segunda-feira, 30 de março de 2009

Nacionalidade

Sempre que Portugal se dá em atravessar no trilho dum português, há bronca: é coisa mais que vista.

- Nuno Bragança, Estação

Problema de lucidez

O grande problema de tudo isto é que a lucidez não te deixará mais feliz.

Da lógica

A lógica do poeta: não podes mudar o pensamento humano com um martelo.

Génios

Imitas os teus génios predilectos. Eles fazem o mesmo.

Erudição

Um sujeito pouco erudito não se emociona com palavras. Arrota perante o poema.

Ver

Curioso: lês para ver.

Pensamento próprio

Pensarás por ti quando, para além de conseguires ouvir os outros, conseguires com que os outros te ouçam.

Interesse

Um homem verdadeiro pode argumentar pior do que um homem falso e, por isso, ser menos interessante do que aquele que conta mentiras.

domingo, 29 de março de 2009

O grande amante quer trocar com o grande escritor

Se apanhasse o Pavese em condições de trocas faustianas, cedia-lhe sem regateio o meu ejacular regulável contra a capacidade de escrever à escala dele. Não sei se o Pavese ganharia com a troca, nem eu.

- Nuno Bragança, Square Tolstoi

sexta-feira, 27 de março de 2009

Orgia Literária


Publiquei mais um texto no Orgia Literária, desta vez sobre um livro de Vinicius de Moraes.

Evitar o aperto

Não falava com mais do que duas pessoas por dia. A partir da terceira, ficava com enxaquecas.

Abandono

É uma pergunta que vem sempre: vale mesmo a pena?

quinta-feira, 26 de março de 2009

Neptuno ainda espera

A primeira onda acertou-te mas não te derrubou. A segunda onda puxou-te para o meio do mar, obrigando-te a lutares pela sobrevivência. Não desistes. A terceira onda quis oferecer-te a morte. Recusaste. A quarta onda pediu-te para abdicares de tudo. Disseste: não, obrigado, talvez numa próxima. Veio uma quinta onda. Foste várias vezes ao fundo do mar mas nunca deixaste de regressar à superfície. A sexta onda rebentou com estrondo. Qualquer outra criatura ter-se-ia deixado ficar deitada ao lado dos navios afundados. A sétima onda trouxe um grito de guerra. Com a oitava onda veio o gelo. Aprisionado no meio do frio glaciar, apelaste às forças da fé para que te concedem a pujança necessária para quebrar as algemas. De dentro de dois pulmões saiu um ar quente que transformou o sólido em líquido. A nona onda, enviada pelo sopro de Ares, o guerreiro, abriu-te uma brecha no meio da testa. O mar queria à viva força que deixasses de respirar. Mas o teu futuro não morava ali. Mesmo que viesse a ser pisada por mil solas de sapato, a formiga não desapareceria sem completar o seu destino. Quem morre a meio não se preenche. A décima onda. A natureza queria levar-te mais cedo para dentro do silencioso caixão. Mas gritaste, esbracejaste e não te deixaste comer pelo oceano.

quarta-feira, 25 de março de 2009

A Prisão do Ético




Os senhores da Fnac do Chiado decidiram-se, e bem, por guardarem A Prisão do Ético entre livros de Ana Teresa Pereira e de Luiz Pacheco.

José-Augusto França

José-Augusto França, nascido a 1922, passa a tarde a correr dentro da Biblioteca Nacional, em busca dos calhamaços que darão origem a mais uma das suas obras. Um jovem imberbe pergunta-lhe quais os segredos da longevidade. O ancião pára, começa a pensar, a pensar, a pensar, até que, sem dizer palavra, baixa os olhos e começa a ler que nem um menino entusiasmado pelo abecedário.

terça-feira, 24 de março de 2009

Esqueleto

O miúdo chegou a casa a chorar depois de ter sido largado pela namorada. O pai aconselhou-o: «Há os que comem e os que são comidos. Se um dia chegares à conclusão de que pertences ao segundo grupo, esforça-te para que não te deixem apenas o esqueleto.»

Da sabedoria




Se todos os moços estudassem a sério, o primeiro resultado seria pegar um fósforo aos colégios.

- Nuno Bragança, A Noite e o Riso

segunda-feira, 23 de março de 2009

Boas notícias





















Encontrei o meu livro A PRISÃO DO ÉTICO na Fnac do Chiado.

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My Blueberry Nights

Ajuste de contas

A receber a extrema-unção, o criminoso chorava, chorava, chorava, imaginando que, assim que batesse a bota, encontrar-se-ia no Inferno com todas as suas vítimas.

Imitar os antigos

Queria inculcar um pouco de moral no cérebro do filho. Pontapeou um cão e perguntou à criança: «O que farias agora?». Esta sorriu e deu um pontapé no mesmo cão. Somos os adultos que, em tempos, outros foram.

Terapia


«A depressão é raiva reprimida», explicou a psicóloga. Muito carrancudo, o paciente enfiou as mãos nos bolsos, franziu as sobrancelhas e pronunciou-se: «Nesse caso, matarei a minha mãe para ser feliz.»

Castigo

O religioso livrava as suas crianças dos pecados que cometiam sodomizando-as. Dizia-lhes: «Os vossos crimes só poderão ser absolvidos por mim.»

Nuvem

Ele dizia que as drogas não lhe provocavam alucinações mas, quando se atirou do quarto andar, estava mesmo convencido de que era uma nuvem.

Odiar a traidora

Odiava tanto a mulher infiel que roubou um camião para a atropelar.

O tempo que falta

Ele queria mudar de vida, regenerar-se, como se diz. Mas, com a corda ao pescoço para ser enforcado, já não tinha tempo.

Tentativas

Tentou morrer debaixo de um comboio. Tendo ficado sem pernas, restava-lhe o veneno.

sábado, 21 de março de 2009

Herbicida

Ele queria matar as insónias. Engoliu uma boa dose de herbicicida e deitou-se entre os lençóis da cama, quase tão confortável como nos tempos uterinos.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Amanhã não chega

O menino rezava todas as noites para que a menina olhasse para ele. Ajoelhado no chão, com o queixo colado ao colchão, pedia para que Deus lhe desse a coragem para enfrentar os demónios da vergonha e pedir a rapariga em namoro: «Quero namorar contigo, quero casar contigo, quero dar a volta ao mundo contigo.» Na escola, sentia vergonha, baixava a cabeça e olhava para o chão, sentindo-se sempre fracassado e garantindo: «Amanhã falo com ela, não passará de amanhã.» O amanhã era sempre adiado para outro dia. Os cadernos do menino enchiam-se de frases repetidas à custa de um sentimento demasiado forte para deixar pensar: «Ela é tão bonita, quem me dera que olhasse para mim, que me quisesse como a quero. Eu sei como a fazer rir, mais ninguém o sabe, mas ela não sabe que eu sei. Gosto tanto dela. Se ela soubesse o que sinto, abdicaria de tudo para estar a meu lado.» A menina raramente reparava nele. «Bom dia» ou «Adeus» eram as expressões mais utilizadas por ela para comunicar com ele. «Beija-me», sonhava ele. Às vezes, tentando adormecer, o menino chorava, riscava os móveis, desenhava o nome dela com a tinta da caneta. Um dia, a menina arranjou namorado, deixando o menino arrasado. Mas o coração foi feito para aguentar as mais fortes pancadas. «Saberei esperar.» Quando aquele namorado desapareceu, a menina arranjou outro, outros, muitos, menos ele, o que mais esperava por uma oportunidade, por um olhar, por um «basta um assobio para que me atire de cabeça». O menino queria a menina, mas não sabia como comunicar com ela. Deixou-se vencer pela cobardia. Ficou quieto no seu canto a escrever sobre uma relação destinada a nunca acontecer. Calado, esmurrou paredes, partiu candeeiros com pontapés.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Paciência

À porta de casa, com a serra eléctrica ligada, o pater familias hesitava entre dar um pontapé na porta e matar uma mulher e dois filhos insuportáveis, ou fingir, uma vez mais, que paciência era o seu nome.

terça-feira, 17 de março de 2009

Apagar fogueiras

O criminoso cegou-se com pedaços de vidro para nunca mais voltar a cair na tentação de desfigurar mulheres. Mas Deus concedeu-lhe novamente o dom da visão: «O teu caminho para o Bem dependerá da forma como desejares apagar a fogueira que ateaste à tua volta. Só apagarás o fogo se olhares na cara das tuas vítimas cheio de culpa e remorso no estômago.»

segunda-feira, 16 de março de 2009

Conselhos de avô

O velho aconselhou o neto: «A amizade é importante, tenta fazer amigos, mas lembra-te de que, a partir de certa altura, quererás comprar uma espingarda.»

As cobras com medo

Em tribunal, o assassino revelaria a sua faceta de biólogo: «Meritíssimo, nem sempre as cobras atacam por terem fome. Por vezes, mordem cheias de medo. Pense que este homem que vê à sua frente é como as cobras.» Graduado pelas melhores escolas, o juiz mandou-o directamente para a cadeira eléctrica.

Parabéns de ninguém

Eis a grande vantagem de não se receber parabéns de ninguém: fica-se forte, preparado para combater sem descanso.

As existências nunca vistas

«Se Deus existir, existe», comentou a senhora, com os olhos fixos numa série de Bíblias arrumadas numa estante de livraria.

domingo, 15 de março de 2009

Goodbye, Mr. Zuckerman

sexta-feira, 13 de março de 2009

Homem em fogo

Juntou todas as fotografias da ex-mulher, colou-as ao corpo com uma cola resistente e, banhado em gasolina, acendeu o fósforo que apagaria para sempre toda e qualquer memória de dor e de felicidade.

Neve em bloco

A esquiar com ela na neve, desejou que uma avalanche os engolisse e os perpetuasse naquele sentimento.

Os morcegos

Os morcegos só saem à noite, mas isso não os impede de saberem o que se passa durante o dia.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Perdedor

Depois de muito perder, ganhou um jogo. Habituado ao sabor amargo na boca, não soube como erguer o troféu.

Guardar a foto

Em vez de guardar memórias da mulher que adorava, passava o tempo a olhar para a fotografia do vilão que a levara para longe. Se um dia o apanhasse na rua, não falharia o tiro.

Borbulha

A borbulha na testa do adolescente cresceu tanto que, quando este a espremeu, a cabeça explodiu.

O murro no artista

O pugilista, campeão durante anos, conheceu a desgraça com um só murro. Uma queda poderá derrubar todas as vitórias.

Paulie

Elogios que estragam

Dois estrangeiros estão sentados num banco do Parque Eduardo VII. Um deles diz: «O pior que se pode fazer a um português é elogiá-lo. Fica a pensar que é o melhor.» O outro acrescenta: «Um português que ganhou a lotaria deixou de falar aos vizinhos. Já não se identificava com a pobreza.»

Boas vistas

A melhor vista que se pode ter de Lisboa é a bordo de um avião TAP a caminho do outro lado do Atlântico.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Faminto, o serrote

Fingir que não está lá

Na primeira vez que contactou com a morte, desviou os olhos para não a ver levar o corpo de um suicida trucidado por um comboio.

Voltas

O mundo acabará por girar, acredita.

Broken

Ela terminou a relação. Ele disse que tinha o coração partido. Ela não acreditou. Ele partiu um copo e engoliu os pedaços de vidro.

terça-feira, 10 de março de 2009

Cavalo Degolado

Até os melhores escritores se deixam acometer por fortes rasgos de mau gosto. Através de artigo de Ana Margarida de Carvalho, no Jornal de Letras, fico a saber que Manhã Submersa, de Vergílio Ferreira, esteve para se chamar Cavalo Degolado.

segunda-feira, 9 de março de 2009

O corpo é desnecessário

Perfeitamente consciente da imortalidade que alcançara com a sua obra-prima, o escritor atirou-se do topo de um arranha-céus.

Carvão e ácido

Não tendo conseguido esquecer a imagem da mãe carbonizada no meio de uma casa destruída por um incêndio, passou anos a entornar ácido nas caras das namoradas que ia arranjando. Os acontecimentos futuros são dirigidos pelo passado.

Point to Point Navigation

domingo, 8 de março de 2009

A Clockwork Orange (1971), Stanley Kubrick

sexta-feira, 6 de março de 2009

Problemas de arrumação

Ele tinha um problema. Gostando de mulheres mortas, assassinava-as antes de as levar para a cama. Ele tinha um problema: onde guardar tantas namoradas sem vida?

O senhor do Saldanha

O senhor João, um velho que gasta as noites a dizer adeus aos carros que passam pelo Saldanha, é uma figura muito popular e merece a simpatia de todos. Mas ninguém o acompanha a casa.

As traições

«O grande problema da confiança é sabermos que até a mulher que nos pariu será capaz de nos trair», disse aos filhos, antes de voltar para a cama e ignorar o dia do enterro do melhor amigo.

Procurar malucos

Traído por todos, comprou uma camisa-de-forças e alistou-se num manicómio longínquo.

Relação rápida

A paixão de X pela rapariga da pastelaria estaria condenada a ser fugaz. Nas traseiras de um edifício, encostados a uma parede, o tempo de uma ejaculação.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Escrita vã

Passou trinta anos a escrever um romance. Atirado para o caixão por um ataque cardíaco, não conseguiu acabar as últimas dez páginas, o que obrigaria a senhora das limpezas a dar um fim à história: deitar ao lixo mil e quinhentas páginas que só impediam o pano com detergente de limpar a secretária.

Admirar o lixo debaixo do tapete

Tive sempre uma grande admiração por aquelas pessoas muito pobres que nunca aparecem sujas nem rotas no meio da rua.

- Miguel Torga, Diário IX

terça-feira, 3 de março de 2009

Matador

«Eu sou o Messias», disse a criança. E chapou os quatro gatos recém-nascidos contra a parede.

RW

Qualquer dia juntamos os nossos Walser num aperto de mão.

Matar uma para matar várias

Enterrou uma abelha no buraco das formigas, tentando envenená-las com o ferrão.

Nascer um rio

De repente, numa cidade onde nunca chovia, um homem lançou uma tempestade de balas sobre a população, fazendo nascer um rio de sangue.

Purificar

Um assassino arrependido dos seus crimes enfiou-se dentro de uma banheira cheia de lixívia. A carne que arde traz dor e alívio.

Zabriskie Point (1979), Antonioni



segunda-feira, 2 de março de 2009

Sítios bons

Habitada por gente que há muito perdeu o contacto com a realidade, a Biblioteca Nacional é o sítio ideal para compreender a expressão «estar na vida sem lhe tocar».

Pedidos

Todas as noites, antes de se deitar ao lado da esposa, fechava-se dentro da casa-de-banho a rezar, a pedir a Deus que lhe perdoasse todas as traições.

Domesticar o tigre

Quando souberes domesticar o mal, serás grande.

The Subterraneans (1960), Ranald MacDougall

domingo, 1 de março de 2009

Charles Manson, 74



Ver notícia.

O Banquete. Platão. Ravelstein



O encontro sexual permite um temporário esquecimento de nós próprios, mas a dolorosa consciência da nossa mutilação é constante.


***

As pessoas são vencidas por fim pelos seus desejos solitários e pelo intolerável isolamento. Elas precisam da certa, da porção que falta para ficarem completas e, como em termo realistas não podem esperar encontrá-la, acabam por aceitar um substituto razoável. Reconhecendo que não podem nunca, acomodam-se. O casamento entre espíritos verdadeiros raramente ocorre. O amor que se busca a si próprio até aos limites do destino não é um projecto moderno.

- Saul Bellow, Ravelstein