quarta-feira, 9 de julho de 2008

A Esperança





Tendo perdido toda a esperança no mundo, Eva preparava-se para se atirar de uma ponte. Sabia que estava a minutos de morrer e, por esse motivo, sentia-se em paz. Não em paz. Resignada. Nenhum gesto que fizesse poderia mudar o curso da história.

Com um gravador na mão, começou a falar: Manter uma ilusão. Crescer com a ideia de que existem anjos no Céu, morrer com a Salvação nos ouvidos. Manter expectativas elevadas. Querer que a mulher que passa na rua lance o olhar fatal. Não sair da utopia. Esperar o melhor dos outros. Ilusão. Bater com a testa no chão, ser miserável, fraco, inútil, idiota. Contar carneiros para adormecer. Querer ser matemático sem o conhecimento científico, querer ser literário sem o talento. Querer ser amigo sem um pingo de bondade no peito. Alegria. Ver o fim cada vez mais próximo e não poder fazer nada. Ter as mãos e os pés atados. Ver o tempo a passar à frente dos olhos. Ver uma, duas, três mulheres. Todas no passado. Ver o pai, ver a mãe, ver o Espírito Santo. Ver o polícia velho que só pensa em tribunais. Ver o chão de pedra e fracturar o crânio e deitar sangue, cada vez mais sangue, até não restar nenhum. Perseguir o sonho.

Um polícia que ia a passar lembrou-se de perguntar se estava tudo bem. Eva disse que sim, que apenas queria apanhar ar, que estava mal disposta. O polícia continuou a sua ronda matinal. A mulher voltou a pegar no gravador: A luz que não se apaga. Há uma luz que não se apaga, diz-se. O isqueiro não tem gás. A caixa de fósforos está vazia. A luz não aparece, não se acende. Estalam-se os dedos e ela continua apagada. Tudo escuro, tudo muito escuro. Não se vê um objecto, não se vê uma pessoa. Nem sempre há uma luz que não se apaga. Por vezes, a luz apaga-se. Totalmente. Fica tudo preto.

Stop. Eva pousou o gravador na ponte e, com um breve adeus, atirou-se para o seu final.