sábado, 31 de outubro de 2009
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Não morrem
Uma velha disse ao mesmo tempo que enxotava um mendigo da porta de casa: «Os micróbios não morrem.»
Do que não existe
O passado não existe. Voltar ao passado é voltar ao que não existe. Resolver o passado (resolver o inexistente).
Fado de Raul Brandão
(...)
Ouvido a um taxista: Carmen ataca à esquina do Técnico.
(...)
- António Osório, Crónica da Fortuna (1997)
Ouvido a um taxista: Carmen ataca à esquina do Técnico.
(...)
- António Osório, Crónica da Fortuna (1997)
Matar a morte
Quando mata, o matador pensa que fulminou a morte?
- António Osório, D. Quixote e os Touros (1991)
- António Osório, D. Quixote e os Touros (1991)
Ajeitar-se
Acabada a ascensão, a grande dificuldade está em escolher a queda.
- António Osório, Aforismos Mágicos (1985)
- António Osório, Aforismos Mágicos (1985)
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Os escritores
Após a leitura de Vidas Escritas, de Javier Marías, o bicho tentou arrumar ideias: William Faulkner era doido por cavalos, só abria cartas que contivessem dinheiro, era taciturno, adorava o silêncio, lia todos os anos D. Quixote; Joseph Conrad era tão distraído que queimava os móveis e as roupas com cigarros, o seu estado natural era uma inquietação que rondava a irritabilidade, usava monóculo e detestava poesia e Dostoiévski; Isak Dinesen (ou Karen Blixen) foi gozada por Arthur Miller por só beber champanhe e comer ostras, renunciou à vida sexual devido a uma sífilis; James Joyce escrevia cartas pornográficas à sua mulher Nora Barnacle («Vens-te enquanto cagas ou masturbas-te até ao fim primeiro e cagas a seguir?»), era pomposo, supersticioso, convencido, taciturno e orgulhoso, embebedava-se até de madrugada; Giuseppe Tomasi di Lampedusa nunca sentiu o que era ser escritor por nunca ter sido publicado em vida, foi um leitor obsessivo, deixou cerca de mil páginas sobre literatura inglesa e francesa; Henry James era corpulento e possuidor de um olhar temível, penetrante, falava com tantos rodeios e parênteses que, em vez de dizer «cão», dizia «uma coisa negra, uma coisa canina...», as suas relações com as mulheres foram pouco mais que inexistentes; Arthur Conan Doyle era autoritário com a família; Robert Louis Stevenson dava-se com criminosos na juventude mas era muito generoso; Ivan Turgeniev sofreu o ódio e o desprezo dos seus compatriotas, que viam nele um ocidentalizado, ateu, que passava demasiado tempo em França, era apaixonado pela cantora Pauline Viardot (conhecida como La Garcia), que não hesitava em humilhá-lo, confiava muito nas pessoas e passava o tempo a ser enganado; Thomas Mann achava-se genial e importante, cada passo que dava era digno de ser registado no seu diário («Irritação intestinal»), olhava para meninos com desejo de dormir com eles; Vladimir Nabokov era pouco dotado para dar aulas (lia-as para dentro), dava opiniões demasiado fortes para o pacato mundo de Nova Inglaterra (ensinou na Cornell University e no Wellesley College), adorava borboletas, detestava Dr. Jivago, Freud e o epiléptico Dostoiévski, sofria de insónias; Rainer Maria Rilke andou com muitas mulheres mas a condessa de Noailles achou-o muito feio; Malcolm Lowry vendia a roupa para comprar álcool; a Madame du Deffand pregava o agnosticismo e participou em várias orgias; Rudyard Kipling não apreciava graçolas, detestava intromissões na sua vida privada, recusava-se a falar sobre a obra dos seus contemporâneos; Arthur Rimbaud deixou de escrever aos 20 anos, não tomava banho, enchia os colchões dos amigos de piolhos, a sua atribulada amizade com Verlaine e Mathilde (mulher deste) acabou com a prisão de Verlaine (por ter perseguido Rimbaud com uma arma); Djuna Barnes era mais elegante do que bela e, apesar de ter Carson McCullers doida por ela, tinha como companheira uma escultora chamada Thelma Wood; Oscar Wilde era um grande conversador, tinha mãos pegajosas e gostava de ir para a cama com gente de ambos os sexos, casou com Constance Lloyd, que lhe deu dois filhos e apanhou sífilis de uma prostituta; Yukio Mishima, fortemente atraído pela morte, organizou um pequeno exército de cem homens, os Tatenokai (Sociedade do Escudo) e, a 25 de Novembro de 1970, acabou por fazer harakiri; Lawrence Sterne fez-se clérigo em Cambridge e, quando morreu, o seu cadáver foi roubado à terra e acabou nas mãos de um médico que ensinava precisamente na mesma universidade.
Ode aos Engraxadores
Seria justo alguém
lavasse um dia os pés aos engraxadores.
Limpam, humedecem
com bálsamo o que foi pele
de outro animal
provavelmente extinto.
Utilizam
o que somente
abelhas regurgitam,
parte acessória, fabricante
de sua casa.
Faltam-lhe dentes
e sapatos. Sonham
enquanto as veias ficam trémulas.
Dignos
da mais completa prosternação.
-António Osório, Décima Aurora (1982)
lavasse um dia os pés aos engraxadores.
Limpam, humedecem
com bálsamo o que foi pele
de outro animal
provavelmente extinto.
Utilizam
o que somente
abelhas regurgitam,
parte acessória, fabricante
de sua casa.
Faltam-lhe dentes
e sapatos. Sonham
enquanto as veias ficam trémulas.
Dignos
da mais completa prosternação.
-António Osório, Décima Aurora (1982)
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Irritabilidade - Joseph Conrad

Conrad era tão irritável que quando deixava cair a caneta ao chão, em vez de a apanhar logo e continuar, dedicava vários minutos a tamborilar exasperado na mesa à maneira de lamentação pelo acidente.
- Javier Marías, Vidas Escritas
Assobiar
Não saber como sair do buraco. Esgravatar na areia, partir as unhas, esfregar o sabugo na argila, dói-dói, chiça, asneira, sentar no chão, respirar fundo, desistir, fazer cara de enfado olhando para a luz que vem de cima, assobiar.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Ifigénia na Táurida
Depois de ter perdido estupidamente a hipótese de ver Diogo Infante, um belíssimo actor, fazer de Hamlet no Maria Matos, não voltarei a repetir semelhante erro com Ifigénia na Táurida.
Mountain View

Invejo, do fundo do coração, a pessoa da Califórnia que visita todos os dias o meu blogue.
Cinzas do tempo
O espadachim cego achava que poderia lutar contra o mundo inteiro. Não contava que um espadachim canhoto lhe pudesse rasgar o pescoço à primeira.
Da crítica literária portuguesa
Na sua maioria, são textos de uma sonolenta mediocridade, que se tornam perfeitamente ilegíveis para o leitor mais impaciente.
- Eduardo Prado Coelho, O Reino Flutuante
- Eduardo Prado Coelho, O Reino Flutuante
Dung che sai duk / Ashes of Time (1994), Wong Kar-Wai

Quando não puderes ter o que queres, o melhor é não esqueceres.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Semana
Se esta semana não houver uma novidade, uma boa notícia, bem, não sei mas, se não houver uma grande novidade, acho que, sei lá, encolho-me na cama, fico a contar os passarinhos na janela ou vou buscar uma faca à cozinha e, com um bocado de coragem, não, não posso, ou melhor, encolho-me na cama e faço ameaças parvas.
domingo, 25 de outubro de 2009
O ranço
A minha vida melhoraria imenso se me esquecesse do sonho com que um dia acordei. Viveria muito melhor se o meu planeta fosse habitado apenas por mim e pelas minhas memórias da aldeia. Pelo rio nas canelas, pelo vento na cara, pelo rapaz que anda de bicicleta sem usar as mãos, pelas borbulhas na cara que dão muita vergonha, pelas cartas às meninas que dizem «quero ficar contigo para sempre», pelas cartas das meninas que dizem «também quero ficar contigo para sempre». Viveria muito melhor se pudesse deixar de ver o ranço.
Kakushi-toride no san-akunin /Fortaleza Escondida (1958), Akira Kurosawa

Uma mosca que anda à volta do estrume não sente o seu próprio cheiro.
sábado, 24 de outubro de 2009
Só a morte é que sabe
Fala o Tractor
Não gosto deste perfil de gafanhoto.
Constante sou, trepido, usam-me,
servo da gleba. Rasgo e acamo,
tenho um veio de dolorosa, serena
transmissão. Custa levar de rojo
uma vaca à cova. Esmaguei já
uma perna. Detesto o peso do reboque.
Cinco anos e ainda não percebi estas
sujas peças que rodam em mim.
A escavadora, ao menos, uiva
(amo-a). Não me agrada a sucata.
Mãe que levei à terra
Mãe que levei à terra
como me trouxeste no ventre,
que farei destas tuas artérias?
Que medula, placenta,
que lágrimas unem aos teus
estes ossos? Em que difere
a minha da tua carne?
Mãe que levei à terra
como me acompanhaste à escola,
o que herdei de ti
além de móveis, pó, detritos
da tua e outras casas extintas?
Porque guardavas
o sopro de teus avós?
Mãe que levei à terra
como me trouxeste no ventre,
vejo os teus retratos,
seguro nos teus dezanove anos,
eu não existia, meu Pai já te amava.
Que fizeste do teu sangue,
como foi possível, onde estás?
- António Osório, A Ignorância da Morte (Aldeia de Irmãos/A Matéria Volátil) (1978)
Não gosto deste perfil de gafanhoto.
Constante sou, trepido, usam-me,
servo da gleba. Rasgo e acamo,
tenho um veio de dolorosa, serena
transmissão. Custa levar de rojo
uma vaca à cova. Esmaguei já
uma perna. Detesto o peso do reboque.
Cinco anos e ainda não percebi estas
sujas peças que rodam em mim.
A escavadora, ao menos, uiva
(amo-a). Não me agrada a sucata.
Mãe que levei à terra
Mãe que levei à terra
como me trouxeste no ventre,
que farei destas tuas artérias?
Que medula, placenta,
que lágrimas unem aos teus
estes ossos? Em que difere
a minha da tua carne?
Mãe que levei à terra
como me acompanhaste à escola,
o que herdei de ti
além de móveis, pó, detritos
da tua e outras casas extintas?
Porque guardavas
o sopro de teus avós?
Mãe que levei à terra
como me trouxeste no ventre,
vejo os teus retratos,
seguro nos teus dezanove anos,
eu não existia, meu Pai já te amava.
Que fizeste do teu sangue,
como foi possível, onde estás?
- António Osório, A Ignorância da Morte (Aldeia de Irmãos/A Matéria Volátil) (1978)
Enterrar na neve
- Isso faz-me chorar. Mal entrei em casa, desatei a chorar. Tenho medo da separação. Por favor, vá-se embora! Jamais esquecerei que me fez chorar.
- Yasunari Kawabata, Terra de Neve
- Yasunari Kawabata, Terra de Neve
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Tempestade
Não te preocupes. Quem se cruzar contigo na rua não perceberá que a tempestade também passou por ti.
Bestas
Poderias lutar contra a besta feroz, atirá-la ao chão e esmurrá-la até transformar-lhe o nariz numa poça de sangue. Serias muito corajoso e incauto. Despender tanta energia para esmagar uma besta quando ainda te faltam tantos quilómetros para chegar ao destino.
Havia tanto
Não há nada a fazer. Há tudo. Havia tudo. Agora não há nada. Havia tanto a fazer. Tanta coisa foi esquecida. Não fiz nada. Fiz tudo mas o que fiz resultou em nada.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
terça-feira, 20 de outubro de 2009
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Raiz Afectuosa
O Passado
Olha para trás o monstro corrompido
por trinta anos de degredo,
por tanta ladainha, tanta gente,
tamanhos e tamanhos infortúnios,
lentamente destruídos por tanta
ocultação, desprezo, tanto medo e raiva,
que não encontra o próprio rosto de criança.
In Memoriam
Ao lado do corpo de meu Pai
chorava esta pobre carne.
E de repente chegou a tua
e minha felicidade:
A teu lado estou
sorrindo a chamar-te,
espero que regresses a casa,
ansiosamente corro para a porta.
E ao colo sinto o teu calor,
contigo passeio pela mão,
pergunto, pergunto e tu respondes
ocultando o fim da vida.
Ver-te dormir, alegria
igual à tua
quando de noite
tranquilo eu respirava.
Tenho três anos e tu, Pai, és jovem,
grande, senhor do mundo,
deus docemente temido
desde o início.
Assim te amo agora sem lágrimas.
Que deste modo teus netos
um dia se recordem de mim,
na tua, minha e deles
pura ignorância da morte.
- António Osório, A Raiz Afectuosa (1972)
Olha para trás o monstro corrompido
por trinta anos de degredo,
por tanta ladainha, tanta gente,
tamanhos e tamanhos infortúnios,
lentamente destruídos por tanta
ocultação, desprezo, tanto medo e raiva,
que não encontra o próprio rosto de criança.
In Memoriam
Ao lado do corpo de meu Pai
chorava esta pobre carne.
E de repente chegou a tua
e minha felicidade:
A teu lado estou
sorrindo a chamar-te,
espero que regresses a casa,
ansiosamente corro para a porta.
E ao colo sinto o teu calor,
contigo passeio pela mão,
pergunto, pergunto e tu respondes
ocultando o fim da vida.
Ver-te dormir, alegria
igual à tua
quando de noite
tranquilo eu respirava.
Tenho três anos e tu, Pai, és jovem,
grande, senhor do mundo,
deus docemente temido
desde o início.
Assim te amo agora sem lágrimas.
Que deste modo teus netos
um dia se recordem de mim,
na tua, minha e deles
pura ignorância da morte.
- António Osório, A Raiz Afectuosa (1972)
Prémio
Em 72 recebi
o prémio literário
dos pensos rápidos Band-Aid
o prémio foi uma bicicleta
às vezes penso
que me deram uma bicicleta
para eu cair
e ter de comprar pensos
rápidos
Band-Aid
é o que penso dos prémios literários
em geral
- Adília Lopes, Clube da Poetisa Morta
o prémio literário
dos pensos rápidos Band-Aid
o prémio foi uma bicicleta
às vezes penso
que me deram uma bicicleta
para eu cair
e ter de comprar pensos
rápidos
Band-Aid
é o que penso dos prémios literários
em geral
- Adília Lopes, Clube da Poetisa Morta
domingo, 18 de outubro de 2009
Conservadores
Eu sei que é difícil ser português e leitor de livros ao mesmo tempo mas deixem de dizer que Philip Roth é um conservador, porque não é nada mesmo. Para perceberem que o autor até se inclina bastante para o progressismo, bastaria lerem livros como The Plot Against America ou, no caso de não quererem pegar em livros escritos em «americano» (ai tão fascistas, ui, que até arde os olhos) de quinhentas páginas, bastaria pegarem numa qualquer entrevista (até poderia ser esta entrevista do Expresso em que o jornalista, muito afectado pela imagem do escritor tenebroso, misterioso, aponta no seu caderninho o amor que o escritor nutre por Obama, outro grande conservador desse império fascista).
Entrevista

Da fraca entrevista conduzida pelo para mim desconhecido João Luz (será que o jornal pagou a um jornalista para fazer perguntas de adolescente ao maior escritor vivo?), publicada no Expresso desta semana, salva-se o humor de Philip Roth. Aqui ficam alguns excertos:
Jornalista: Foi hoje conhecido o vencedor do Prémio Nobel da Literatura.
P. Roth: Quem é que ganhou?
Jornalista: Herta Müller.
P. Roth: Nunca ouvi falar. Você já ouviu?
(...)
Jornalista: Conhece o trabalho de José Saramago?
P. Roth: Não, não conheço.
Túlio e Maria Andrade
Maria Andrade
depois de Túlio a beijar
na boca
pela primeira vez
diz a Túlio
que Túlio é a primeira
pessoa
a beijá-la na boca
de facto
ela já tinha beijado
as avós na boca
mas as bocas fechadas
e frias
das avós
eram como papel
de embrulho
ou mata-borrão
mas agora Maria Andrade
descobre
que o morango
que come
a morde
gostaste?
sim!
Túlio não a volta
a beijar
Maria Andrade pede-lhe
que o faça
Túlio fá-lo
- Adília Lopes, A Continuação do Fim do Mundo
depois de Túlio a beijar
na boca
pela primeira vez
diz a Túlio
que Túlio é a primeira
pessoa
a beijá-la na boca
de facto
ela já tinha beijado
as avós na boca
mas as bocas fechadas
e frias
das avós
eram como papel
de embrulho
ou mata-borrão
mas agora Maria Andrade
descobre
que o morango
que come
a morde
gostaste?
sim!
Túlio não a volta
a beijar
Maria Andrade pede-lhe
que o faça
Túlio fá-lo
- Adília Lopes, A Continuação do Fim do Mundo
Noite escura (2004), João Canijo
Uma novidade: pela primeira vez, dois filmes portugueses (do mesmo realizador) deixaram-me maravilhado.
sábado, 17 de outubro de 2009
O colóquio
A transpiração escorre pela testa quente. Dentro da sala. O colóquio a decorrer, não posso espirrar, se o fizer, nem quero pensar, se o fizer todos repararão. Tantas sumidades dentro da sala, tantos doutores, tantas criaturas que não interessam a ninguém. Não espirrarei. Não aguentas o primeiro, não aguentas nenhum. Atchim. Atchim. Atchim. As narinas entaladas entre o indicador e o polegar, não sairá nenhum atchim. O colóquio que continue. Falem. Deixem-me ficar distraído para não pensar em espirros. A transpiração na testa, no pescoço, no umbigo, onde guardei os comprimidos? Ia jurar que estavam no bolso da camisa. Intervalo. «Foi bom? Gostaste da intervenção de não-sei-quantos?», perguntam-me. «Muito», respondo.
Dentro dos lençóis
Entregámo-nos
um ao outro
dentro dos lençóis
brancos
à tarde
na posição mais
ortodoxa
e agora sabemos
e não sabemos
um do outro
escrevemo-nos
escrevemos
- Adília Lopes, O Peixe na Água
um ao outro
dentro dos lençóis
brancos
à tarde
na posição mais
ortodoxa
e agora sabemos
e não sabemos
um do outro
escrevemo-nos
escrevemos
- Adília Lopes, O Peixe na Água
Dissolver o passado

The past could dissolve at his will and so could the future; so could the walls od this house and the whole imprisoning wasteland beyond it, towns and trees. He had taken command of the universe because he was a man, and because the marvelous creature who opened and moved for him, tender and strong was a woman.
- Richard Yates, Revolutionary Road
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Honorable Mention
O meu amigo Bruno Alves, do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, foi distinguido com uma menção honrosa no Sir John M. Templeton Fellowships Essay Contest. Fico muito contente por ele.
A regra é a mesma
Não tenhas medo de parecer ridículo. A regra é sempre a mesma: ninguém quer saber.
Do passado
Não havia nada a fazer mas o tempo passou e ficou a sensação de que deveria ter havido tudo a fazer.
Expecting the worst
Este tema dos Alphaville (aqui noutra versão) é um tanto ou quanto foleiro e eu ainda mais foleiro sou por dele ter gostado nos anos 90 (fora de tempo). Mas o que queria dizer é que este verso ilustra bem o meu estado de espírito:
Hoping for the best but expecting the worst
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Prostituta amputada
Cristina sente-se amputada
infelizmente Cristina
não é uma prostituta
ficaria muito bem
num romance como este
a prostituta usava andas
porque a prostituta
fora amputada
- Adília Lopes, Maria Cristina Martins
infelizmente Cristina
não é uma prostituta
ficaria muito bem
num romance como este
a prostituta usava andas
porque a prostituta
fora amputada
- Adília Lopes, Maria Cristina Martins
Zilda
Zilda viu-se forçada
a pintar o cabelo de loiro
no cabeleireiro Tristão e Isolda
os seus sombrios cabelos quase azuis
não nos servem aqui
para nada
tinha dito o gerente
do cabaret-dancing Salomé
a Zilda
o cabeleireiro Tristão e Isolda era um cabeleireiro
gerido por dois irmãos incestuosos
sem romantismo
ou sem folclore
filhos de uma cantora fracassada
que proibira os filhos
de ler romances e de ouvir música
assim os filhos eram peritos
em penteados
e para Tristão e Isolda
chamarem-se Tristão e Isolda
era como chamarem-se Romeu e Julieta
Zilda conhecera um casal de canários
a quem a dona chamara Romeu e Julieta
por ser essa uma marca de arroz carolino cara
a manicure a felizarda chamava-se Maria José
- Adília Lopes, Os 5 Livros de Versos Salvaram o Tio
a pintar o cabelo de loiro
no cabeleireiro Tristão e Isolda
os seus sombrios cabelos quase azuis
não nos servem aqui
para nada
tinha dito o gerente
do cabaret-dancing Salomé
a Zilda
o cabeleireiro Tristão e Isolda era um cabeleireiro
gerido por dois irmãos incestuosos
sem romantismo
ou sem folclore
filhos de uma cantora fracassada
que proibira os filhos
de ler romances e de ouvir música
assim os filhos eram peritos
em penteados
e para Tristão e Isolda
chamarem-se Tristão e Isolda
era como chamarem-se Romeu e Julieta
Zilda conhecera um casal de canários
a quem a dona chamara Romeu e Julieta
por ser essa uma marca de arroz carolino cara
a manicure a felizarda chamava-se Maria José
- Adília Lopes, Os 5 Livros de Versos Salvaram o Tio
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
No more tears
Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa da minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos grande
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar
- Adília Lopes, O Decote da Dama de Espadas (Romances)
na casa de banho da casa da minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos grande
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar
- Adília Lopes, O Decote da Dama de Espadas (Romances)
Literatura
Os americanos podem limpar os Prémios Nobel todos, menos o da literatura, que esse só o conseguem ganhar mentes elevadas. Os norte-americanos são tão incultos, fascistas e ignorantes, ai tão maus que são. Os americanos podem ser bons em muita coisa, porém, em termos de literatura, não é um judeu qualquer que vai ganhar um Nobel. Isso não, senhores, que estamos em pleno século XXI e o que interessa é tocar para a frente. Ainda se fosse torneiro mecânico, se fosse dissidente de alguma coisa, se tivesse qualquer antigo amor a Estaline, se escresse poemas anti-Bush, mas não. Um antigo professor universitário? Pff. Então não sabem que esses patifes ianques põem as criancinhas a ir para a escola em Agosto? Crime dos crimes. Toda a gente sabe que escola que é escola acaba em Junho e começa em Outubro.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Dois marginais à pancada

O bicho viu dois marginais à pancada em Odivelas. Querendo armar-se em grande para a namorada, um deles saiu todo esmurrado. Pensava que chegava lá, esticava o peito e agora é boxe, dás tu um, depois dou eu, como se isto fosse brincadeira de cavalheiros. O bicho teve vontade de dizer ao que saiu esmurrado que não é assim, que é chegar, dar uma patada nos testículos e um uppercut no nariz e não dar tempo ao outro de respirar, porque as rajadas vão como tijolos.
Os neutros
Os neutros não vão à guerra, não dão a cara por ninguém e querem ter o privilégio de se relacionarem com duas partes opostas. Na política, por exemplo, certos políticos consideram-se independentes, como se com isso quisessem dizer que estão acima de qualquer ideologia ou partido. Porém, o que os políticos independentes mais gostam de fazer é jogar nos dois campos.
Caderno de gatafunhos
Nas fases de menor proficiência, o bicho abre o seu caderno de gatafunhos e risca todas as folhas brancas que lhe aparecem à frente.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
domingo, 11 de outubro de 2009
Todos ganham
Como neste país todos os partidos dizem que ganham, é altura de alguém que acha que tem andado a perder muita coisa dizer que neste país todos ganham porque não há nada de verdadeiramente bom para conquistar.
Metade da unha
Tinhas de enfiar o dedo dentro do ralo do lava-loiça e deixar lá metade da unha do dedo indicador direito. Voltaste aos sete aninhos. Gritaste pela enfermeira caseira enquanto os pingos de sangue invadiam o chão. Não bastavam as enxaquecas, a constipação, os espirros, a música foleira dos Pretenders que passava na rádio, tinhas de ficar sem metade de uma unha.
O marquês de Chamilly a Marianna Alcoforado
Minha senhora deve ter
uma coisa muito urgente e capital
a dizer-me
porque me tem escrito muito
e muitas vezes
porém lamento dizer-lho
mas não percebo
a sua letra
já mostrei as suas cartas
a todas as minhas amigas
e à minha mãe
e elas também não percebem bem
não me poderia dizer
o que tem a dizer-me
em maiúsculas?
ou pedir a alguém
com uma letra mais regular
que a sua
que me escreva
por si?
como vê tenho a maior vontade
em lhe ser útil
mas a sua letra minha senhora
não a ajuda
- Adília Lopes, O Marquês de Chamilly (Kabale und Liebe)
uma coisa muito urgente e capital
a dizer-me
porque me tem escrito muito
e muitas vezes
porém lamento dizer-lho
mas não percebo
a sua letra
já mostrei as suas cartas
a todas as minhas amigas
e à minha mãe
e elas também não percebem bem
não me poderia dizer
o que tem a dizer-me
em maiúsculas?
ou pedir a alguém
com uma letra mais regular
que a sua
que me escreva
por si?
como vê tenho a maior vontade
em lhe ser útil
mas a sua letra minha senhora
não a ajuda
- Adília Lopes, O Marquês de Chamilly (Kabale und Liebe)
sábado, 10 de outubro de 2009
Transporte Público 3
O empresário tinha uma camisa muito engomadinha e um cabelo muito penteado mas, quando cruzava a perna, via-se perfeitamente a peúga esburacada.
Espeta a agulha
Espeto o único retrato
que tenho dela
com um alfinete
exactamente no sítio do coração
ela no mesmo instante
sente-se sufocar
e morre
como se uma abelha lhe tivesse picado o coração
(para escrever abelha e coração
foi-me preciso matar)
- Adília Lopes, A Pão e Água de Colónia
que tenho dela
com um alfinete
exactamente no sítio do coração
ela no mesmo instante
sente-se sufocar
e morre
como se uma abelha lhe tivesse picado o coração
(para escrever abelha e coração
foi-me preciso matar)
- Adília Lopes, A Pão e Água de Colónia
Transporte Público 2
A mulher gorda não tira os olhos do homem desdentado e vice-versa. O homem desdentado aprecia muito o decote da mulher gorda. Se pudesse enterrar a cabeça no meio daqueles dois montes de carne, não hesitaria. A mulher gorda olha para os dentes (ou para o espaço onde deveriam estar esses dentes) do homem desdentado. O homem desdentado roça o joelho na perna da mulher gorda e fá-la corar e transpirar muito. A mulher gorda sai do transporte público e deita um olhar muito triste para cima do homem desdentado, o qual lhe estende, em forma de despedida, um sorriso pleno gengivas.
Diderot aconselhou o poeta de Pondichéry a não escrever
Tenho as gavetas cheias de papéis escritos
poemas e cartas que não cheguei a mandar a Diderot
os poemas escrevi-os num papel barato
não sou capaz de escrever um poema num leque
depois do que Diderot me disse
se quer ouvir dizer que os seus poemas são bons
procure outra pessoa
há sempre quem diga de um poema
que ele é bom
para a seguir lhe mostrar um poema
e ouvir dizer que ele é bom
conhece a expressão do ut des?
em espanhol também há uma expressão para isso
mas agora não me lembro
não mostrei os poemas a outra pessoa
nem eu próprio os leio
porque tenho medo
as cartas estão fechadas e têm selo
escrevi-as num papel nem muito caro nem muito barato
para não constranger Diderot
nunca escrevi cartas de amor
mas costumo pensar que escrevi cartas ridículas
e por ter a mania de pôr o carro à frente dos bois
acho que todas as cartas ridículas são cartas de amor
espero que estes poemas e estas cartas
que não sei porquê guardo
não vão parar a uma vitrine
espero que vão parar às mãos dos trapeiros
porque os trapeiros não são curiosos
já vi um trapeiro acabar de roer um caroço de pêro
sem pensar nos dentes e nos beiços que tinham
roído o que faltava
- Adília Lopes, O Poeta de Pondichéry
poemas e cartas que não cheguei a mandar a Diderot
os poemas escrevi-os num papel barato
não sou capaz de escrever um poema num leque
depois do que Diderot me disse
se quer ouvir dizer que os seus poemas são bons
procure outra pessoa
há sempre quem diga de um poema
que ele é bom
para a seguir lhe mostrar um poema
e ouvir dizer que ele é bom
conhece a expressão do ut des?
em espanhol também há uma expressão para isso
mas agora não me lembro
não mostrei os poemas a outra pessoa
nem eu próprio os leio
porque tenho medo
as cartas estão fechadas e têm selo
escrevi-as num papel nem muito caro nem muito barato
para não constranger Diderot
nunca escrevi cartas de amor
mas costumo pensar que escrevi cartas ridículas
e por ter a mania de pôr o carro à frente dos bois
acho que todas as cartas ridículas são cartas de amor
espero que estes poemas e estas cartas
que não sei porquê guardo
não vão parar a uma vitrine
espero que vão parar às mãos dos trapeiros
porque os trapeiros não são curiosos
já vi um trapeiro acabar de roer um caroço de pêro
sem pensar nos dentes e nos beiços que tinham
roído o que faltava
- Adília Lopes, O Poeta de Pondichéry
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Transporte Público 1
Quando fala com a filha, a senhora drogada enfia a língua no dente canino que lhe falta.
Com o fogo não se brinca
Com o fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo com fumo
porque o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima
muito
e como queima muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo
- Adília Lopes, Um Jogo Bastante Perigoso
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo com fumo
porque o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima
muito
e como queima muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo
- Adília Lopes, Um Jogo Bastante Perigoso
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Roth

«Digamos que a criança que há em mim ficaria muito feliz por ganhar o Nobel.»
E quase tão feliz quanto a criança que existe em ti ficaria eu se o Nobel fosse teu.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Longe de Manaus

As pessoas falam da solidão mas julgam que é um problema delas. Apenas delas. Os escritores inventam uma história e acham que a literatura é obra da solidão. E os músicos, os cineastas, os detectives privados que investigam adultérios nos subúrbios, os industriais de cerâmica, os contabilistas. Mas não é verdade. Aqui ou em qualquer outro lugar. Também somos gente solitária. Gente assim.
- Francisco José Viegas, Longe de Manaus
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
domingo, 4 de outubro de 2009
Félix
O bicho passou pela banca da S.O.S Animal, no Jardim da Estrela, e viu um gato amarelo. Pediu a uma senhora simpática para tirar o gato da casota e este, mal se viu na rua, fez-se de Forrest Gump, pôs-se a correr como se não houvesse amanhã O bicho ainda olhou para os lados a ver se via o Félix amarelo. Depois, desistiu. Foi ler.
Lixo mais lixo
O lixo traz lixo. Esta é uma das razões que me levam a optar pela misantropia. Não apenas não quero sujar os outros como não quero que me sujem.
sábado, 3 de outubro de 2009
Natasha
Eu conheço a Natasha. Durante a licenciatura, pavoneava-se pelos corredores da faculdade, maldizendo os livros e espalhando o fedor produzido pelos seus sovacos, animava poderosas tertúlias nas quais se elogiava os méritos do haxixe, apontava-me o dedo sempre que eu furava uma greve. Eu conheço a Natasha. É aquela do partido da esquerda da esquerda que, depois de muito tempo a abanar bandeiras, está à beira de concretizar o sonho de fazer política irreverente paga pelo Estado até ao tempo da reforma.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Não-novidade
Querias fazer um diário mas nunca acontece nada de relevante. A menos que dê para manter um diário de não-novidades. Ontem, por exemplo, deparaste-te com uma não-novidade da máxima relevância. Enterraste uma expectativa. Depois de meses a apaparicá-la, acabaste com ela. Acabaste como quem diz. As expectativas envolvem outros, ultrapassam-nos. A culpa não é só tua.
Colarinho branco
O bicho conhece outro bicho que não toma banho, dorme agarrado a caixas de pizza vazias, apaga cigarros a copos onde outros põem a boca, não limpa a sanita onde defeca e sai para a rua engravatado.
Boletim meteorológico
O bicho tem um joelho que é um autêntico boletim meteorológico. Um dia antes de chover, dez martelos juntam-se para dar o alarme «tempestade, alerta, cuidado, descida abrupta da temperatura». Acordando cheio de dores, o bicho agarra-se ao joelho, geme durante longos minutos, morde os lençóis e toma dois analgésicos de 200 mg cada.
Esmagar
Sozinha com o gato que o pai tanto adorava, a criança sentiu-se tentada por uma ideia: e se esmagasse a cabeça do animal com a sola do sapato?
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
O bicho antes de adormecer
Eu, bicho bombástico (a bomba na testa, zumba, a bomba arde, bomba, zomba, zumba), quero ser um bom (boom, BOOM), menino, zinho.
Homem do lixo
A meio de uma insónia, ouvi um homem do lixo gritar para outro: «Ajuda-me, caí lá dentro.» Não me levantei para ver o que se passava. Preferi imaginar.
Oito horas
O bicho tem um problema que não consegue resolver: como dormir oito horas (sem acordar com o barulho dos carros, sem ter pesadelos macabros, sem perder a respiração, sem berrar ou gemer, sem toques de telefone, sem portas a bater)?
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