segunda-feira, 14 de setembro de 2009

'You Cheated Me'

Ela vai dançar com outro. Não a beijarás. A cabeça dela encostada ao ombro dele. Ela dizia às amigas que era contigo que queria casar, que eras o tal, o escolhido. Mandava-te cartas dizendo que não aguentava a distância, que queria ter-te por perto. A traição traz impotência. A imagem dela no ombro do outro não desaparece. A vingança não elimina o sofrimento. Se viesses a descobrir por terceiros que eras enganado, poderias atirar areia para os olhos e dizer: «Perdoo-a.» Se não tivesses assistido a nada, negarias tudo para abraçá-la. Estás no baile. Ela vai dançar com outro. Um outro que atinge o estatuto de inimigo número um. Rival a abater. A boca dela no pescoço dele. O queixo barbudo dele na maçã do rosto dela. Contemplas a cena e não podes negar. Vês a satisfação na cara dela. É com muito gosto que aquela que te prometia o mundo te trai. Procura soluções para evitar o pânico. O remédio é colocar algodão nos ouvidos para evitar a cantiga do ladrão, pregar uma mola no nariz para fugir do cheiro, tapar a boca para que o fruto mais apetecido não queira atacar com os lábios, fechar os olhos para que a visão da cama não impeça o cérebro de funcionar. Queres dançar com ela. O ciúme é forte. A raiva junta-se à mágoa. A vontade de matar confunde-se com o desejo de morrer. Ela olha para ti. Pensas: quero matar-te, quero matar-te. Ela avança para ti. Pensas: quero morrer, quero morrer. Ela põe os braços à tua volta: afasta-te, não quero, não prestas, fazes-me mal, deixas-me triste. O cheiro da carne dela enfeitiça-te: esqueço tudo, não vi nada, só tu importas.