segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Raiz Afectuosa

O Passado

Olha para trás o monstro corrompido
por trinta anos de degredo,
por tanta ladainha, tanta gente,
tamanhos e tamanhos infortúnios,
lentamente destruídos por tanta
ocultação, desprezo, tanto medo e raiva,
que não encontra o próprio rosto de criança.


In Memoriam


Ao lado do corpo de meu Pai

chorava esta pobre carne.
E de repente chegou a tua
e minha felicidade:

A teu lado estou
sorrindo a chamar-te,
espero que regresses a casa,
ansiosamente corro para a porta.

E ao colo sinto o teu calor,
contigo passeio pela mão,
pergunto, pergunto e tu respondes
ocultando o fim da vida.

Ver-te dormir, alegria
igual à tua
quando de noite
tranquilo eu respirava.

Tenho três anos e tu, Pai, és jovem,
grande, senhor do mundo,
deus docemente temido
desde o início.

Assim te amo agora sem lágrimas.
Que deste modo teus netos
um dia se recordem de mim,
na tua, minha e deles
pura ignorância da morte.


- António Osório, A Raiz Afectuosa (1972)