Maybe we're just too proud
To say it out loud
Silence is here again tonight
- Tindersticks, Raindrops
A dor passará, claro que sim, como todos os sonhos, como toda a beleza que se descola da cara da jovem, tudo passará, sim, a dor acabará. A ânsia para que isso aconteça é muita. Já não se sabe viver sem o tijolo a rachar a cabeça ou sem o prego espetado no calcanhar. Dá sempre vontade de fazer as malas e de estar em Nova Iorque ou numa cidade como esta, onde o coração não se aperta por causa da pobreza, da desgraça, do lixo, da infelicidade dos outros, da minha tristeza, ai a tristeza que não se esgota, não desaparece, não deixa os lábios sorrirem de contentamento infantil. Anda jogar ao berlinde, fazemos as barrocas e atira lá com um dos teus truques. O sorriso não vem. Os amigos desapareceram, fizeram filhos, casaram. A idade bate à porta de todos, pois é, a ruga não sai. Faz uma vénia ao tempo que passa, faz, humilha-te perante o teu próprio fracasso, abraça-te a um amigo e chora, diz que o desespero é grande, que não dá para viver assim, insuportável viver desta maneira ridícula. Que vida, que vida, senhores, num mundo de ignorantes e de imbecis, de tarados cruéis e de nojentos e de pobres e de peçonhentos. Quebra, bate no chão, bate, quebra-te, patife, és de vidro, todos vêem menos tu, tira os óculos que não te servem para nada. Respira fundo, já bateste no chão. Doeu muito. Deveras. Ai se não doeu. Os dedos ardem sempre que tocam na superfície da realidade. E depois ficas feio quando choras. Feio como um elefante a morrer no meio do deserto, como um bêbedo desdentado no meio da rua, como a prostituta que geme pela nota que sustentará um menino de seis anos. Curva-te perante a inevitabilidade da queda, da dor e da morte, curva-te e beija a mãos dos senhores. Parabéns, venceu, agora retiras-te e cais para o lado, adormeces, dizes adeus a tudo, adeus, adeus, que não volto. Vais no avião, acenas com a mão, mas estás a voltar, não a partir, que nojo, que raiva, querias partir para sempre, mas estás a regressar, a mergulhar de cabeça na poça de lama. Vê se te lavas depois dos jogos terem terminado e come a sopa, a sopinha, come-a toda, bebé, que a mãe não volta, adormece no regaço da avó que já não está, do pai que fugiu, das mulheres que não te querem, dos amigos que te matam, de tudo o que está aqui e que arde, arde, explode.