O silêncio do quarto era devorador. Havia uma televisão que nunca se apagava, havia um rádio, havia uma caixa de papelão cheia de discos gastos pelas emoções dos homens que se apaixonam e se esquecem. Havia uma cama. Melhor: havia um colchão estendido sobre os tacos de madeira do chão.
Encostada às paredes, sentada numa cadeira, a dar o pino ou a fornicar, Marta habituara-se a não falar. Quando as palavras estão gastas, não se diz nada, absolutamente nada. Marta não tinha mais nada a dizer. Não tinha nenhuma nova frase entre mãos. Não tinha vírgulas para colocar no meio das velhas frases.
A olhar para o relógio ou a ler, Sam sentia-se deveras incomodado com o facto de viver com uma mulher quase muda. Precisava de falar. Precisava de se sentir importante para alguém.Deitada no chão, com um pequeno sorriso nos lábios, Marta sabia que, de alguma forma, a sua vida melhoraria. Amava aquele homem velho, maluco e decadente. Apenas sentia que nunca conseguiria fazer um macho feliz.
Sam tentava chegar ao número mil na contagem dos segundos do seu ponteiro do relógio. Ia no duzentos e três quando desatou a chorar. A ausência de palavras entre ele e a sua parceira começava a deixá-lo num estado depressivo.
Marta queria beijar Sam.
Sam não saberia sobreviver à ausência física de Marta.