quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Dos anos


Pego na minha fúria reprimida e, com uma pá, escavo um buraco muito fundo onde possa enterrar o ano que morre e todos os outros vinte e tal anos que morreram e que ainda não consegui engolir, de tão maus que foram.

O homem espanta-se

O que o surpreendia era a extraordinária paz do inferno.

- Clarice Lispector, A Maçã no Escuro

Donovan's Reef (1963), John Ford

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Engolir o berro

Guarda toda a tua fúria para ti, tapa a boca com uma mão, com as duas, aliás, que uma é capaz de não ser suficiente, e grita para dentro o hum-bf-hum-argh até sufocares. Não preocupes ninguém com problemas típicos de uma não-existência.

All the President's Men (1976), Alan J. Pakula

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Frost/Nixon (2008), Ron Howard

Fingir

Treina muitas vezes a cara de derrotado para que, quando estiveres em público e te sentires mesmo, mas mesmo muito em baixo, totalmente humilhado, possas fingir que consegues transformar a dor num sorriso.

Do esforço

Esforçaste-te, esforçaste-te bastante, é verdade, mas teria sido preciso que te esforçasses ainda um pouco mais, percebes agora, e assim todo o teu esforço foi vão. Mais valia que tivesses ficado quieto

Un conte de Noël (2008),Arnaud Desplechin

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Chuva

O bicho acha muito bem que chova muito. Não se vê ninguém nas ruas, dá para vestir camisas sem manchar o tecido de sebo, os dias acabam depressa, as noites são longas, enfim, nem tudo é mau no reino da Dinamarca.

Do sangue

O primeiro crime é aquele que custa mais. A partir do segundo, do terceiro, do quarto, perdes o remorso e fazes a coisa automaticamente, como se a pilhagem e a destruição fizessem parte de ti.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Sim?

Conhecer a vida dos outros 2

Poderia jurar que isto sou eu:

Se alguém me abordava da maneira certa, sabia ser franco, encantador e positivamente gregário. De outro modo, era fechado e taciturno, quase ausente. Acreditava em mim e, ao mesmo tempo, não tinha confiança nenhuma em mim.

- Paul Auster, Da Mão para a Boca

Conhecer a vida dos outros

É bom saber que outros viveram o mesmo que eu:

Entre os meus vinte anos e o início dos trinta, atravessei um período de vários anos em que tudo aquilo em que tocava se transformava num fracasso: o meu casamento terminou em divórcio, o meu trabalho como escritor soçobrou e vivi assoberbado por problemas de dinheiro. Não estou a falar de uma simples e ocasional escassez de fundos ou de alguma necessidade periódica de apertar o cinto, mas sim de uma falta de dinheiro contínua, crónica, opressiva, quase asfixiante, que me envenenava a alma e me mantinha num estado de pânico interminável.

- Paul Auster, Da Mão para a Boca

sábado, 26 de dezembro de 2009

Maradona (2008), Emir Kusturica




I should have left a long time ago
The best idea I've ever had

Prioridades

O bicho perguntou à velha se sentia desejo sexual. A velha disse que sim, mas que a resolução do problema da solidão vinha primeiro.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Slumdog Millionaire (2008), Danny Boyle

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Sonho

Um teórico da alienação diz que o sonho nega a realidade existente. Mas o meu sonho é sempre negro.

Os portugueses (quer dizer que foi o espírito de grupo que salvou a Suécia?)



Um professor muito reputado, principalmente quando traz a cara muito inchada devido ao nó da gravata, diz-me que não posso ceder a impulsos portugueses como o pessimismo, o sarcasmo, o bota-abaixismo, a tristeza ou o inefável individualismo, e que uma graxinha de vez em quando não magoa ninguém. Quer dizer que sou muito português por ter sido alimentado durante anos por estes impulsos? E eu que pensava que a prática lusitana era ter contratos para toda a vida no Estado, arranjar subsídios no Estado para publicar livros de colóquios ou teses de mestrado e de doutoramento que, apesar de não serem lidos, têm tiragens de mil exemplares, ou atacar tipos sozinhos loucos ou com mau feitio que não se juntam às ovelhinhas. Afinal, os portugueses são sarcásticos e muito bota-abaixistas e muito individualistas. Pelo andar da coisa, aparecerá alguém a garantir que José Sócrates se doutorou em Hobbes e Locke e que Michael Oakeshott era um perigoso socialista. Aqui fica uma palavra em inglês para os loucos que querem fazer tudo sozinhos nesta querida pátria: restless.

James Meredith, Marcha Contra o Medo (1966)



Não tenhas medo, terás de passar pelos cães de qualquer maneira. Se tiveres de rastejar, ainda mais importância terá o teu acto.

Liquidação

Na hora de se deitar, o bicho lembrou-se das sábias palavras da avó («Não vivas o dia como se fosse o último») e contorceu-se de remorsos por ter gasto todo o seu dinheiro numa livraria em liquidação.

Os romances de Paul Auster

Leia-se um texto que diz mal de Paul Auster. Previno os leitores habituados à crítica nacional que James Wood não se limita ao gosto/não gosto, ao é bonito/feio, ao mais adjectivo/menos adjectivo ou ao falo bem se for amigo/falo mal se não for. Aqui deixo os excertos que considero mais relevantes:


Clichés, borrowed language, bourgeois bêtises are intricately bound up with modern and postmodern literature. For Flaubert, the cliché and the received idea are beasts to be toyed with and then slain. “Madame Bovary” actually italicizes examples of foolish or sentimental phrasing. Charles Bovary’s conversation is likened to a pavement, over which many people have walked; twentieth-century literature, violently conscious of mass culture, extends this idea of the self as a kind of borrowed tissue, full of other people’s germs. Among modern and postmodern writers, Beckett, Nabokov, Richard Yates, Thomas Bernhard, Muriel Spark, Don DeLillo, Martin Amis, and David Foster Wallace have all employed and impaled cliché in their work. Paul Auster is probably America’s best-known postmodern novelist; his “New York Trilogy” must have been read by thousands who do not usually read avant-garde fiction. Auster clearly shares this engagement with mediation and borrowedness—hence, his cinematic plots and rather bogus dialogue—and yet he does nothing with cliché except use it.

(...)

One reads Auster’s novels very fast, because they are lucidly written, because the grammar of the prose is the grammar of the most familiar realism (the kind that is, in fact, comfortingly artificial), and because the plots, full of sneaky turns and surprises and violent irruptions, have what the Times once called “all the suspense and pace of a bestselling thriller.” There are no semantic obstacles, lexical difficulties, or syntactical challenges. The books fairly hum along. The reason Auster is not a realist writer, of course, is that his larger narrative games are anti-realist or surrealist.

(...)

What Auster often gets instead is the worst of both worlds: fake realism and shallow skepticism. The two weaknesses are related. Auster is a compelling storyteller, but his stories are assertions rather than persuasions. They declare themselves; they hound the next revelation. Because nothing is persuasively assembled, the inevitable postmodern disassembly leaves one largely untouched. (The disassembly is also grindingly explicit, spelled out in billboard-size type.) Presence fails to turn into significant absence, because presence was not present enough. This is the crevasse that divides Auster from novelists like José Saramago, or the Philip Roth of “The Ghost Writer.” Saramago’s realism is braced with skepticism, so his skepticism feels real. Roth’s narrative games emerge naturally from his consideration of ordinary human ironies and comedies; they do not start life as allegories about the relativity of mimesis, though they may become them. Saramago and Roth both assemble and disassemble their stories in ways that seem fundamentally grave. Auster, despite all the games, is the least ironic of contemporary writers.

(...)

The classic formulations of postmodernism, by philosophers and theorists like Maurice Blanchot and Ihab Hassan, emphasize the way that contemporary language abuts silence. For Blanchot, as indeed for Beckett, language is always announcing its invalidity. Texts stutter and fragment, shred themselves around a void. Perhaps the strangest element of Auster’s reputation as an American postmodernist is that his language never registers this kind of absence at the level of the sentence. The void is all too speakable in Auster’s work. The pleasing, slightly facile books come out almost every year, as tidy and punctual as postage stamps, and the applauding reviewers line up like eager stamp collectors to get the latest issue.

Alice Doesn't Live Here Anymore (1974), Martin Scorsese

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Das mulheres

O AMO - E a Suzon?

JACQUES - Safou-se.

O AMO - Mal?

JACQUES - Não. As mulheres safam-se sempre bem quando não são surpreendidas em flagrante delito.

- Denis Diderot, Jacques o Fatalista

Abandonar a meio

O bicho foi aprendendo a abandonar livros a meio. Esta ainda é uma das poucas virtudes do cansaço: a partir de certa altura, nem tudo entra. Palomar que o diga

Minnie and Moskowitz (1971), John Cassavetes

Transmissão

A prostituta emendou-se, uniu-se a um cidadão honesto e respeitável. Passados vinte anos, e sem nunca ter ouvido história alguma sobre o passado da mãe, a filha da prostituta prostituiu-se. Levanta-se a questão: estará o mal no sangue?

The State of Things (1982), Wim Winders

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Paths of Glory (1957), Stanley Kubrick

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Tombo

Pensas, na tua ignorância de jovem, que manipulas o Outro com palavras brandas e astuciosas, com elogios em momentos estratégicos ou com a traição sempre espetada pelas costas, mas lembra-te disto (para depois não dizeres que o castigo divino foi funesto): o rico nunca diz que é rico porque sabe que é dando a sensação de mão vazia que se ganha um jogo.

Cai e cai

Depois de cada erro, juras que não voltarás a cair noutra, mas errarás sempre que te conseguires recompor do erro anterior.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Muitas mortes

pois aquele que vive mais que uma vida mais que uma morte também deve ter.

-Oscar Wilde, Balada do Cárcere de Reading

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Elogio

Não será muito agradável receber um elogio em público se pensares que terás de corresponder às expectativas.

Humildade

Só depois de perdermos todas as coisas é que sabemos que a possuímos.

- Oscar Wilde, De Profundis

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

La femme de l'aviateur (1981), Eric Rohmer

A Woman of Paris: A Drama of Fate (1923), Charlie Chaplin

domingo, 13 de dezembro de 2009

Revolucionários 2

Em O Ópio dos Intelectuais, nota Raymond Aron que os revolucionários se sentem tentados a exagerar a força do destino. Posso, a partir de agora, dizer que tenho pontos de contacto com revolucionários.

Revolucionários 1

A paz duradoura como resultado da violência ilimitada.

Falsa modéstia

É preciso desconfiar dos homens que fingem não acreditar no valor do que fazem.

- Raymond Aron, O Ópio dos Intelectuais

Finding Forrester (2000) , Gus Van Sant

After Hours (1985), Martin Scorsese

sábado, 12 de dezembro de 2009

Body Heat (1981), Lawrence Kasdan

Despercebido

O bicho passa tão despercebido pela Humanidade que, ontem à noite, a meio de um passeio, ia levando com um bêbedo arremessado por um garçon enraivecido.

Adaptação

Como diz Italo Calvino em Os Oportunistas, o que um indivíduo tem de fazer é estar «ciente de que as coisas são assim e a sua função é procurar adaptar-se tanto quanto possível.»

Facada

A terceira facada é irrelevante porque o problema foi teres dado a primeira.

Ladrão

A mulher tem a língua dentro da boca do namorado e os olhos postos no ladrão.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Caos

Pensavas que conviverias melhor com a dor se te conhecesses melhor, mas foi a partir do momento em que descobriste quem és que se instalou o caos.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Sudden Impact (1983), Clint Eastwood

Da fome

Não dês a mão. Quem tem fome come sempre mais.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Pena de morte

Ao enforcar-se o sentenciado Motta Coqueiro, que até ao último instante diz ser inocente do crime que lhe imputam, a corda arrebenta e o réprobo cai ao chão. O carrasco, para levar a cabo sua tarefa, agarra o condenado pelo pescoço para matá-lo por esganadura. O sr. dr. juiz percebe que o verdugo encontra dificuldades para levar a termo a execução, pois não passa de um incompetente. Um carniceiro faria o serviço melhor mas os carniceiros continuam se recusando a desempenhar essa tarefa. O sr. dr. juiz manda então que encham de terra a boca do criminoso, o que é feito.

- Rubem Fonseca, Romance Negro e Outras Histórias

Duplicados

A Maria lê sempre o mesmo que o João e segue-o para todo o lado e acha-o maior e quer um dia ser a maior mas para isso lê o João e imita o João e é como o João e um dia vai querer matar o João, porque o João tornar-se-á um estorvo e não podem existir dois iguais.

No Direction Home: Bob Dylan (2005), Martin Scorsese

Dos crimes

Mais importante do que a inexistência de provas é a verdade que morre contigo.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Dar a mão

Tinha tanta pena dele que me apeteceu dizer-lhe, não te humilhes, foge daí, eles querem-te mal, não te humilhes, não espetes a faca no pulso para diversão de outros, esquece os outros, são dejectos, bactérias, micróbios,ninguém importa, é tudo lixo, escumalha, esquece o que te dizem, tapa os ouvidos, o que ouves é a canção das sereias, não procures o embaraço, não sofras, eles são muito maus e só querem assistir à tua desgraça. Fiquei calado, deixei-o cair e agora digo que faço parte deles, que sou tubarão por não ter-te dado a mão.

Idiotas úteis

O bicho acha que os críticos literários portugueses são do tempo do neo-realismo, mas é capaz de estar enganado porque, depois de ler muito livros, ficou com miopia.

Da calma

De que vale nasceres peixe se fizer parte da tua natureza morder o anzol?

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Maldade

Os piores inimigos são aqueles que sabem atacar com maldade, isto é, aqueles que não marram como os touros, que antes preferem entrar pelas traseiras e pregar a rasteira à traição, sem que ninguém veja (fazendo parecer que a tua queda foi causada por ti próprio).

domingo, 6 de dezembro de 2009

O apaixonado por livros

O rapaz disse-me que era apaixonado por livros e logo aí (no apaixonado) descobri que não lera muitos. Se gostasse verdadeiramente de livros, o apaixonado seria primeiramente um cansado e um doente.

Apertões

Na livraria que vendia os livros baratos, o bicho descobriu que também os produtos culturais podem constituir motivo de discussões e de bofetadas.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Estatuto

«És aquilo que mereces», repetia de cada vez que engolia um comprimido. A voz ressoava mesmo por cima das sobrancelhas: «Um morto, um morto.»

Control (2007), Anton Corbijn

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Interesse por mulheres

She thinks, I'm telling him who I am. He's interested in who I am. That is true, but I am curious about who she is because I want to fuck her. I don't need all of this great interest in Kafka and Velázquez. Having this conversation with her, I am thinking, How much more am I going to have to go through? Three hours? Four? Will I go as far as eight hours? Twenty minutes into the veiling and already I'm wondering, What does any of this have to do with her tits and her skin and how she carries herself?

- Philip Roth, Dying Animal

Perturbação

This need. This derangement. Will it never stop? I don't even know after a while what I'm desperate for. Her tits? Her soul? Her youth? Her simple mind? Maybe it's worse than that - maybe now that I'm nearing death, I also long secretly not to be free.

- Philip Roth, Dying Animal

Da amizade

A nossa amizade vive em cima de uma longa ponte de nada e quem, para além de nós, se costuma pôr em cima dela costuma cair no abismo.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Mil

Como não lá depositei mais do que dois votos, fico contente por saber que alguém se esforçou para deixar ali um número expressivo.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Funny Games U.S. (2007), Michael Haneke

Ilusionismo

A força deve envolver um pouco de ilusionismo: nada na mão, dores na cara.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Marnie (1964), Alfred Hitchcock

A passagem

«Olha o meu filhote, vem do Norte para me ver», diz o papá desdentado, claramente comovido por vislumbrar um filho que tantas alegrias lhe dá por se estar a tornar doutor. Mas o menino crescido entra no café fingindo que não conhece o seu progenitor, e apenas solta as seguintes palavras para o empregado de balcão: «Um Marlboro e uma bica, se fizer favor.»

Throne of Blood (1957), Akira Kurosawa