Ernst Jünger (1895-1998) atravessou várias fases da História Contemporânea. Se nos remetermos apenas ao que se passou dentro das fronteiras alemãs, contamos com a passagem do autor pelo Império, pela República de Weimar, pelo regime de Hitler, pela República Federal e pela Alemanha reunificada.Jünger alistou-se como voluntário para a Primeira Guerra aos dezanove anos. Durante o tempo que gastou a combater, leu Nietzsche, Schopenhauer, Goethe, Sterne, Ariosto, entre outros. Para além da leitura, a escrita de diários também fazia parte da sua rotina. Ferido várias vezes, o autor viria a descrever, em A Guerra como Experiência Interior, muitas das situações pelas quais haviam passado os soldados. Eram os devastadores efeitos psicológicos da guerra nas mentes dos seres humanos que lhe importavam retratar. Logo nas primeiras páginas, referia o seguinte: «Sob a superfície polida cada vez com mais brilho, sob os adornos com que nos ataviávamos como mágicos de feira, continuávamos tão nus e tão brutos como os homens das florestas e das estepes.» Numa época de suposto progresso industrial, as populações europeias não estavam mentalmente preparadas para a descrença no brilho e na felicidade dos bens materiais. Isso levaria a que o autor argumentasse que o desenvolvimento contínuo não passava de uma ilusão. Se «a selvajaria, a brutalidade, a crueza própria do instinto, se alisaram, polidas, esbatidas ao fim de milénios em que a sociedade refreou a pulsão dos apetites e dos desejos», o «bestial» continuava. O atavismo fazia sempre questão de irromper nas veias do animal racional: «Dilacerado pela fome, na união anelante dos sexos, no choque do combate mortal, ele continua como foi sempre.» Dir-se-ia que, face à força bruta, o progresso nada representava.
Uma das temáticas exploradas pelo autor ao longo desta obra é a do horror. Enquanto combatente, experimentara o horror sob diversas perspectivas. A primeira dessas perspectivas, e talvez a mais curiosa, era a do prazer. «Não seria prazer que o horror me causava? Ninguém pode dizer que é estranho aos prazeres das crianças e do povo.» Havia também o horror à morte e à putrefacção. «Para quê poupar os nervos? Não ficámos, uma vez, quatro dias seguidos num caminho fundo entre cadáveres? Não estávamos todos, mortos e vivos, recobertos de um grosso tapete de grandes moscas azuis-escuras?» A indiferença ao horror. A fuga ao horror. O espanto. «Na noite de uma batalha, à procura de um amigo caído, separei à viva força os corpos de um montão de cadáveres, De repente, do dólman rasgado de um deles, um rato gordo saltou-me à cara.» Se a violência provocada pela guerra poderia originar algum tipo de prazer aos que nela participavam, também originava dor, sofrimento, nojo, espanto, indiferença.
O quarto capítulo de A Guerra como Experiência Interior dá pelo nome de «Trincheira». Seguindo as palavras de Jünger, trincheira era «muralha e bastião entre mundos que se combatem, mas não só: muralha e antro de trevas para os corações que aspirava e expelia numa incessante alternância.» A trincheira era lugar de tensão, um peso cada vez maior para os seus ocupantes, sítio onde os silêncios se ocupavam com sangue: «Os dias e as noites passavam de novo sobre a trincheira (…). Lentamente, os mortos desfaziam-se, ligavam-se à terra, à trincheira por que tinham combatido.»
Após um longo período de acalmia e de prosperidade motivada pelo surto industrial, os povos do mundo, mas mais especificamente os povos europeus, voltaram a descobrir o ser animal dentro deles próprios. Jünger falava da redescoberta da violência. Contudo, como em tudo o que era brutal, animal, a violência estava associada ao eros, à sensualidade. Volte-se a citar o autor de Sobre as Falésias de Mármore: «Qualquer abalo nos fundamentos da civilização desencadeia bruscas erupções de sensualidade.» Todavia, quem participava numa guerra entrava numa espécie de incerteza, de dúvida, a vida tornava-se precária. Por conseguinte, vivia-se nos limites. O álcool, por exemplo, era algo que não poderia passar ao lado do soldado.
O pacifismo, ou a sua crítica. Seguindo aquilo que Nicolau Maquiavel já havia defendido séculos antes, referia Jünger: «a guerra é o mais forte encontro dos povos.» E acrescentava que uma civilização, por mais forte que pudesse ser, não perderia a sua fragilidade enquanto não se dotasse de um sistema militar forte, capaz de vencer as grandes batalhas. Como combatente, Jünger professava a bravura do guerreiro como se apenas quisesse mostrar que nada havia de mais importante numa guerra do que os próprios soldados.
Outra questão posta em relevo em A Guerra como Experiência Interior foi já bastante explorada por outros autores, entre os quais se destacaria George Steiner. Será possível cultivar o espírito no meio da trincheira? Melhor: poderão os homens da frente, aqueles alemães que assaltavam os postos franceses, ler Rabelais, Molière, Baudelaire? Poderá um alemão falar em língua francesa com um soldado francês e depois enchê-lo de balas? Poder-se-á falar na trincheira de algum mestre flamengo? Poderá um homem morrer baleado porque se distraía a ler um escritor russo? Não só pelas palavras de Jünger mas também por aquilo que praticou durante os tempos em que foi soldado activo na Primeira Grande Guerra, é possível verificar-se que a erudição anda lado a lado com a realidade bélica.
Todavia, a guerra faz parte dos nossos instintos. A barbárie é algo que não desaparece do peito dos homens, sejam eles muito ou pouco desenvolvidos intelectual e cientificamente. Isto porque a marca do homem primitivo continua sempre presente. Pegando numa expressão usada pelo autor em Tempestades de Aço, «viver é matar.» São as pulsões interiores que os homens contêm dentro de si que levam a que a violência se deixe mostrar. É a necessidade de superiorização de determinada pessoa em relação a outra que faz com que o conflito surja. Por isso mesmo, a paz é uma ilusão: os homens, na sua generalidade, são violentos, remontam sempre aos tempos primitivos, nos quais já se matava e já se morria.