A chuva eleva os mortos
A chuva cai, transformando cadáveres incendiados pelo fogo em pó, aniquilamento, humilhação, luto, cinzas. A memória dos finados, que pouco tempo antes se escondia por detrás de roupas queimadas, de pele carbonizada, eleva-se no ar em forma de fumo, ocupa todo o espaço ilimitado em que se movem os astros. Todo o céu é ocupado pela imagem de cada um dos defuntos. Nunca ninguém se lembrará de prestar homenagem a estas criaturas arruinadas por causa externa. Que restem algumas frases: os vossos dias gastaram-se, não voltarão a casa. Não abraçarão o pai e a mãe, o cão e o gato. O namoro prometido ficou por chegar, o mar revolto numa tarde de Inverno será visto por outro, o quentinho do quarto quando a água gelada bate no telhado ficará reservado a novas almas, não se apaixonarão novamente. Há-de haver alguém que passeie o cachorro que espera pelo dono. O passado está aqui, à vista de todos, a jurar que, por mais que se lhe peça para voltar, não acederá a clamores. Grandes e valiosos campeões de categoria inferior, o vosso interesse pelos destinos da pátria trouxe-vos o fim. Que as aves furadoras de nuvens vos aplaudam e vos transportem para uma realidade melhor.