sexta-feira, 1 de maio de 2009

Dou-te o guarda-chuva






Uma criança de sete anos pode fazer tudo. Chega tarde a casa por não ter sentido de responsabilidade. Rasga as roupas a brincar no rio por não saber como manter o tecido imaculado. As meninas ainda não estão na idade de saber o que é o pudor. Brinca-se aos médicos e aos enfermeiros. A mão do rapaz não se coíbe de apalpar a nádega da rapariga. A nádega ainda não é uma nádega de mulher. É um prolongamento do berlinde, de uma maneira de brincar. A época da inocência é muito liberal. Todos os sonhos são possíveis. O corpo da menina é uma extensão do jogo da apanhada, das escondidas, dos polícias e ladrões. Chega-se à mesa com as unhas sujas, com as calças marcadas pela bola enlameada. O pai diz: «Vai-te lavar.» A torneira de água quente deixa cair o líquido que livra a pele dos micróbios. Os malvados desaparecem. A criança regressa à mesa e depara-se com um prato de sopa de legumes. Torce o nariz. Recusa-se a engolir a refeição que tanto trabalho deu à mãe a confeccionar. «Come, se não queres ficar de castigo durante duas semanas», avisa o pai. A contragosto, a criança enfia a sopa no estômago, e jura que, apesar de o obrigarem a comer o que não quer, ainda reserva para si o direito de não sentir o sabor da comida. «Não hei-de tocar com a língua na sopa», pensa. A criança pode ser casmurra porque está na idade de o ser. Os adultos perdoam-lhe tudo. A infância oferece a beleza, a pureza, a felicidade e a eternidade. Tudo se esquece porque a criança é bonita e promete ser inteligente. A criança acorda de manhã e diz à mamã que quer ir à praia, que quer viajar, que quer os três meses de férias do Verão para sempre, que quer uma camisola nova, que quer um irmão. A mãe promete o universo: «Tudo, meu filho, para que sejas feliz, para que não te cresçam rugas na testa como me cresceram a mim. Olha para as minhas rugas, tão feias que são. Tu não terás rugas, meu príncipe, meu futuro cirurgião, médico, advogado. Para ti só o melhor, nada mais do que o melhor.» A criança sente-se protegida. Dá para recusar a sopa do jantar quando se tem sete anos. Recusa-se a salada. O tomate é amargo. A cenoura traz alergia. Só se come o bife. Saborosa, a carne grelhada aconchegada na barriga do menino. Os sete anos oferecem a possibilidade de sonhar. Dá para ser cirurgião, atleta, condutor de naves espaciais. Há uma eternidade para sonhar. Três semanas para pensar nas palavras que se poderiam dizer mas que acabarão por ficar guardadas na imaginação. A menina vai dizer que não. O menino quer namorar com ela. As palavras na gaveta. A infância vive no templo dos deuses. A imortalidade. «Gosto de ti para sempre.» As horas não se esgotam, os desejos multiplicam-se por números infinitos. Um menino de sete anos pode ser parvo. Ninguém o levará a mal por ser parvinho. «Coitadinho, é tão inocente.» A mamã e o papá, quais ursos na caverna, protegem o filhote da intempérie. «Não apanharás frio, meu pequeno, nem que sejamos obrigados a roubar. Não te preocupes, pequeno, não te faltará nada.» A criança é mimada. Não come a sopa, brinca com os amigos até às horas que quer. Mas agora há a guerra, o mundo cruel onde os adultos se matam uns aos outros para sobreviverem. Agora, a criança é crescida, passa fome e não sabe da mãe.