sábado, 3 de janeiro de 2009

Atirar-te para o lago



Sangue do meu sangue, carne nos meus ossos, dar-te-ia este mundo para que nunca pensasses seguir um caminho diferente do meu. Conheci-te num tempo no qual a inocência se superiorizava à inteligência. Éramos os dois pequenos, alegres e não menos idiotas. Corríamos pela floresta sem medo do lobisomem ou da mula de sete cabeças. Havia o mito do assassino negro do machado, e ao lado dele uma infinidade de monstros, mas nós corríamos sempre a toda a velocidade. Agora, aqui estamos sentados um ao lado do outro, a tentar perceber quem perdeu e quem ganhou, ou quem perdeu menos, já que tudo se resume a pequenas e grandes derrotas. Até as vitórias, meu amigo, a pouco sabem, acabam por ter o cheiro da queda. Houve um dia em que disseste que querias ser famoso. Mas foste para Direito e tornaste-te advogado, ou lá o que é essa tua profissão, que nunca se percebe muito bem aquilo que fazes para sobreviver. Vou fechar os olhos para entender como a tua vida se transformou (ou não) numa vitória. A tua cara diz que não vives bem por debaixo da gravata verde alface. A frustração está por todo o lado. E não é só a falta de comida, de livros, de mulheres, de carinho, de sexo. A derrota não é só isso (os meus encómios pela conclusão). É também ter tudo e sentir que não se tem nada. Ou não ter nada e alimentar a ilusão de ter algo impossível, como a felicidade. Morre-se. O corpo transforma-se em fezes, meu mais que tudo, meu irmão, morremos, desaparecemos. Depois de toda a luta, vem o precipício, a recta final. Acabas estendido num caixão florido, com maquilhagem a cobrir-te o verde da face e as larvas a prepararem-se para saírem do nariz. Não obstante toda a tristeza, tínhamos um passado, uma história para contar aos netinhos. Recordas-te do ano em que assaltámos um banco? Que belo espectáculo se reproduziu em nosso redor. E quando tentámos fazer explodir o mar com uma bomba atómica? Fomos perseguidos por aviões e por agentes secretos mas, espertos como raposas, escondemo-nos debaixo da cama, até que a mãe nos chamou para lanchar. Aconteceu tudo há tanto tempo e parece que ainda nada desapareceu da memória. Meu mano, nada fugiu da caixa das ideias. Para quê esta traição, esta facada nas costas, este golpe vil e cobarde que é bater e fugir? E como pensar que te poderia perdoar sem ver o teu corpo a boiar no lago?