quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Mulheres I

Não queria mais aquela vida. Não que passasse necessidades materiais ou que se visse impedida de fazer aquilo que lhe apetecia, mas, na fase da vida em que se encontrava, sentia-se sem condições para ser a mulher que vivia para cuidar do marido e dos filhos. Fartara-se de tanta monotonia. Era essa a palavra certa: monotonia. Falta de variedade. Todos os seus dias eram passados a um ritmo cada vez mais lento e enjoativo.

Se pudesse matar o marido, não hesitaria. No entanto, se o matasse, quem sustentaria as crianças? Outro homem?

Quando deixou de pensar na miséria que era toda a sua existência, a mulher viu o corpo nu do marido a caminhar na sua direcção. Fechou os olhos. Sempre o mesmo ritual.