segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Minguante nº12



MINGUANTE


A casa em ruínas pela qual passavas em criança continua de pé. Eras pequeno, quase do tamanho de uma formiga, querias fugir da tristeza e, dentro do autocarro, a olhar para aquelas paredes em queda, desejavas que a casa caísse. Julgavas que tudo o que era velho deveria desaparecer, cair. «Cai, espelunca, cai árvore.» Hoje voltaste a passar pela casa. Há quanto tempo não a vias? Dez anos. Uma eternidade. Antigamente, querias que a casa em ruínas se transformasse em cinzas. Hoje, no mesmo autocarro do passado, fechas os olhos para não pensares no que é evidente: cairás primeiro do que a casa. Terás filhos, netos, morrerás, no entanto, aqueles tijolos cinzentos continuarão no mesmo sítio, no mesmo tempo parado, que não é o teu. O teu tempo é aquele que começa e acaba, aquele que ilude e desilude. Acordas com sonhos celestes. Conquistarás o mundo com vinte anos. Terás mulheres perfeitas, uma mulher perfeita. Ela, a tal. E virá o casamento, o dinheiro, o emprego, os pais velhinhos mas contentes contigo. Não. Cairás primeiro do que a casa. Aliás, ainda és vivo, jovem, mas já te sentes mais derrotado do que uma barraca podre.