terça-feira, 1 de julho de 2008

O passado

Adam começara por aceitar a ideia de que não poderia continuar a partilhar a casa com a mulher que colocava acima dos restantes mortais. Parecia-lhe evidente que, por maior que fosse o amor de um indivíduo por outro, só existiria harmonia conjugal se dois indivíduos conseguissem dividir entre si o mesmo amor. Assim, Adam deixara-a ir. Dissera-lhe, até, que não ficava ressentido ou magoado, e que esperava que um dia se pudessem vir a tornar amigos.

Com o desenrolar das semanas, Adam chegou à conclusão de que deveria procurar a mulher e trazê-la de volta para casa, mesmo que regressassem as discussões, as bofetadas, os pratos partidos. Procurou-a na casa dos pais: não a viam há meses. Procurou-a nos hotéis da região: nada. Quanto mais a tentava esquecer, mais sofria.

Certo dia, viu-a passar com um homem. Acenou-lhe. Ela não o viu. Gritou. Absurdo. À medida que a sua princesa se ia afastando, Adam ia compreendendo cada vez melhor o seguinte: não havia sido ela quem desaparecera do mapa, fora ele. Ao ser rejeitado, tornara-se numa fotografia rasgada que se atira para o lixo.