O menino rezava todas as noites para que a menina olhasse para ele. Ajoelhado no chão, com o queixo colado ao colchão, pedia para que Deus lhe desse a coragem para enfrentar os demónios da vergonha e pedir a rapariga em namoro: «Quero namorar contigo, quero casar contigo, quero dar a volta ao mundo contigo.» Na escola, sentia vergonha, baixava a cabeça e olhava para o chão, sentindo-se sempre fracassado e garantindo: «Amanhã falo com ela, não passará de amanhã.» O amanhã era sempre adiado para outro dia. Os cadernos do menino enchiam-se de frases repetidas à custa de um sentimento demasiado forte para deixar pensar: «Ela é tão bonita, quem me dera que olhasse para mim, que me quisesse como a quero. Eu sei como a fazer rir, mais ninguém o sabe, mas ela não sabe que eu sei. Gosto tanto dela. Se ela soubesse o que sinto, abdicaria de tudo para estar a meu lado.» A menina raramente reparava nele. «Bom dia» ou «Adeus» eram as expressões mais utilizadas por ela para comunicar com ele. «Beija-me», sonhava ele. Às vezes, tentando adormecer, o menino chorava, riscava os móveis, desenhava o nome dela com a tinta da caneta. Um dia, a menina arranjou namorado, deixando o menino arrasado. Mas o coração foi feito para aguentar as mais fortes pancadas. «Saberei esperar.» Quando aquele namorado desapareceu, a menina arranjou outro, outros, muitos, menos ele, o que mais esperava por uma oportunidade, por um olhar, por um «basta um assobio para que me atire de cabeça». O menino queria a menina, mas não sabia como comunicar com ela. Deixou-se vencer pela cobardia. Ficou quieto no seu canto a escrever sobre uma relação destinada a nunca acontecer. Calado, esmurrou paredes, partiu candeeiros com pontapés.