
Era a última noite de Dezembro. Ele queria encontrar motivos para sentir que a vida lhe corria bem, ou mais ou menos, ou qualquer coisa. Mas considerava que os trezentos e tal dias do ano tinham sido péssimos. As pessoas conseguiam ser diabólicas, nojentas, feias, peçonhentas, e as ruas da cidade, do país, deprimiam, colavam ao peito a pesadíssima palavra tristeza, davam vontade de atirar o corpo para debaixo de um comboio em andamento. Não querendo estar cabisbaixo, tentou se animar. Comprou velas e serpentinas, tomou banho, vestiu roupas bonitas e sentou-se num restaurante a comer como um rei. À meia-noite, o seu problema continuava a existir: a solidão. Ele, sempre só ele, no centro de um grande vazio, de um buraco, de uma derrota do tamanho de Paris, a dormir sem companhia, a massacrar-se por ser tão reles e tão pequeno e tão ninguém.