quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Aguenta, pedra

Não penses que, por teres perdido ontem, não perderás amanhã. O futuro chegará com mais tristeza do que alegria, com mais dor do que saúde, com mais pânico do que calma. Andamos em cima deste colchão aos amassos, a trocar saliva, sabendo que, mais tarde ou mais cedo, um de nós ficará sozinho. Ninguém disse que vinhas para este planeta para ganhar. No dia em que te deram os parabéns por teres destruído um exército, deu-te vontade de chorar escondido debaixo dos lençóis. Por que te dói tanto acordar todos os dias? A faca está na mão, mata-te, rasga as veias dos pulsos, espeta o punhal no peito e desaba num rio de sangue. O martelo está na mão. Acerta na nuca, acerta, vá lá, não falhes, não dês esse desgosto a todos aqueles que te admiram. Massaja o osso com paciência e liberta o ódio de metal. Toma os comprimidos que acabam com os pensamentos tristes e desaparece, esconde-te debaixo da cama, que é aí que se sofre em segredo. Procura a mamã e volta a ter quatro anos. Estás a perder o tempo de ser feliz (finge que essa possibilidade existe), de sair da prisão, de partir as correntes. Estamos sentados numa cama à espera que nos chamem para o julgamento final. E a sentença virá: martírio eterno para os dois. E o inferno trará o seu sabor: o túnel vermelho, coberto de chamas, a queimar a carne, a querer sufocar. Quando o Diabo chegar, não nos saberemos esconder e seremos apanhados pelo fogo que tudo transforma em cinzas. Acabaremos transformados em pedra, na cova, agarrados um ao outro, confundidos, sem nos conseguirmos separar da terra e das larvas.