sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Orgia



Acabo de publicar um texto
sobre
Another Country, de James Baldwin, no Orgia Literária.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

O medicamento

«Confiarei em ti depois de te vacinar», murmurou o marido traído, antes de gastar um cartucho de espingarda na nuca da mulher infiel.

Aquecimento

Os dias quentes dão origem a várias caminhadas a pé. Quanto mais o corpo se movimenta, mais a parte animal se superioriza em relação à parte civilizada. O suor invade as camisas em doses massivas.

Solução rápida

Preso ao fundo do mar por cem quilos de cimento, o mafioso optou pela melhor solução: engolir o máximo de água para morrer o mais depressa possível.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Que queres, fantasma?



I don't know
If I'm sane
But there's a ghost
In my heart
That's trying
To see in the dark

- Beck, Volcano


Os fantasmas aparecem-me à noite e sussurram segredos que não posso contar a ninguém. Vou morrer, vou sofrer cada vez mais, até não aguentar, explodir. Tripas por todo o lado. Não me ajudam, os espíritos, antes me afundam no lodo, tornam-me fraco, tiram-me energia, perco os sonhos. Quero agarrar a arma e desferir o golpe fatal, acabar de vez com a história do gato que persegue o rato, destruir todos os ratos e todas as ratoeiras. Pregaram-me à cruz e coroaram-me com espinhos, chicotearam-me até se ver carne a sair da pele. Pedem-se para salvar a humanidade, derrotar os monstros, mas só sei chorar pelo colo de pessoas que nunca existiram. A dor é traiçoeira, não deixa dormir. Já não penso. Marx dizia que a dor mental desaparece quando acorda a dor física. Não há parte do corpo que não me doa. E não tenho mulher que me agasalhe. Perdi-me mais uma vez. Quero saber onde estou, agarrar a oportunidade. Escuro, escuridão. Não vislumbro um palmo à minha frente. Que queres, fantasma? Desligo as luzes para que fales, fantasminha. A dor vai aumentar. Esgatanho as paredes do caixão para tentar sair mas enterraram-me três metros abaixo do solo. É a paga que se leva pelo sacrifício, por tentar salvar a comunidade do incêndio que tudo devora. A mensagem de Deus. Fala fantasma. Haverá uma limpeza, a escumalha será varrida para o esgoto, os vagabundos serão rachados ao meio. A ira divina. O meu destino funesto, o meu acordo com o Diabo, a necessidade de matar. Deixa-me apertar-te o pescoço com estas mandíbulas de crocodilo, deixa-me trazer-te o arrependimento forçado com a minha força suprema. Conta-me os teus maiores pecados. Matei, mataste, mataram. A dor ganha volume, como a maré-cheia. Preguem-me na cruz, piquem-me os olhos com os bicos dos corvos. Esperneia, sacode, sai de dentro, Satã, besta negra. Espeta a faca no olho. Dor torrencial. Avança que as defesas desapareceram. Dispara o dardo a arder e acerta-me em cheio no peito.

2001: A Space Odyssey (1968), S. Kubrick

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Construção


Ser mãe

Assim que o pariu, a mãe enfiou-o dentro do contentor do lixo e foi viver o resto da adolescência.

Parto imprevisto

A mãe pariu-o sentada na sanita e afogou-o na água que deveria acolher as fezes.

A favor

Contra a publicação do Diário de Luto, notas de Roland Barthes sobre a morte da mãe, pelas edições Seuil, poder-se-ia dizer que as grandes obras do autor já foram publicadas e, portanto, esta não trará nada de substancial. Por outro lado, como não transformar em livro as palavras que um autor consagrado não quis publicar, sabendo que, se não forem publicados, os escritos cairão no esquecimento?

domingo, 22 de fevereiro de 2009

A rápida faz-se lenta

Ela ligou de volta, pedindo-lhe perdão, dizendo que voltava para casa, que era tudo loucura, que o amava muito, muito. Ele já tinha engolido o veneno.

O lento faz-se rápido

Atirou-se para a linha do comboio mal a viu aos beijos a outro. Se tivesse agido com a mesma rapidez durante o casamento, nada teria acontecido.

Entrar no romance

Quis abdicar da vida entrando dentro do mundo dos livros. A partir de certa altura, tornou-se personagem literária real.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Loucos de Lisboa

Ao sair de casa, fui interceptado por uma senhora que, do alto da sua sapiência jeová, me perguntou se gostava de ler. Disse que sim, acenando-lhe o livro de John Updike. Ela sorriu, deu-me um papelinho com um excerto do Livro de Job e sentenciou: «Vai haver uma limpeza na Terra.»

Procura da cura

Philip Roth caracterizou-me a vida com esta expressão:

Hysterical Search for the Miraculous Cure


(in Anatomy Lesson)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Morrer suave

Era tão cobarde que nem no suicídio teve firmeza: quatro caixas de valeriana.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A festa

O Carnaval, a Páscoa, o Natal, a festa da aldeia, o aniversário, os feriados, as férias, o futebol, a vida a passar para os portugueses como se fosse sempre sexta-feira.

Gran Torino (2009), C. Eastwood

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Boots of Spanish Leather




Oh, I'm sailin' away my own true love,
I'm sailin' away in the morning.
Is there something I can send you from across the sea,
From the place that I'll be landing?

No, there's nothin' you can send me, my own true love,
There's nothin' I wish to be ownin'.
Just carry yourself back to me unspoiled,
From across that lonesome ocean.




O tempo não passa sem ti. Caem estátuas, prédios, montanhas, e eu permaneço no mesmo posto de sempre, à escuta, a apalpar terreno, para que regresses, para que voltes ao local de onde nunca deverias ter saído. Todos perguntam por ti. A tua mãe quer ler as tuas cartas, o teu pai anda com umas olheiras que dão dó e mal come. No outro dia, vi um soldado que voltou incapacitado para casa. Perguntei-lhe por ti: não te conhece. Melhor isso do que dizer que te viu morrer. Quem te dará protecção nessa terra distante? Vejo a desgraça espalhada por todo o lado. Durmo com a luz do candeeiro acesa para que não me apareças desfigurado nos pesadelos. Às vezes, tento não adormecer. Passo noites em branco com medo de que o telefone toque, que alguém me bata à porta para entregar as más notícias. Quando me entrego ao sono, vejo muitos fantasmas. Não sei se virás. Essa incerteza remói-me tanto que não me imagino a viver os dias de forma normal, despreocupada. Ganhei uma gastrite, deverias ter visto o médico a afirmar muito categoricamente: «Você tem uma inflamação da mucosa estomacal.» Ri a pensar que sorririas se cá estivesses. Leio os livros que guardam os teus sublinhados, as tuas anotações, escuto as tuas músicas, frequento os sítios que frequentavas. Sinto a tua presença em tudo. O meu erro foi ter-te deixado partir. Os segundos passam e eu conto-os a todos, sei-os de cor, não preciso de olhar para o relógio para saber que um ponteiro aponta para as cinco horas, outro para os trinta minutos e outro para os doze segundos. Agora sei que, mesmo que me quisesse separar de ti, esquecer-te, encontrar outro homem, não poderia. Amarraste-me com uma corda. Por isso, sobrevive.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Harry Angstrom

Fugiu de casa e deixou a mulher a sentir-se culpada. Mas esta fê-lo sentir-se ainda mais culpado ao afogar um dos filhos de ambos na banheira.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Harry Coelho Angstrom

Se tiveres coragem para seres tu mesmo, outros pagarão tudo por ti.

- John Updike, Corre, Coelho

Dos traidores

Tema-se mais a falsa modéstia do que a arrogância.

As Finas

Lisboa não seria nada sem as grã-finas que, embora sem tostão no bolso, enchem os cafés com seus penteados pombalinos, pedindo uma bica bem cheia, que dê para meia tarde de conversa, e um croissant com sotaque afrancesado.

Nº13


A Minguante já está no ar. Com o meu texto habitual, e com o meu e-book a precisar de leituras.

Abdicação

O vagabundo deixou de querer voltar para o mundo dos vivos quando um senhor engravatado lhe deu de esmola um chuto no traseiro.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Relva

Para quem se costuma deitar muito tarde, soube muito bem sair da cama pela manhã para correr atrás de uma bola com um amigo. Deitado na relva do Jardim da Estrela, recebi os raios solares na cara como se fossem um suplemento vitamínico.

Boomerang

Atropelou uma criança e fugiu. Passados quinze anos, já velho, a criança atropelou-o e gritou: «O boomerang regressou da Austrália.»

Infiltrado

Transformou-se em aranha para poder ficar todas as noites a observá-la do tecto do quarto. Tendo talvez percebido a metamorfose, ela matou-o com uma vassourada.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

O sol

O tempo aquece em Lisboa. Vê-se o Sol por todo o lado. Ouve-se gente na rua de telemóvel ao ouvido, garantindo que a noite está fantástica, que o que se precisava mesmo era do calor para animar as consciências. No álbum fotográfico, encontro um país distante coberto de neve.

Philip Roth

Queimar etapas

Ninguém entendia as berrarias da senhora gorda nos funerais, mas era tudo muito simples: à medida que se iam enterrando os mortos, ela sentia com cada vez mais intensidade o sabor da terra que lhe taparia a boca.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

P. Roth

Os amadores inspiram-se (e copiam os outros). Os artistas trabalham.

Mudar de planeta

Vivendo em Marte, matou-se para que, transformado em fantasma, pudesse segui-la em Plutão.

Irreversível

Um milénio depois, tentando adormecer, lembrou-se de que ainda sentia falta dela. O resto dos seus dias seriam passados a atrasar os ponteiros do relógio.

Não apagar

Dormia todas as noites de luzes acesas. Quando ganhou coragem para as apagar, surgiram os fantasmas.

Descansa em paz

Queria silenciar a voz do padre que lhe dava a extrema unção mas, sendo paralítico, mudo e quase cego, morreu revoltado.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Nietzsche 2

Não há nada mais perigoso e mais ignorante do que o homem que deposita toda a sua força numa só ideia.

Explicação para o encolhimento

Lisboa não foi feita para a chuva. Fica feia. O castelo de S. Jorge torna-se mais agradável para a vista com o sol primaveril a bater-lhe em cima do que rodeado de trovoada. O que quer dizer que, gostando de chuva, não fui feito para Lisboa.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

A vénia



Maybe we're just too proud
To say it out loud
Silence is here again tonight


- Tindersticks, Raindrops

A dor passará, claro que sim, como todos os sonhos, como toda a beleza que se descola da cara da jovem, tudo passará, sim, a dor acabará. A ânsia para que isso aconteça é muita. Já não se sabe viver sem o tijolo a rachar a cabeça ou sem o prego espetado no calcanhar. Dá sempre vontade de fazer as malas e de estar em Nova Iorque ou numa cidade como esta, onde o coração não se aperta por causa da pobreza, da desgraça, do lixo, da infelicidade dos outros, da minha tristeza, ai a tristeza que não se esgota, não desaparece, não deixa os lábios sorrirem de contentamento infantil. Anda jogar ao berlinde, fazemos as barrocas e atira lá com um dos teus truques. O sorriso não vem. Os amigos desapareceram, fizeram filhos, casaram. A idade bate à porta de todos, pois é, a ruga não sai. Faz uma vénia ao tempo que passa, faz, humilha-te perante o teu próprio fracasso, abraça-te a um amigo e chora, diz que o desespero é grande, que não dá para viver assim, insuportável viver desta maneira ridícula. Que vida, que vida, senhores, num mundo de ignorantes e de imbecis, de tarados cruéis e de nojentos e de pobres e de peçonhentos. Quebra, bate no chão, bate, quebra-te, patife, és de vidro, todos vêem menos tu, tira os óculos que não te servem para nada. Respira fundo, já bateste no chão. Doeu muito. Deveras. Ai se não doeu. Os dedos ardem sempre que tocam na superfície da realidade. E depois ficas feio quando choras. Feio como um elefante a morrer no meio do deserto, como um bêbedo desdentado no meio da rua, como a prostituta que geme pela nota que sustentará um menino de seis anos. Curva-te perante a inevitabilidade da queda, da dor e da morte, curva-te e beija a mãos dos senhores. Parabéns, venceu, agora retiras-te e cais para o lado, adormeces, dizes adeus a tudo, adeus, adeus, que não volto. Vais no avião, acenas com a mão, mas estás a voltar, não a partir, que nojo, que raiva, querias partir para sempre, mas estás a regressar, a mergulhar de cabeça na poça de lama. Vê se te lavas depois dos jogos terem terminado e come a sopa, a sopinha, come-a toda, bebé, que a mãe não volta, adormece no regaço da avó que já não está, do pai que fugiu, das mulheres que não te querem, dos amigos que te matam, de tudo o que está aqui e que arde, arde, explode.

Estruturalismo

Os devaneios são todos diários e os diários todos ficções.

Afogados

«Argh...», gritou, e deixou-se levar para o fundo do mar.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Empirismo de bolso

Os maiores optimistas escondem sempre muitas mentiras. O mesmo que escreveu o Contrato Social abandonou os filhos num orfanato.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Da passagem dos segundos

O tempo não anda. Quando anda, já passou.

De Maistre

O Homem é louco, irracional, lunático, por conseguinte, deve ser controlado por indivíduos investidos do dever que lhes foi imposto pelo Criador.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Demente

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Suicídio colectivo

Abraçados uns aos outros, os micróbios atiraram-se do ânus do homem para dentro do buraco da sanita que os afogaria.

Da chantagem

Era tão chantagista que, quando o médico o tentou puxar de dentro do útero da mãe, enrolou o cordão umbilical no pescoço, ameaçando suicídio caso não lhe dessem mais um mês de descanso.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Veredas



Dois textos meus na Veredas:

A imagem que ela deixou


e

Inteligência no gelo

O que se funde não se afasta 2

Na noite após o funeral da esposa, escavou a terra do cemitério e deitou-se ao lado dela.

O que se funde não se afasta 1

Anos após o divórcio, ainda ele guardava uma mensagem de antiga felicidade conjugal no gravador de mensagens do telefone.

Espalhar a palavra do Senhor 2

Tendo acordado cego, furou os olhos da mulher que dormia a seu lado.

Espalhar a palavra do Senhor 1

Procurava no corpo de todas as mulheres o sorriso de uma só.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Nietzsche

A decadência como experiência pessoal. Um homem que sabe dar valor à saúde por ter estado doente.

Da noção dos tempos

«O último a sair que feche a porta», resmungou, mas já lá não estava ninguém.