sábado, 21 de junho de 2008
Arrependimento
Certas coisas são assim: vês algo que te agrada muito a passar na rua (imagina o decote de uma bela senhora) mas, em vez de tentares a tua sorte, desvias o olhar e continuas a tua caminhada solitária para casa; és o guarda-redes que poderia agarrar uma bola fácil mas que decidiu deixá-la passar por entre as pernas. Há sempre um sujeito qualquer que poderia ser o mais felizardo do mundo mas que, por sua própria iniciativa, decide ser infeliz. Tudo isto é simples: se consegues fugir do decote de uma bela senhora, não deverás ter grandes dificuldades em arranjar outros decotes. O mundo vive em paz quando o mercado funciona. Mas imagina que estás mesmo em cima da linha de golo e decides chutar ao lado, falhar a baliza, como se a tua equipa se pudesse dar ao luxo de perder golos. Supõe que, em vez do golo, estás a dispensar uma mulher que não te é desnecessária e que apenas decidiste falhar a baliza por ignorância. O que farás? Voltar atrás. Atrasar os ponteiros do relógio. Olhar para os calendários de anos passados. E se não continuares a viver? Melhor: e se não fores capaz de dar continuidade à marcha da natureza (nascer, viver e morrer)? Deverias saber que os homens não são dotados de marcha-atrás. Não podes telefonar para números que estão sempre ocupados. Não podes enviar cartas para casas desabitadas. Reconheça-se, no entanto, o que parece óbvio: mais facilmente abdicas do futuro do que te libertas do passado.