quinta-feira, 30 de abril de 2009
Governador de uma ínsula
Fidelidade
terça-feira, 28 de abril de 2009
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Hipermetropia

Nas fotografias mais antigas
ainda uso óculos: memória
das lentes riscadas e paninhos
de flanela. Um dia as dioptrias
desapareceram («óptimo», disse
o oftalmologista) e fiquei a ver
melhor ao longe - mas não tão
longe que consiga alcançar, hoje,
o que via quando as hastes me
magoavam atrás das orelhas.
- José Mário Silva, Luz Indecisa
Afundo-me
Afundo-me no mar. Atirei-me de um navio. Não queria voltar para a família. Não tinha amigos. Melhor, as pessoas que se diziam minhas amigas traíram-me em todas as oportunidades que tiveram. Não posso perdoar aqueles que me lançaram para cima dos carros quando fingiam querer ajudar-me a atravessar a passadeira. Afundo-me. Deixo-me levar pela maré. Se quisesse, poderia tentar salvar-me, dar umas braçadas e nadar. Vou ao fundo por minha vontade. Trata-se do meu último acto. Ir ao fundo. De hoje em diante, não voltarão a ouvir falar de mim. Terminaram as histórias mal contadas, as mentiras, a arrogância, o medo, o remorso, a crueldade e o omnipotente e omnipresente sofrimento. O meu triste passado acaba aqui. Tenho a boca fechada. Só a abrirei quando já não conseguir suster a respiração. Acabarei com dignidade. Vejo tubarões. Um grande tubarão branco entre outros tubarões mais pequenos. Anda cá, meu doce animal branco, deixa-me dar-te uma festinha. Este bicho tem melhores sentimentos do que muita gente que conheci anteriormente. Deixa-me dar-te mais uma festa, farrusco. Começo a sentir-me melhor, mais livre. Esqueci tudo. Nenhuma fotografia tem peso afectivo na mente de um afogado. Minto, minto muito, tanto. Como sempre. As fotografias têm todo o peso, causam transtorno. Sofro muito ao pensar em certas imagens que deixarei para trás. Não regressarei a ontem. Tu de joelhos a tentares pedir desculpa. Eu a saber que me mentias, que tinhas passado a noite dentro de um quarto cheio de pecado. Deixei de querer saber. Nasci para ser desrespeitado. Batiam-me em pequeno. Caí dentro da poça de lama. Sujaram o meu nome em todo o lado. Posso nadar, se quiser, mas prefiro acompanhar o ritmo dos peixes. O som da baleia. A grande criadora de tudo. O cachalote. Desisto do futuro, encho-me de algas, sou mordido por caranguejos e vou ao fundo. Sou um ponto minúsculo. A minha resistência acabou. Transformo-me em anémona.
domingo, 26 de abril de 2009
É assim, senhor Vila-Matas?
Prioridade
sábado, 25 de abril de 2009
Cortar com o passado
- Enrique Vila-Matas, Doutor Pasavento
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Do vórtice
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Espécie cruel

A nossa espécie é propensa a um sadismo extremo. Tortura, viola, massacra, humilha. Os nossos apetites sexuais parecem não conhecer limites internos - os adultos cometem abusos e violações sobre crianças de colo. Somos capazes de canibalismo e de impulsos de avidez homicida.Cegamos, castramos e enterramos vivos prisioneiros indefesos.
- George Steiner, Os Livros que Não Escrevi
domingo, 19 de abril de 2009
Livraria
O temporal fez-me entrar por acaso numa livraria. A escorrer água e suor por todos os poros, passeei-me por entre as estantes sem me aproximar dos livros. Não os queria molhar. Um escritor discursava num palco improvisado. Tentei ouvi-lo durante algum tempo mas, molhado como estava, não me sentia em condições de raciocinar. Doía-me um dos joelhos. Sentei-me dentro de uma das salas de leitura. Sentia-me tão pesado que acabei por passar pelo sono. Fui acordado por ti. «Precisas de um chá, de um cobertor e de um colchão», disseste, não sem antes me afagares o cabelo desgrenhado. Vinha-me à cabeça a pergunta: como é que ela me encontrou aqui? Não querendo estragar o momento, agi como se não fossem necessárias explicações. Abracei-te e disse: «Ainda bem que estamos juntos.» Não havia ninguém a ver-nos. Agarrei-te pela nuca e, qual montanhista a escalar o Evereste, atirei-me para dentro da tua boca. Subiu-me um arrepio espinha a cima. Ouvi trovões caírem lá para o meio do Oceano Atlântico. Saímos de mãos dadas da livraria. Corremos na chuva para apanhar um táxi. O hotel mais próximo ficava a três minutos de distância.
sábado, 18 de abril de 2009
Cinema

René Magritte, The Lovers, 1928
Esperávamos pelo início do filme. Eu comia pipocas, tu rias das minhas figuras. Queria dar-te um beijo. Passei toda a noite a pensar numa forma de o fazer. Fazia de palhaço para que visses que o teu príncipe tinha sentido de humor. Assim que o filme começou, deixei-me de graçolas e vesti a cara mais séria que encontrei. Pretendia mostrar-te que te encontravas perante alguém que não só contava boas piadas, como tinha uma sensibilidade fora do comum. Fingi que sofria quando, na tela, os actores se separaram. Pousaste a tua mão na minha, e juro que teria desmaiado se não fosse obrigado a mostrar-me forte. O filme continuou mas não tiraste a tua mão de cima da minha, o que me levou a imaginar que a história poderia acabar bem. No fim, saímos da sala com vontade de ver outro filme, mas sabíamos que não valia a pena tentar repetir sentimentos puros. Levei-te ao carro. Queria beijar-te. A vontade não desaparecia. O pior era saber que, se não fosse ali, não seria nunca mais. A tua cara não enganava: também querias. Mas como o fazer? Habituara-me desde muito cedo a viver escondido atrás da vergonha. Disseste: «Vou contar-te um segredo.» Aproximaste-te. Estiquei o ouvido. Tu querias a boca.
sexta-feira, 17 de abril de 2009
O sonho da menina
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Do esquecimento
terça-feira, 14 de abril de 2009
Máquina do tempo

Ele tinha uma máquina que o faria regressar a um tempo feliz. Ele dizia que tinha uma máquina. Ele era dono do tempo. Os segundos nos dedos. O gatilho. A bala a soprar no ouvido. Ele tinha uma máquina do tempo. O sangue na parede. Pedaços de miolos no chão. De volta ao beijo na boca.
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Do Fedor 2
domingo, 12 de abril de 2009
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Da dor impaciente
Descobertas
quarta-feira, 8 de abril de 2009
A defesa imperfeita
- Peter Handke, A Angústia do Guarda-Redes Antes do Penalty
Posso tentar prever os teus ataques, tentando lembrar-me de todos os teus habituais gestos, mas há sempre a hipótese de me surpreenderes com uma forma de agir completamente diferente. Deverei esperar os teus ataques consciente de que o ser humano tem tanto de falível como de imprevísivel. Nenhum escudo me protege do risco.
domingo, 5 de abril de 2009
A Prisão do Ético

EU DESCONHECIDO
Um poema: Paul Valéry. Nem todos os homens com nome de génio têm direito a alcançar o estatuto de divindade, no entanto, quem diz que temos de entrar em nós próprios armados até aos dentes não precisa de alcançar seja o que for, uma vez que já possui o movimento característico da poesia dentro de si.
Os homens vivem e morrem a pensar em tarefas que ficaram por cumprir, mas a poesia, essa, tem apenas a ver com a contemplação. A poesia não é construída a partir de sonhos ou de ideias que tenham em vista um objectivo.
O poeta não é aquele que escreve em verso e que constrói rimas com florete; a poesia não é apenas contestação, revolução, rosas e riachos. Nem é apenas métrica ou fonética. Não. Poesia é isto: criar uma espécie de angústia para a resolver. Ou isto: estás cheio de segredos a quem chamas EU. És voz do teu desconhecido.
O verso pouco interessa quando a música não está alinhada com o bailado. Mas nada disso interessa perante a inevitável musicalidade de Paul Valéry, poema, poeta e compositor, que fazia dos dias e dos pensamentos do senhor “Teste” verdadeiras partituras.
A LINHA RECTA
Uma bala: a linha recta.
Podes não ter confiança no teu próprio corpo.
Podes precisar de andar às cambalhotas e aos tropeções. Mas nunca desconfies da direcção que uma bala leva: se ela for apontada ao teu coração,
é o teu coração que sairá perfurado.
A linha recta é inimiga da espécie: procura o movimento que se encontra nas curvas, isto se quiseres sobreviver ao «clic» do gatilho.
Bloch
Duas crianças incendiaram o corpo de um mendigo e, durante sete dias, alimentaram o fogo a gasolina e a petróleo. Dir-se-ia que, em pouco menos de uma semana, duas crianças fundaram uma nova religião.
Berthold
Berthold nunca lia um livro por completo. Um dia, quando finalmente conheceu o final de uma estória, assustou-se.
Eva
Uma senhora velha queria voltar a ser bela e jovem. Arrancou os dentes ao seu cão e com eles fez um fio. Embora tenha continuado velha, a senhora ficou estranhamente bonita.
- Paulo Rodrigues Ferreira, A Prisão do Ético
sábado, 4 de abril de 2009
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Motor
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Lançamento

No próximo sábado, 4 de Abril, pelas 16 horas, realiza-se o lançamento do livro A Prisão do Ético na livraria Livrododia, em Torres Vedras.




