O temporal fez-me entrar por acaso numa livraria. A escorrer água e suor por todos os poros, passeei-me por entre as estantes sem me aproximar dos livros. Não os queria molhar. Um escritor discursava num palco improvisado. Tentei ouvi-lo durante algum tempo mas, molhado como estava, não me sentia em condições de raciocinar. Doía-me um dos joelhos. Sentei-me dentro de uma das salas de leitura. Sentia-me tão pesado que acabei por passar pelo sono. Fui acordado por ti. «Precisas de um chá, de um cobertor e de um colchão», disseste, não sem antes me afagares o cabelo desgrenhado. Vinha-me à cabeça a pergunta: como é que ela me encontrou aqui? Não querendo estragar o momento, agi como se não fossem necessárias explicações. Abracei-te e disse: «Ainda bem que estamos juntos.» Não havia ninguém a ver-nos. Agarrei-te pela nuca e, qual montanhista a escalar o Evereste, atirei-me para dentro da tua boca. Subiu-me um arrepio espinha a cima. Ouvi trovões caírem lá para o meio do Oceano Atlântico. Saímos de mãos dadas da livraria. Corremos na chuva para apanhar um táxi. O hotel mais próximo ficava a três minutos de distância.