sexta-feira, 30 de abril de 2010
Bom Senso
António Costa diz que o «mundo» tem de ser governado por pessoas de bom senso. Espera-se pela sua demissão do cargo que ocupa.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
PPC
Durante a campanha para as eleições do seu partido, Pedro Passos Coelho atacava a anterior liderança, dizendo: fora com o PEC («se é mau»), demissão do PGR, contra alianças com socialistas. Uma ou duas semanas depois, pede reuniões de urgência com o primeiro-ministro, e diz-se disponível para aquilo que o inteligente deputado Sérgio Sousa Pinto apelida de aliança patriótica (com o sim-sim-é-uma-necessidade de outro deputado inteligente, Marco António). Como, provavelmente, a seguir a esta aliança vem a traição de alguém (à partida, daquele que ainda não é poder), diria que nada disto é de país civilizado. Mas ainda espero pelas sábias palavras de Ricardo Rodrigues para ter uma opinião.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
O sangue que resta
O fim de relação como uma faca enterrada na carne. Ela a fazer as malas para partir, os segundos que restam para sair o sangue necessário para matar um homem.
terça-feira, 27 de abril de 2010
Comprado de olhos fechados, lido num dia (de calor africano)

O verdadeiro escritor, o verdadeiro servo da vida, é aquele que age constantemente como se a vida fosse uma categoria muito além de qualquer coisa que o romance já tenha captado; como se a própria vida estivesse sempre à beira de se tornar convencional.
- James Wood, A Mecânica da Ficção
Rapariga igual a faca
Esquecer a rapariga equivale a cortar os dedos com uma faca. Compreender que a mão terá de manejar diferentes objectos sem o auxílio dos dedos.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
domingo, 25 de abril de 2010
Diego & Frida

O resultado do acidente foi terrível e a maior parte dos médicos que examinaram Frida ficaram espantados por ela ainda estar viva: a coluna vertebral estava qubrada em três locais na região lombar; o colo do fémur fora rompido em dois lados, assim como as costelas; na sua perna esquerda havia doze fracturas e o seu pé direito foi esmagado e deslocado; o ombro esquerdo foi deslocado também, e o osso pélvico quebrado em três. O corrimão de aço do autocarro tinha-lhe trespassado o ventre, penetrado pelo flanco esquerdo e saído pela vagina.
- J. M. G. Le Clézio, Diego & Frida
sábado, 24 de abril de 2010
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Maçã
A boca na maçã, ela tem a boquinha na maçã, veja-se como os seus pequenos dentes brancos desfazem o fruto. Se, em vez de, tivesse, não, pensamentos elaborados, um pequeno esforço: comprar ração para o animal, telefonar à esposa. Atira a maçã para o cesto do lixo e sorri para mim. Pode ser um sinal. A casa está vazia, a mulher saiu, talvez tivesse tempo de levá-la para a cave e. Não.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Joelho de Claire
Não retorça os olhos, que não é todos os dias que me apronto para mirá-la. Tenho a maior estima por si, é uma senhora honrada, fidelíssima ao marido, não tenho dúvidas disso. Que sorte tem o homem que partilha a cama consigo. Sorte por motivos que a madame não precisa de ouvir para saber. Lanço-lhe um piropo. Esses joelhos nus que dão vontade de trincar. Não faça essa cara de enfado, comprei esta gravata para encantá-la. Não só para encantá-la a si, mas a sua beleza é superior. O dedo que tenho na boca a imitar uma chucha toca-lhe na pernoca. Um olhar seu nesse sentido e o meu dedinho baboso desliza-lhe pela perna. Não responda, deixe o joelho como está que contento-me com isso.
Fórum TSF
Segundo um participante do Fórum TSF, a América alimenta uma cabala que tem por vítima o actual primeiro-ministro português. Um dia destes, eu próprio telefonarei para o dito fórum acusando os responsáveis pela minha infelicidade, ou seja, não apenas os meus pais, por não terem evitado o meu nascimento, mas também os americanos, por me terem feito acreditar que é possível existir algo parecido com o paraíso.
domingo, 18 de abril de 2010
Não me queres ver
Não me queres ver, dizes tu, foi bom enquanto durou, segue cada um o seu caminho, blá, blá. A tua vontade pouco me interessa. Segui-te esta manhã. Vi-te no café com as amigas. As piadas parolas das amigas. O teu sorriso fútil. Vi-te entrar no trabalho. Um careca piscou-te o olho e eu poderia ter-lhe desfeito uma garrafa na testa. Esperei pela hora da saída. Vou a dez metro de ti e não me vês. Os teu passos largam o teu perfume, sinto-o mesmo aqui nos pelinhos do nariz. Não há nada para além de nós. Rasgo-te a saia e tu pedes não, por favor, entende que acabou e que só podemos ser amigos. Claro que podemos ser amigos, digo-te eu, desde que me possa satisfazer contigo. Uma espécie de irmão eunuco, desde que me apareças despida.
Crazy Writer
Engraçado ter feito um teste idiota que me associou a Salinger. Tenho-me sentido bem apenas com um caderno, uma caneta, um livro e uma paisagem.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Um Revolutionary Road * que corra bem

Havendo mulher, bicho de estimação, casa, livros, caneta, papel, cafés, quiosques, jardins e um amigo, que mais é preciso?
* A propósito, o livro de R. Yates é fantástico, o filme fraco (mas sempre conta com o melhor actor vivo ).
Muito pessimista
A namorada acabou a relação, acusando-o de ser demasiado pessimista. Ele puxou de uma fotografia da infância e gritou: «Também eu fui bonito e simpático. Foi o mundo que me tornou assim. Fará o mesmo contigo e com todos os outros. Basta esperares.»
Problemas
Por recomendação de uma psicóloga de programa de televisão light, comecei a escrever num diário a que dei o nome de «Caderno de Problemas». Como o meu problema central é o mundo, e as criaturas que nele habitam, todos os dias faço um depoimento por escrito no qual exponho as razões que me levam a não apreciar quase ninguém que conheço, amigos incluídos. Tenho adormecido melhor. O que também se deve ao facto de andar a ler um livro de António Sardinha chamado A Aliança Peninsular.
Sexo no quarto ao lado
Nos últimos meses, tenho sido obrigado a dormir em diferentes casas. Em todas elas, há um casal, num quarto não muito distante, que geme de prazer. Os lisboetas são muito mais felizes do que aparentam.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Neo-Realismo à noite
A mula dá coice, o trabalhador Marciano sonha com a cadeira verde do patrão, o velho casado chupa o mamilo da moçoila, a cartada na taberna acaba com o Croncho a levar uma valente joelhada. O livro fica a meio e o sono vem mais depressa.
terça-feira, 13 de abril de 2010
Lâmina no fundo
Nos dias em que me falta motivação, enfio a cabeça dentro de um balde de água gelada . O frio ajuda mas não resolve, por isso, nos dias em que me enfio na água e me canso de esperar pelo total esvaziamento de ideias, encosto uma faca ao pescoço, como se tivesse coragem para me suicidar (a minha cobardia tem-me trazido dissabores, todos eles relacionados com o facto de ainda estar vivo), e tento espetar a lâmina até ao fundo. A lâmina ajuda menos do que a água. Nos dias em que me falta a motivação, isto é, praticamente todos, deito-me no meu chão de madeira, completamente escalavrado, a mirar a caixa dos comprimidos.
domingo, 11 de abril de 2010
Liberalismo
Desde que Passos Coelho apareceu na cena pública, ouvi centenas de vezes a palavra liberalismo associada à sua figura. O apoio que lhe foi concedido por luminárias como Fernando Ruas, Luís Filipe Meneses, Fernando Costa e Miguel Relvas fortalece ainda mais a ideia de que Coelho quer mesmo um modelo americano ou inglês em Portugal.
MAC
Apesar de ter lido muitas teses de mestrado e de doutoramento, e de não ir para a cama sem duas páginas de Adam Smith, David Ricardo e John Locke (seguindo a lógica dos jornalistas do i e da SÁBADO), Passos Coelho tem Marco António Costa, um rapaz que pode ter todas as qualidades menos a de proferir uma ideia de jeito, como vice-presidente de partido.
terça-feira, 6 de abril de 2010
Perfurar
Um dia vai, a lâmina perfura, basta coragem, parece pouco, coragem para enterrar a morte na carne.
Últimos dias
Ela não queria que o pai a visse de cabeça rapada. O pai de cabeça rapada não podia ver a cabeça de cabeça rapada. O pai viu-a, escondeu a lágrima e seguiu o seu caminho. A última vez que ela viu o pai foi dentro do campo de concentração.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Mudar
Certo político revelou que, para escrever o seu livro, foi guardando as suas ideias durante o dia num gravador para passá-las para o computador antes de dormir. É louvável a atitude deste senhor, que, rompendo com a «ciência», decidiu tornar públicas as suas epifanias sem precisar de citar autores ou de elaborar uma bibliografia. Só inspiração pura.
sábado, 3 de abril de 2010
Socialismo integral
Passar a tarde com os velhinhos do centro comercial a ler o jornal e a ver televisão.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
David Cronenberg
Amar a miopia exagerada da mulher A, a cicatriz no lábio da mulher B, o seio defeituoso da mulher C e o irresistível claudicar da mulher D.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Excesso de cosmética que, mais tarde ou mais cedo, acabará em asneira
Na mais recente edição da revista SÁBADO, Vitor Matos afirma, entre muitas outras coisas elogiosas sobre Passos Coelho: «Estudou relatórios e trabalhos académicos de Economia, Segurança Social e Justiça. Leu a Ascensão do Dinheiro, de Niall Ferguson, e A Pobreza das Nações, de David Landes.» Eu, que li alguns livros de Ferguson, posso dizer que é impossível alguém ler o referido autor sem ficar influenciado pelo seu humor. Como se sabe, Passos Coelho não tem humor, tanto que, em entrevista anterior, chegou a afirmar que não lê ficção (só coisas mesmo sérias). E depois, com quase 50 anos, o novo líder do PSD não é propriamente um jovem em aprendizagem.
A não repetir
Não voltes a comprar periódicos de «referência» portugueses para leres durante uma viagem de comboio porque a leitura não durará cinco minutos.
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