domingo, 2 de maio de 2010

Adormeça

Não me faça essa cara que não tenho culpa por ter nascido assim, madame. Não é educado fazê-lo mas não consigo parar de olhar para as pernas das mulheres que me aparecem à frente. Não é bem de todas, que das feias ninguém quer saber, pernas como as suas. Deixou-me muito feliz esta tarde por ter aparecido. Mais feliz só se o maquinista ensandecesse ao ponto de nos matar num acidente digno de primeira página de jornal. É que viver não é motivo de felicidade. Custa muito, por exemplo, estar a olhar para si e não lhe poder tocar. Tocar em si interessa-me pouco. Nas suas pernas (se considerarmos que têm vida própria) e não propriamente em si. Não posso mordiscar-lhe o joelho, madame, isso é motivo suficiente para achar que viver não é coisa boa. Levante a saia. Ou adormeça. A viagem cansa, encoste-se à janela e adormeça, perca a consciência. Para que possa encostar-me a si e roçar-me nas suas pernas.