
Houve um tempo em que o romantismo era possível. O camponês olhava para o céu pedindo uma laranja e ela aparecia-lhe no bolso quase roto das calças. Um imberbe pedia uma princesa e tinha-a. Sentava-se na relva com ela, beijando-lhe as pernas, os pés, as bochechas e os lábios. Os abraços sabiam a algodão doce a bater no palato da menina. A música saía do gira-discos, obrigando os amantes a dançarem, a apalparem-se, ele com a mão esquerda na nádega, ela agarrada a uns ombros de gigante. O som do aparelho fazia com que, deitados nus num tapete, um homem e uma mulher trocassem palavras que ficavam para toda a vida a ressoar nos tímpanos. Um vamos casar que o tempo foge ou um deixa-me abrir a janela para gritar a todos o que aconteceu esta noite. Os dentes dele na língua dela. O avião nos céus a largar os mísseis. Os amigos como ratos na trincheira.