quinta-feira, 30 de abril de 2009

Governador de uma ínsula

Sancho Pança, casado, pai de filhos, queria lutar contra um destino que o condenava à pobreza: «Se ínsulas desejo, outros desejam outras coisas piores; e cada um é filho das suas obras; e, por ser homem, posso chegar a ser papa, quanto mais governador de uma ínsula.»

Fidelidade

Se a tua mulher tiver fama de pura, para quê testar a sua fidelidade? Se te derem um diamante, não bater-lhe-ás com um martelo para ver se é falso.

Cura

O Cura considerava que a loucura de D.Quixote só passaria no momento em que se atirasse para a fogueira a semente do mal: os livros. Um poeta é como um vírus contagioso que só pode ser combatido com o fogo.

Aldonça

Pareceu bem a D.Quixote dar o nome de Dulcineia de Toboso a Aldonça Lourenço, filha de lavrador que não sabia da existência de tão louco e apaixonado fidalgo.

Gigantes

«Vamos lutar contra aquele gigante», gritou D.Quixote. O pobre Sancho Pança ficou muito espantado, tentando ver gigantes em vez de moinhos.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Prisão do ético

The Outlaw Josey Wales (1976), Clint Eastwood


Tens de fugir e o Inferno é o teu destino.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Hipermetropia


Nas fotografias mais antigas
ainda uso óculos: memória
das lentes riscadas e paninhos
de flanela. Um dia as dioptrias
desapareceram («óptimo», disse
o oftalmologista) e fiquei a ver
melhor ao longe - mas não tão
longe que consiga alcançar, hoje,
o que via quando as hastes me
magoavam atrás das orelhas.

- José Mário Silva, Luz Indecisa

Afundo-me

Afundo-me no mar. Atirei-me de um navio. Não queria voltar para a família. Não tinha amigos. Melhor, as pessoas que se diziam minhas amigas traíram-me em todas as oportunidades que tiveram. Não posso perdoar aqueles que me lançaram para cima dos carros quando fingiam querer ajudar-me a atravessar a passadeira. Afundo-me. Deixo-me levar pela maré. Se quisesse, poderia tentar salvar-me, dar umas braçadas e nadar. Vou ao fundo por minha vontade. Trata-se do meu último acto. Ir ao fundo. De hoje em diante, não voltarão a ouvir falar de mim. Terminaram as histórias mal contadas, as mentiras, a arrogância, o medo, o remorso, a crueldade e o omnipotente e omnipresente sofrimento. O meu triste passado acaba aqui. Tenho a boca fechada. Só a abrirei quando já não conseguir suster a respiração. Acabarei com dignidade. Vejo tubarões. Um grande tubarão branco entre outros tubarões mais pequenos. Anda cá, meu doce animal branco, deixa-me dar-te uma festinha. Este bicho tem melhores sentimentos do que muita gente que conheci anteriormente. Deixa-me dar-te mais uma festa, farrusco. Começo a sentir-me melhor, mais livre. Esqueci tudo. Nenhuma fotografia tem peso afectivo na mente de um afogado. Minto, minto muito, tanto. Como sempre. As fotografias têm todo o peso, causam transtorno. Sofro muito ao pensar em certas imagens que deixarei para trás. Não regressarei a ontem. Tu de joelhos a tentares pedir desculpa. Eu a saber que me mentias, que tinhas passado a noite dentro de um quarto cheio de pecado. Deixei de querer saber. Nasci para ser desrespeitado. Batiam-me em pequeno. Caí dentro da poça de lama. Sujaram o meu nome em todo o lado. Posso nadar, se quiser, mas prefiro acompanhar o ritmo dos peixes. O som da baleia. A grande criadora de tudo. O cachalote. Desisto do futuro, encho-me de algas, sou mordido por caranguejos e vou ao fundo. Sou um ponto minúsculo. A minha resistência acabou. Transformo-me em anémona.

Honra

O que mais afligia D. Quixote era não ser cavaleiro. Um homem precisa de se nobilitar, nem que seja por intermédio de um estalajadeiro, para poder viver em paz consigo e com os outros.

Leitura

O pobre D. Quixote enlouqueceu a ler. Passava as noites em claro e os dias no escuro.

Space Cowboys (2000), Clint Eastwood

domingo, 26 de abril de 2009

É assim, senhor Vila-Matas?

Vivemos muito abaixo da nossa dignidade. Somos julgados e condenados sem chegarmos a saber que crimes cometemos.

Vila Matas sobre Robert Walser

Prioridade

O mendigo do Terreiro do Paço importava-se menos com a chuva que lhe caía em cima do que com os pombos que aconchegava debaixo do cobertor surrado.

A Balada da Praia dos Cães (1987), José Fonseca e Costa

sábado, 25 de abril de 2009

Cortar com o passado

No passado, rompi com mais de um amigo precisamente porque me recordava o passado. Consciente de que a minha personalidade juvenil tinha sido horrível, acabei com mais de um amigo ou amiga daquela época, para não me sentir nem mais um minuto ligado a uma realidade miserável dos dias de ontem, que tanto me horrorizavam.

- Enrique Vila-Matas, Doutor Pasavento

Hipótese

Eis a questão: se a seguir a uma ilusão vier uma desilusão, que hipóteses terei de dar uma gargalhada que não anteceda um soluço amargo?

Comte

Há o futuro e a esperança verde. E há o passado que, com todas as suas certezas, diz que amanhã virá o negro e depois mais negro.

Espelho

Às vezes, para um escritor, fugir da caneta é como ser feio e não querer enfrentar o espelho.

Last Days (2005), Gus Van Sant

sexta-feira, 24 de abril de 2009

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Do vórtice

Precisas de acreditar que, quando a mão tiver força, baterá de forma a que o agredido não se consiga levantar.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Espécie cruel



A nossa espécie é propensa a um sadismo extremo. Tortura, viola, massacra, humilha. Os nossos apetites sexuais parecem não conhecer limites internos - os adultos cometem abusos e violações sobre crianças de colo. Somos capazes de canibalismo e de impulsos de avidez homicida.Cegamos, castramos e enterramos vivos prisioneiros indefesos.

- George Steiner, Os Livros que Não Escrevi

Swearengen

domingo, 19 de abril de 2009

Apresentação, Faculdade de Letras, Lisboa

Livraria

O temporal fez-me entrar por acaso numa livraria. A escorrer água e suor por todos os poros, passeei-me por entre as estantes sem me aproximar dos livros. Não os queria molhar. Um escritor discursava num palco improvisado. Tentei ouvi-lo durante algum tempo mas, molhado como estava, não me sentia em condições de raciocinar. Doía-me um dos joelhos. Sentei-me dentro de uma das salas de leitura. Sentia-me tão pesado que acabei por passar pelo sono. Fui acordado por ti. «Precisas de um chá, de um cobertor e de um colchão», disseste, não sem antes me afagares o cabelo desgrenhado. Vinha-me à cabeça a pergunta: como é que ela me encontrou aqui? Não querendo estragar o momento, agi como se não fossem necessárias explicações. Abracei-te e disse: «Ainda bem que estamos juntos.» Não havia ninguém a ver-nos. Agarrei-te pela nuca e, qual montanhista a escalar o Evereste, atirei-me para dentro da tua boca. Subiu-me um arrepio espinha a cima. Ouvi trovões caírem lá para o meio do Oceano Atlântico. Saímos de mãos dadas da livraria. Corremos na chuva para apanhar um táxi. O hotel mais próximo ficava a três minutos de distância.

sábado, 18 de abril de 2009

Cinema


René Magritte, The Lovers, 1928



Esperávamos pelo início do filme. Eu comia pipocas, tu rias das minhas figuras. Queria dar-te um beijo. Passei toda a noite a pensar numa forma de o fazer. Fazia de palhaço para que visses que o teu príncipe tinha sentido de humor. Assim que o filme começou, deixei-me de graçolas e vesti a cara mais séria que encontrei. Pretendia mostrar-te que te encontravas perante alguém que não só contava boas piadas, como tinha uma sensibilidade fora do comum. Fingi que sofria quando, na tela, os actores se separaram. Pousaste a tua mão na minha, e juro que teria desmaiado se não fosse obrigado a mostrar-me forte. O filme continuou mas não tiraste a tua mão de cima da minha, o que me levou a imaginar que a história poderia acabar bem. No fim, saímos da sala com vontade de ver outro filme, mas sabíamos que não valia a pena tentar repetir sentimentos puros. Levei-te ao carro. Queria beijar-te. A vontade não desaparecia. O pior era saber que, se não fosse ali, não seria nunca mais. A tua cara não enganava: também querias. Mas como o fazer? Habituara-me desde muito cedo a viver escondido atrás da vergonha. Disseste: «Vou contar-te um segredo.» Aproximaste-te. Estiquei o ouvido. Tu querias a boca.

Da necessidade


sexta-feira, 17 de abril de 2009

Seth Bullock

A Prisão do Ético

O Badaladas diz qualquer coisa sobre A Prisão do Ético.

O sonho da menina

A menina tinha um desejo. Queria ser bonita. Como as senhoras da televisão, como as mulheres pintadas das capas das revistas. Como as outras meninas que, ao contrário dela, eram desejadas pelos rapazes e viviam felizes. A menina desejava ser bela, mas era feia e apenas tinha inteligência para tentar modificar a realidade com uma faca que desenhava na carne.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Do esquecimento

Em busca no Google, um leitor, certamente muito sofredor, chega a este espaço com a frase «esquecer o pecado». Outro, aparece aqui querendo tirar o mau cheiro da carne vermelha. Pois bem, se conseguisse livrar-me do pecado e se soubesse como tirar o fedor da carne (que suja, a Humanidade), não perderia o meu tempo num blogue.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Máquina do tempo






Ele tinha uma máquina que o faria regressar a um tempo feliz. Ele dizia que tinha uma máquina. Ele era dono do tempo. Os segundos nos dedos. O gatilho. A bala a soprar no ouvido. Ele tinha uma máquina do tempo. O sangue na parede. Pedaços de miolos no chão. De volta ao beijo na boca.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Do Fedor 2

No momento em que tiveres encontrado uma protecção contra a serpente, verás que nada valerá a pena, que todos à tua volta morreram, que o vazio ocupa todo o teu espaço visual. Ficarás imune ao veneno quando perderes a vontade de fugir à doença.

Do Fedor

A mão está fechada, concentrada nos seus afazeres diários, mas um dia, quando tiver força suficiente para se abrir, destruirá tudo o que cheirar mal à sua volta.

domingo, 12 de abril de 2009

A Personal Journey with Martin Scorsese Through American Movies(1995), Martin Scorsese

Tentação

quinta-feira, 9 de abril de 2009

My voyage to Italy (1995), Martin Scorsese

Da dor impaciente

O dentista alerta o paciente para o facto de os seus dentes terem tendência para ganharem cáries invisíveis no exterior. Muito assustado, o paciente pergunta como poderá evitar que as cáries invisíveis atinjam os nervos dos dentes. O dentista dá uma resposta óbvia: vindo muitas vezes ao consultório. O paciente pede para que lhe desvitalizem os dentes todos de uma vez. O dentista diz que não pode fazer isso. O paciente diz que, caso não lhe tirem a vida dos dentes, ficará obcecado com a ideia da cárie a chegar ao nervo e, por causa disso, ficará com dores, cheio de dores. O dentista diz que sim, que concorda, mas que não dá para andar no mundo sem dor, que não somos mais do que animais que tanto precisam de dor como de alegria O paciente diz que está a sentir a dor a chegar.

Descobertas






No primeiro Sábado de cada mês, estes senhores de Torres Vedras andam pelas ruas a ver se levantam um sorriso nas bocas mais sisudas.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

A defesa imperfeita

O guarda-redes está a ver se descobre qual é o centro da baliza que o jogador quer atingir, diz Bloch.

- Peter Handke, A Angústia do Guarda-Redes Antes do Penalty


Posso tentar prever os teus ataques, tentando lembrar-me de todos os teus habituais gestos, mas há sempre a hipótese de me surpreenderes com uma forma de agir completamente diferente. Deverei esperar os teus ataques consciente de que o ser humano tem tanto de falível como de imprevísivel. Nenhum escudo me protege do risco.

domingo, 5 de abril de 2009

A Prisão do Ético


EU DESCONHECIDO

Um poema: Paul Valéry. Nem todos os homens com nome de génio têm direito a alcançar o estatuto de divindade, no entanto, quem diz que temos de entrar em nós próprios armados até aos dentes não precisa de alcançar seja o que for, uma vez que já possui o movimento característico da poesia dentro de si.

Os homens vivem e morrem a pensar em tarefas que ficaram por cumprir, mas a poesia, essa, tem apenas a ver com a contemplação. A poesia não é construída a partir de sonhos ou de ideias que tenham em vista um objectivo.

O poeta não é aquele que escreve em verso e que constrói rimas com florete; a poesia não é apenas contestação, revolução, rosas e riachos. Nem é apenas métrica ou fonética. Não. Poesia é isto: criar uma espécie de angústia para a resolver. Ou isto: estás cheio de segredos a quem chamas EU. És voz do teu desconhecido.

O verso pouco interessa quando a música não está alinhada com o bailado. Mas nada disso interessa perante a inevitável musicalidade de Paul Valéry, poema, poeta e compositor, que fazia dos dias e dos pensamentos do senhor “Teste” verdadeiras partituras.



A LINHA RECTA

Uma bala: a linha recta.
Podes não ter confiança no teu próprio corpo.
Podes precisar de andar às cambalhotas e aos tropeções. Mas nunca desconfies da direcção que uma bala leva: se ela for apontada ao teu coração,
é o teu coração que sairá perfurado.
A linha recta é inimiga da espécie: procura o movimento que se encontra nas curvas, isto se quiseres sobreviver ao «clic» do gatilho.


Bloch

Duas crianças incendiaram o corpo de um mendigo e, durante sete dias, alimentaram o fogo a gasolina e a petróleo. Dir-se-ia que, em pouco menos de uma semana, duas crianças fundaram uma nova religião.


Berthold

Berthold nunca lia um livro por completo. Um dia, quando finalmente conheceu o final de uma estória, assustou-se.


Eva

Uma senhora velha queria voltar a ser bela e jovem. Arrancou os dentes ao seu cão e com eles fez um fio. Embora tenha continuado velha, a senhora ficou estranhamente bonita.


- Paulo Rodrigues Ferreira, A Prisão do Ético

sábado, 4 de abril de 2009

Poderia ter sido pior

Devidamente arrumados na estante



Dois livros extraordinários.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Motor

O homem tinha uma fé inabalável: pensava que, à semelhança de um automóvel sem motor, poderia ser feliz com uma mulher sem coração. Escusado será dizer que, se algumas máquinas trabalham a empurrão, nenhuma funciona sem aquilo que em mecânica imprime movimento.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Lançamento



No próximo sábado, 4 de Abril, pelas 16 horas, realiza-se o lançamento do livro A Prisão do Ético na livraria Livrododia, em Torres Vedras.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Alêtheia



Uma livraria digna de país civilizado.

Cat on a Hot Tin Roof (1958), Richard Brooks