domingo, 31 de janeiro de 2010
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
As horas
Passo horas sentado naquele banco onde antigamente nos sentávamos mas agora só vejo adolescentes que se beijam, e eu deixei de ser um adolescente, perdi as borbulhas e a garina, sou um adulto desocupado que conta o tempo olhando para o relógio. Não virás e eu não tenho uma máquina do tempo, nem poderes especiais para voltar para dentro da tua boca.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Passado arrumado

O passado ficou onde o arrumaste mas pegas no telefone e ouves a voz dela e ficas doente e sentas-te no chão e esticas o fio do aparelho até não dar mais e vacilas digo, não digo, e não dizes por vergonha e cobardia e por achares que o passado ficou arrumado, mas a voz dela pica no peito e tens uma vontade louca de dizer larga tudo que eu aqui não tenho nada.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Candidato
O candidato jovem, fresco, que se opõe ao establishment, aos barões, etc., não é assim tão novo, não apresenta ideias muito originais e certeiras, é filho do establishment e a sua candidatura só existe por ser apoiada por alguns barões.
Irreversível
«Não te arrependas daquilo que podes tornar irreversível», pensou um velho no enterro de um homem que se atirara do cimo de um prédio.
sábado, 23 de janeiro de 2010
Dos planos
Quando te quiseres vingar, não reveles os teus planos. A menos que sejas tão capacitado que te possas dar ao luxo de praticar o mal depois de contares a todos que o praticarás.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
O poeta desenha
Na ausência de inspiração, o poeta vai para as mesas do café construir desenhos muito surrealistas num caderno caro que merecia melhor fim. O poeta imagina que um dia os leitores debruçar-se-ão sobre a complexidade de uma obra que não se restringia a inigualáveis poemas.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
domingo, 17 de janeiro de 2010
sábado, 16 de janeiro de 2010
My nights with Eric
Um texto de André Aciman, sobre a obra de Eric Rohmer, no New York Times. Eis um excerto:
With my friends we used to call these situations Rohmerian. You meet A, you are drawn to A, but neither you nor A wish to rush things. You simply want to stop time a bit, and because neither of you cares to hide what you’re really doing, you decide to confess your maneuvers and are wildly grateful when told they were by no means unknown to the other. Rohmerian. What comes after this is seldom the business of art; it is the stuff of humdrum prose.
(...)
With my friends we used to call these situations Rohmerian. You meet A, you are drawn to A, but neither you nor A wish to rush things. You simply want to stop time a bit, and because neither of you cares to hide what you’re really doing, you decide to confess your maneuvers and are wildly grateful when told they were by no means unknown to the other. Rohmerian. What comes after this is seldom the business of art; it is the stuff of humdrum prose.
(...)
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Christopher Hitchens sobre Gore Vidal
A ler, na Vanity Fair, um texto no qual Christopher Hitchens revela decepção pela tendência de Gore Vidal, um intelectual que primava pela inteligência, pelo humor e pela ironia (wit é a expressão usada por Hitchens), para se inclinar para opiniões populistas e muito pouco profundas. Eis um excerto:
domingo, 10 de janeiro de 2010
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Siren
Disse ele: Nada até mim, deixa-me abraçar-te.
Resposta dela: Engulo água e vou ao fundo, ao fundo, ao.
Resposta dele: Salvei-me mas é como se também tivesse ido ao fundo contigo.
(O mar transforma-se em gelo. Ela está no fundo do gelo. Ele esmurra o gelo com a fúria.)
Resposta dela: Engulo água e vou ao fundo, ao fundo, ao.
Resposta dele: Salvei-me mas é como se também tivesse ido ao fundo contigo.
(O mar transforma-se em gelo. Ela está no fundo do gelo. Ele esmurra o gelo com a fúria.)
Ma nuit chez Maud (1969), Eric Rohmer

Ela nunca lhe disse o nome do homem com quem fora para a cama.
Ambição de saber
Ter a ambição de vir a saber distingue-nos dos animais, que, nisso, não são tão estúpidos.
- Miguel Esteves Cardoso, Público
- Miguel Esteves Cardoso, Público
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Arame farpado no campo de concentração
Por vezes, ao serão, o som de tiros atravessa a charneca, como ocorreu certa vez, quando um homem cego se perdeu demasiado perto do arame farpado.
- Etty Hillesum, Cartas 1941-1943
- Etty Hillesum, Cartas 1941-1943
Depressões optimistas
Depressões pessimistas devem ser consideradas pausas criativas nas quais as forças se restabelecem. Se tivermos consciência desse facto, as depressões passarão mais depressa. Jamais devemos sentir-nos deprimidos numa depressão.
- Etty Hillesum, Cartas 1941-1943
- Etty Hillesum, Cartas 1941-1943
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Palavras
Podes sempre dizer: não gosto de falar com pessoas. As pessoas que te ouvem entenderão que não gostas de falar com elas e permanecerão caladas a olhar para ti e tu para elas. As pessoas ficariam muito mais tranquilas se soubessem que se podem relacionar umas com as outras sem dizerem uma única pavorosa palavra.
Para a criança morrer
Por entre as plantas mais estúpidas que arrancou, o pai diz: As ameixas verdes fazem mal, o caroço ainda está mole e trinca-se a própria morte. Ninguém nos pode valer, morremos mesmo. Com as febres claras, o coração queima-se-te por dentro.
Os olhos do pai estão nublados e a criança vê que o amor que o pai lhe tem é como um vício. Que ele não consegue controlar o seu amor. Que ele, que fez cemitérios deseja a morte à criança.
Daí que mais tarde a criança coma bolsos inteiros de ameixas. Todos os dias, quando o pai não está a ver, a criança esconde metades de árvores na barriga. A criança como e pensa, isto é para morrer.
- Herta Müller, A terra das Ameixas verdes
Os olhos do pai estão nublados e a criança vê que o amor que o pai lhe tem é como um vício. Que ele não consegue controlar o seu amor. Que ele, que fez cemitérios deseja a morte à criança.
Daí que mais tarde a criança coma bolsos inteiros de ameixas. Todos os dias, quando o pai não está a ver, a criança esconde metades de árvores na barriga. A criança como e pensa, isto é para morrer.
- Herta Müller, A terra das Ameixas verdes
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Das promessas
Faz assim: promete que sofrerás ainda mais e que farás um esforço para esquecer que tudo isto é podre e que serás justo, recto, sóbrio e disciplinado, e que abanarás o rabo caso te façam festinhas na nuca.
sábado, 2 de janeiro de 2010
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
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