
Com dedicatória.
O problema do amor correspondido reside no facto de depender sempre do comportamento de duas pessoas.
Ele preparava-se para partir para o outro lado do mundo.
Ela achava que não aguentaria a partida dele.
Ele tinha medo que o sofrimento dela desaparecesse. Ao mesmo tempo que desejava que a mulher parasse de chorar, receava que o comportamento dela se alterasse com ele longe. Preferia saber que tinha uma mulher a sofrer desalmadamente do que vir a saber que já não era desejado.
Ela só queria estar com ele. Era dona de uma pureza rara nas pessoas. Amava-o tanto que mais facilmente se moveria uma montanha do que o deixaria.
Ele não queria ser abandonado. Por detrás do ar de desconfiado, estava uma cara de menino que não consegue encontrar os caminhos do futuro sem a mãe. Confiava nela mas tinha medo de que algum malandro pudesse abusar da fragilidade dela.
Nas noites anteriores à despedida, ele chorou sempre às escondidas. «Um homem não chora em público», pensava. Por conseguinte, chorou na casa-de-banho, na cozinha, debaixo dos lençóis, enquanto ela dormia. Sabia que a voltaria a ver, que ela não deixaria de gostar dele. Mas tinha medo, porque a amava. E o amor é exigente. Não se podem dar passos em falso. Uma palavra mal dita pode dar cabo de tudo. E havia o tempo. Ele sofria da doença de ver a sua vida sempre projectada num futuro cinzento, cheio de demónios e de infelicidades. Ela era a sua luz do sol.
Ela não tinha medo de sofrer em público.
No dia da despedida, ele pensou muito seriamente que queria morrer, que queria morrer, que era tudo tão estúpido quanto as doenças, os vermes e os fungos. Foi para longe sozinho, mas mais acompanhado do que nunca.