
Um professor muito reputado, principalmente quando traz a cara muito inchada devido ao nó da gravata, diz-me que não posso ceder a impulsos portugueses como o pessimismo, o sarcasmo, o bota-abaixismo, a tristeza ou o inefável individualismo, e que uma graxinha de vez em quando não magoa ninguém. Quer dizer que sou muito português por ter sido alimentado durante anos por estes impulsos? E eu que pensava que a prática lusitana era ter contratos para toda a vida no Estado, arranjar subsídios no Estado para publicar livros de colóquios ou teses de mestrado e de doutoramento que, apesar de não serem lidos, têm tiragens de mil exemplares, ou atacar tipos sozinhos loucos ou com mau feitio que não se juntam às ovelhinhas. Afinal, os portugueses são sarcásticos e muito bota-abaixistas e muito individualistas. Pelo andar da coisa, aparecerá alguém a garantir que José Sócrates se doutorou em Hobbes e Locke e que Michael Oakeshott era um perigoso socialista. Aqui fica uma palavra em inglês para os loucos que querem fazer tudo sozinhos nesta querida pátria: restless.