sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Um herói, muitos heróis


Diane Arbus, Tattoed Man at a Carnival (1970)



A força das ondas arrastou-te para o fundo do mar. Das duas uma: ou não tiveste força para resistir ou não a quiseste ter. Se se tiver dado o primeiro caso, é de lamentar o facto de te teres afogado nesse mar gelado, no entanto, se perdeste propositadamente a luta contra uma força que, apesar de superior à tua, era combatível, tudo se altera. Não se devem chorar aqueles que quiseram partir, aqueles que não tiveram coragem para enfrentar uma realidade que piora de segundo para segundo.

Uma pergunta importante: se não há Deus, se não há família, nem amigos, nem conhecidos, nem portas que se abram, o que leva uma criatura que só vive com dores físicas (e não só) a acordar todos os dias, a preferir tomar o medicamento do que pegar na pistola e furar o cérebro? O medo, a cobardia. A ideia de futuro. Acreditando que, daqui a uns dias, daqui a uns anos, tudo melhorará, se continua a suportar uma dor que aumenta.

E se não houver ideia de futuro? Se um homem não acreditar em nada? Deixa-se levar pela onda.

E se, mesmo não acreditando em nada, continuar a caminhar? Está-se perante um herói. Mas pense-se que a onda que cai em cima de um poderia cair em cima de mil e que, desses mil, duzentos morreriam devido à falta de força, cem morreriam voluntariamente e o resto, mais de metade, decidiria ficar de martelo na mão a pregar-se para o resto dos tempos na cruz, na vida terrena. A esta maioria se chamaria heroísmo multiplicado por vários.