
O Ódio
Um dia apetece-te mudar de casa, de mulher, de passatempos, de livros, de filmes, de músicas. As dores são sempre as mesmas e acentuam-se cada vez mais. Ainda se fosses uma criança cheia de fé num tempo vindouro e, por exemplo, fosses trocando de sapatos quando estes te apertassem os pés, resignar-te-ias com mais facilidade ao marasmo. Haveria sempre um amanhã por cantar e uma bandeira de esperança por derrubar. Só que já não és criança nem adolescente. É imbecilidade julgar que se pode ser menino e doce com rugas na testa e nos cantos dos olhos. A ti próprio choca a imagem de uma face adulta reflectida num espelho oferecido, há vinte anos, a um menino de quatro. O olho que via está cego. O cabelo preto embranqueceu e caiu. Os dentes que o alicate não arrancou estão podres. Os velhos morreram. Os novos envelheceram. A amizade dura dois anos, menos tempo do que uma camisa. Querer estender o corpo crescido no regaço da mãe fossilizada e não saber como o fazer sem cair no ridículo. Assistir à lenta agonia da velha sem conseguir alterar nenhuma das peças do tabuleiro do destino. A sentença foi dada a todos à nascença: morte, morte, morte e mais morte. Vai para a cova, palerma, antes que te enterrem sem sentença prévia. Desaparece deste lugarejo onde todos te observam com uma inveja de quem não sabe que até os mais distintos senhores defecam. Morde o dedo indicador da mão direita e impede as lágrimas de inundarem a tua cara de tristeza. O tempo passou, as mudanças vieram e fugiram. Encontras-te no quarto onde, cinco anos antes, leste uma folha na qual se dizia amo-te multiplicado por mil. Ela amava-te, pois amava, tanto. Tinhas tanta vergonha que nunca lhe conseguiste chegar a confessar aquilo que ia dentro de ti. Quando a coragem te invadiu os pulmões, já a moça era outra, menos pura, menos idealizada, menos próxima dos teus afectos, e por isso silenciaste sentimentos. Não existe ninguém em torno desta ilha dos afogados. Tudo cai, arde. O sufoco de saber que não existe nada para além da ferida que incha, que fere, que rasga, que enoja. E gritas: «Ama-me de novo, volta para o passado, para mim, para o que ficou, um corpo, eu a pensar em ti.» E baixas a cabeça para chorar, para deixar sair a tempestade do buraco negro do peito. O reino animal consome-se. O fogo espalha-se, destrói, deita casas por terra, desgraça famílias. O frio e a neve cobrem a casa na estação do gelo e congelam os corações dos camponeses. O mar invade a aldeia e come a população sem arrotar.