
René Magritte, The Lovers, 1928
Esperávamos pelo início do filme. Eu comia pipocas, tu rias das minhas figuras. Queria dar-te um beijo. Passei toda a noite a pensar numa forma de o fazer. Fazia de palhaço para que visses que o teu príncipe tinha sentido de humor. Assim que o filme começou, deixei-me de graçolas e vesti a cara mais séria que encontrei. Pretendia mostrar-te que te encontravas perante alguém que não só contava boas piadas, como tinha uma sensibilidade fora do comum. Fingi que sofria quando, na tela, os actores se separaram. Pousaste a tua mão na minha, e juro que teria desmaiado se não fosse obrigado a mostrar-me forte. O filme continuou mas não tiraste a tua mão de cima da minha, o que me levou a imaginar que a história poderia acabar bem. No fim, saímos da sala com vontade de ver outro filme, mas sabíamos que não valia a pena tentar repetir sentimentos puros. Levei-te ao carro. Queria beijar-te. A vontade não desaparecia. O pior era saber que, se não fosse ali, não seria nunca mais. A tua cara não enganava: também querias. Mas como o fazer? Habituara-me desde muito cedo a viver escondido atrás da vergonha. Disseste: «Vou contar-te um segredo.» Aproximaste-te. Estiquei o ouvido. Tu querias a boca.