quinta-feira, 6 de maio de 2010

Enterrado

Na primeira noite, tive medo de ser mordido por alguma cobra se adormecesse. Um medo infantil, inocente e real, o medo de jazer dentro da casa em ruínas. Ela dormia feliz da vida e eu, obcecado com uma cobra irreal, encolhia-me na minha parte do colchão. Medo da cobra e do vazio. A primeira noite no sítio da amargura, ao lado de uma mulher que me enterrava no desespero, por não me despertar riso ou choro, só vazio. Não saber de outra muito mais importante do que esta, imaginá-la distante, satisfeita por ter-me deixado para trás, era esse o meu medo, o de ficar sozinho.