» por si estabelecida.