quinta-feira, 26 de março de 2009

Neptuno ainda espera

A primeira onda acertou-te mas não te derrubou. A segunda onda puxou-te para o meio do mar, obrigando-te a lutares pela sobrevivência. Não desistes. A terceira onda quis oferecer-te a morte. Recusaste. A quarta onda pediu-te para abdicares de tudo. Disseste: não, obrigado, talvez numa próxima. Veio uma quinta onda. Foste várias vezes ao fundo do mar mas nunca deixaste de regressar à superfície. A sexta onda rebentou com estrondo. Qualquer outra criatura ter-se-ia deixado ficar deitada ao lado dos navios afundados. A sétima onda trouxe um grito de guerra. Com a oitava onda veio o gelo. Aprisionado no meio do frio glaciar, apelaste às forças da fé para que te concedem a pujança necessária para quebrar as algemas. De dentro de dois pulmões saiu um ar quente que transformou o sólido em líquido. A nona onda, enviada pelo sopro de Ares, o guerreiro, abriu-te uma brecha no meio da testa. O mar queria à viva força que deixasses de respirar. Mas o teu futuro não morava ali. Mesmo que viesse a ser pisada por mil solas de sapato, a formiga não desapareceria sem completar o seu destino. Quem morre a meio não se preenche. A décima onda. A natureza queria levar-te mais cedo para dentro do silencioso caixão. Mas gritaste, esbracejaste e não te deixaste comer pelo oceano.