Afundo-me no mar. Atirei-me de um navio. Não queria voltar para a família. Não tinha amigos. Melhor, as pessoas que se diziam minhas amigas traíram-me em todas as oportunidades que tiveram. Não posso perdoar aqueles que me lançaram para cima dos carros quando fingiam querer ajudar-me a atravessar a passadeira. Afundo-me. Deixo-me levar pela maré. Se quisesse, poderia tentar salvar-me, dar umas braçadas e nadar. Vou ao fundo por minha vontade. Trata-se do meu último acto. Ir ao fundo. De hoje em diante, não voltarão a ouvir falar de mim. Terminaram as histórias mal contadas, as mentiras, a arrogância, o medo, o remorso, a crueldade e o omnipotente e omnipresente sofrimento. O meu triste passado acaba aqui. Tenho a boca fechada. Só a abrirei quando já não conseguir suster a respiração. Acabarei com dignidade. Vejo tubarões. Um grande tubarão branco entre outros tubarões mais pequenos. Anda cá, meu doce animal branco, deixa-me dar-te uma festinha. Este bicho tem melhores sentimentos do que muita gente que conheci anteriormente. Deixa-me dar-te mais uma festa, farrusco. Começo a sentir-me melhor, mais livre. Esqueci tudo. Nenhuma fotografia tem peso afectivo na mente de um afogado. Minto, minto muito, tanto. Como sempre. As fotografias têm todo o peso, causam transtorno. Sofro muito ao pensar em certas imagens que deixarei para trás. Não regressarei a ontem. Tu de joelhos a tentares pedir desculpa. Eu a saber que me mentias, que tinhas passado a noite dentro de um quarto cheio de pecado. Deixei de querer saber. Nasci para ser desrespeitado. Batiam-me em pequeno. Caí dentro da poça de lama. Sujaram o meu nome em todo o lado. Posso nadar, se quiser, mas prefiro acompanhar o ritmo dos peixes. O som da baleia. A grande criadora de tudo. O cachalote. Desisto do futuro, encho-me de algas, sou mordido por caranguejos e vou ao fundo. Sou um ponto minúsculo. A minha resistência acabou. Transformo-me em anémona.