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Adam vasculha as gavetas à procura de uma fotografia de Eva. Passou muito tempo desde a última vez que a viu, tempo a mais, mas um homem não se deve sentir culpado por ter sido atingido por um raio que lhe iluminou o templo das recordações. Não há nenhuma fotografia da rapariga, nem um recorte que comprove que, num dia remoto, a cara que hoje é triste foi feliz. Não há um único retrato da dama que ofuscou todas as outras que vieram depois. Quando ela desapareceu, os lugares e as pessoas secaram. O riu secou, os peixes morreram e a areia invadiu as casas. O desaparecimento de uma mulher matou o mundo. Adam desiste de procurar fotografias. Abrir as gavetas foi um impulso, como todos os outros, irracional. Saber que a imagem não existe e, mesmo assim, tentar achá-la. O homem é um macaquinho que, aos primeiros sintomas de saudade, se comporta de acordo com a sua verdadeira natureza. Não reflectir. A mão a tapar os olhos que vertem lágrimas. O macaquinho dá cabeçadas na parede, como se com isso apagasse o que está a sentir. Os dedos apertam a garganta para impedirem a saída dos soluços. Os pensamentos chegam confusos: «Não vás. Tenho de ir. Não sei que fazer sem ti. Para mim, nada mudou. Subi a montanha mas deitei tudo a perder quando mergulhei para dentro da avalanche. Onde andas? Não vejo luz.»
Houve uma noite em que ela se fartou e partiu sem dizer para onde ia. Ele ocupou os dias com actividades que não o fizessem pensar num sorriso de mulher numa tarde de calor. Mas os trovões são rápidos e, quando acertam na árvore, racham-na ao meio.
Houve uma noite em que ela se fartou e partiu sem dizer para onde ia. Ele ocupou os dias com actividades que não o fizessem pensar num sorriso de mulher numa tarde de calor. Mas os trovões são rápidos e, quando acertam na árvore, racham-na ao meio.