segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Derrotar o forte desaparecendo

The absence of a presence can crush the strongest people.

- Philip Roth, Sabbath's Theater

Regra da sedução

Segundo Mickey Sabbath, personagem principal de Sabbath's Theater, de Philip Roth, a principal regra da sedução é a persistência:

The core of seduction is persistence. Persistence, the Jesuit ideal. Eighty percent of women will yield under tremendous pressure.

98 Octanas (2006), Fernando Lopes

domingo, 30 de agosto de 2009

Adolescente

O bicho olha para o adolescente com um único pensamento em mente: «Como pode uma criatura tão pequena e tão ingénua ter nascido tão idiota?»

Aquele Querido Mês de Agosto (2008), Miguel Gomes

sábado, 29 de agosto de 2009

Sofá

O bicho não gosta de televisão. Acha que não se aprende nada a olhar para ela. Mas o bicho tem uma televisão muito grande na sala que transmite muito desporto e muito cinema. Por mais vontade que tenha de fazer algo produtivo, o bicho fica manhãs, tardes e noites colado ao sofá.

Sentido

O bicho acordou, abriu a janela do quarto e espreitou para o jardim. A natureza parada. O mês de Agosto a morrer muito lentamente. A vida desprovida de sentido.

Amizade

Acreditando que a amizade não se baseia em nada, o bicho detesta os amigos que fundam a amizade em alguma coisa.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Artigo meu no Jornal de Letras

Na última edição do Jornal de Letras (26 Ag.-8 Set.), saiu um texto meu intitulado «Ramalho Ortigão - Um amigo pouco fiável».

Uma casa na escuridão



O príncipe de calicatri abraçou-me e, quando se afastou, reparei que tinha uma mancha de sangue na camisa. Perguntei-lhe, pedi que me mostrasse. Levantou devagar a camisa e, no lugar do coração, tinha um buraco de vermelho vivo. O príncipe de calicatri não tinha coração e, nesse buraco cavado no peito, estava uma ausência muito grande.

- José Luís Peixoto, Uma Casa na Escuridão

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Coragem

Qualquer dia, o bicho farta-se de ser bicho, faz as malas e parte mundo fora, em busca do paraíso distante. O dia-a-dia nesta terra é cruel, miserável. Nunca acontece nada, sabe tudo a pouco. Nem a subsistência está garantida. Nem um pãozinho seco. O bicho pensa muitas vezes em fugir. Qualquer dia, ganha coragem.

Defensor do mercado





Se pudesse, o bicho acenderia uma fogueira muito grande e atiraria lá para dentro metade dos livros que encontra nas livrarias. Isto é o que pensa nos dias em que se esquece de ser um defensor do capitalismo, do mercado e do dinheiro.

Pensamento no restaurante

O bicho preparava-se para registar um pensamento genial no caderno quando se sentiu cansado, muito cansado, tão cansado que só teve tempo de pousar a caneta e de tombar para o lado a ressonar com a testa colada à mesa do restaurante.

Pés

O bicho não gosta nada de ver pés feios. Considera que certas mulheres deveriam ser proibidas de andar descalças.
Quem?

O cansaço

O bicho começa os dias a pensar no descanso: «Hoje, lerei menos do que ontem e amanhã lerei menos do que hoje.» O bicho julga que, parando de ler, dará repouso à mente e, principalmente, aos olhos. Mas os livros nunca deixam de ser lidos a ritmo supersónico e os olhos andam sempre avermelhados, a ameaçarem choro e justificados aumentos de graduação.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O Mundo de Ruben A. - fotobiografia




Liberto Cruz, José Brandão e Nicolau Andresen Leitão, O Mundo de Ruben A., Lisboa, Assírio & Alvim, 1996

Horror a adolescentes

O bicho não tem paciência para adolescentes. Vê-os na rua e desata aos berros: «Vão ler livros, seus inúteis, aprendam qualquer coisa.» Horrorizados, eles correm para longe do bicho. Para além de acharem-no feio e enrugado, sentem muita comichão nos braços quando ouvem a palavra livros.

Leitura-relâmpago, olhos devastados, mas lido



sentindo-se ser morta, a maria da graça sabia não estar a morrer, mas garantia-se de que o aviso estava feito e, de olhos abertos na escuridão, o suor no rosto por tão grande susto, decidia mais uma vez depositar-se nos braços do maldito, o seu amado futuro assassino. não sorria, começava a chorar por acreditar que o amor era sempre igual à morte.

- valter hugo mãe, o apocalipse dos trabalhadores

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Aldeia

Na aldeia, o bicho vê-se como uma Grace (de Dogville) a fugir da ruindade.

Sarandon

A passagem do tempo perturba. Há uns anos (ainda ontem), olhava para Susan Sarandon, uma senhora nascida em 1946, com o mesmo desejo que um adolescente pode nutrir por uma apetecível mãe de um coleguinha de escola. Em In the Valley of Elah, encontro-a distante dos meus sonhos.

In the Valley of Elah (2007), Paul Haggis

domingo, 23 de agosto de 2009

Lido



dizia o meu pai, a voz das mulheres só sabe ignorância e erros, cada coisa de que se lembrem nem vale a pena que a digam. mais completas estariam, de verdade, se deus as trouxesse ao mundo mudas. só para entenderem o que fazer na preparação da comida e debaixo de um homem e nada mais.

- valter hugo mãe, o remorso de baltazar serapião

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Não te vires

Não remexas no passado. Os fantasmas não entendem o teu modo de vida actual.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Ela não existe





Sempre que pensas nela, sorris, porém, depois da humilhação, não há nenhuma hipótese de reerguer a casa. Pensas: tenho a coragem necessária, tenho os meios, é só pegar no telefone, marcar os números e falar. Ganhas coragem. Respiras. O oxigénio a entrar. Os pulmões cheios de ar. Os dedos tocam nas teclas do telefone e insuflam-se de energia. Desligas o pensamento. O apito do telefone vibra-te na testa, acerta-te com estrondo na pele e rasga-ta. É o pretérito perfeito a voltar ao presente. És o coveiro com a pá na mão a desenterrar o morto. A pá a escavar cada vez mais fundo até bater no caixão. O receio de encontrar o cadáver. Desenterra o cadáver. A cara do morto. O som do telefone no ouvido a fazer eco no cérebro transformado em vale do silêncio. Esperas por uma voz. A voz que não atende e que traz ansiedade. Dizes: atende, atende, atende rapariga dos cabelos encaracolados, faz-me o sorriso da adolescência e garante-me, nem que seja por apenas cinco minutos, a felicidade, não te negues, acorda e atende. O passado não atendeu o telefone e, por isso, consideras que de nada valeu o esforço que fizeste para reactivar os nós antigos. Sempre que pensas nela, sorris, mas agora choras, enervas-te, enfureces-te contra a nojenta da fêmea que não te atendeu a chamada. Ainda bem que existe a ira, pensas, sempre me impede de voltar a fazer tristes figuras. A ira que te leva a procurar todas as mulheres e a levá-las para a cama. O desejo de apagar uma humilhação que só tu conheces, uma vergonha interior que mais ninguém vê, mas que te inibe, que te faz sentir inferior. Todas as mulheres que vês na rua são presas fáceis para uma língua mentirosa. Aproveita a ira para manipular. Uma mulher. Cama com ela. Outra vez. Cama. Fúria na almofada. Estrondo na face. Cuspidela na tromba. Adeus, boa noite, passe bem. No peito que havia saudade surgiu a ira. Amanhã, voltará a saudade. Pegarás novamente no telefone. O número dela como grãos de areia nos teus olhos. O som do telefone. Um toque, dois toques, mil toques, cem mil toques, dez milhões de toques. A cera da vela derrete para cima da mesa, a luz apaga-se, e estás sozinho na sala, abandonado. Tens o telefone na mão. Preparas-te para tentar falar com ela. Uma epifania: não vale a pena, é escusado, mesmo que fales com ela, sentir-te-ás sozinho. Ela nunca existiu. Sentias-te apaixonado mas ela era apenas uma imagem, qualquer coisa que imaginaste. Ela não existe. Ouve. Ela atende e a voz não te diz nada.

Adjectivação

O português é, por natureza, de uma susceptiblidade tão grande que nunca chega ao âmago dos problemas, quando se toca no assunto ao de leve, já se precipitam os batalhões de factos e de vi vi vi, ouvi ouvi ouvi e assim perdem-se anos e anos na capa e subcapa da sensibilidade irritada.

- Ruben A., Páginas VI



O bicho não gosta da crítica literária portuguesa. Quando compra uma revista e a desfolha à procura de um bom texto, dá de caras com a maldita superficialidade do crítico (um cada vez mais jornalista). O bicho gostaria de mandar para um gulag siberiano todos aqueles que, para escreverem sobre um livro, se agarram à adjectivação. Para ele, seriam banidas expressões como «incontornável», «lufada de ar fresco», «pedrada no charco» ou «agradável surpresa».

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Situação 4 - a embófia na literatura de viagem

O bicho não gosta de literatura de viagem. Quando lê algum livro do género, sente que o escritor passou meses à procura de nomes de povos e de lugares em dicionários e enciclopédias. Embora aceite que o escritor que visitou determinado país se possa informar posteriormente para melhor relatar as suas vivências, considera que a literatura de viagem é aborrecida, enfastiante, excessivamente artificial.

Depressão

Por mais que me alegrasse, rebuscasse no pensamento, metesse o saca-rolhas para tirar sensações, o raio luminoso de uma visão aconchegada atingia em cheio os movimentos em que intimamente me sentia só, abandonado para melhor dizer.

- Ruben A., O Outro que Era Eu

terça-feira, 18 de agosto de 2009

A personagem e eu



Aos 69, já não tenho nem mesmo a desculpa esfarrapada das obrigações do trabalho ou o pudor de me ver comparado com os verdadeiros escritores. A literatura já não tem importância. Bastaria começar a escrever. Ninguém vai prestar atenção no que eu faço.

- Bernardo Carvalho, Mongólia

Com 25 anos (acabados de fazer), penso de maneira diferente da personagem de Bernardo Carvalho. Tenho o pudor de ser comparado com «verdadeiros» escritores. Tenho a pressão de ter de começar a ganhar a vida. Dou toda a importância à literatura. E, apesar de já ter escrito bastante, acho que ninguém presta atenção ao que faço (o meu unico alívio é pensar que ninguém quer saber do que os outros fazem).

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Situação 3

O bicho pestaneja muito, sente que tem os olhos cheios de areia. Agora só tem em mãos Mongólia, de Bernardo Carvalho, e Os sentimentos de uma ocidental, de Maria Filomena Mónica, mas já teve muitos outros títulos. E amanhã virão mais. O bicho olha para a publicidade na rua e sente muita areia a diminuir-lhe a visão.

sábado, 15 de agosto de 2009

Situação 2



O bicho passou muitas horas a transpirar durante a noite, dormiu muito pouco, quase nada. Tem olheiras, viu muita televisão, bebeu muitos cafés, leu muitas páginas de um livro assaz aborrecido.

Dan in Real Life (2007), Peter Hedges

Happy Birthday Mr. President

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O Sujeito Incómodo, Slavoj Žižek

A ler, no Orgia Literária, o meu mais recente texto sobre O Sujeito Incómodo, de Slavoj Žižek.

Ilusão. Desilusão

1. Não prolongues as tuas ilusões. Mais tarde ou mais cedo, sofrerás por causa delas.

2. Sem ilusões, não tens motivos para viver. Sem desilusões, não podes ser sábio.

3. Ilude-te quantas vezes quiseres. Tira muitas conclusões depois de cada tombo.


O Luís Ene
acrescentou:

Ilude-te sempre que puderes, pouparás muitas desilusões.

Desilude-te sempre que puderes, pouparás muitas ilusões.

Man on the Moon (1999), Milos Forman

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Para os apreciadores de epifanias:

Médico: O viver descansado é a posição dos brutos.

- Ruben A. , Júlia

Para as vítimas da maldição de Jorge de Sena

Luís de Camões: Eu fui moderno no meu tempo. Nessa altura ninguém me lia.

(...)

Luís de Camões: As pessoas não estão preparadas para receber os génios. Há sempre ciúmes, invejas.

- Ruben A., Triálogo

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

não imaginas

não imaginas, ninguém imagina, como o meu peito
ficou vazio depois de partires. o teu sorriso existia
ainda dentro de mim, mas já não eras tu. era a tua
imagem.

não penso para onde foste porque o meu peito, sem
ti, fica atravessado por lâminas. tenho um silêncio
dentro. toco os sítios onde estiveram as tuas mãos.
sinto o que sentiste.

fico acordado de noite, com a esperança secreta de que possas regressar.

- José Luís Peixoto, A Casa, a Escuridão

137

Foi na página 137 que pensaste: belo final, bela bosta.

Página 136

Vais na página 136, sabes que tens de parar, que não dá mais, que a história acabou, mas tens medo da noite escura, do vazio. Não te apetece começar de novo, mas também não te apetece a solidão, a tarde de calor no deserto. Tens de acabar, tens de acabar, mas pensas «explode, explode, explode.»

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Página 134 e gaveta

Vais na página 134, pensas que é altura de acabar, olhas para a gaveta (que bom sítio para guardar uma história escrita por ti), olhas para a lâmina no pulso, vais resistindo à tentação. Um dia destes, começas outra história, enches outra gaveta, ficas cada vez mais depressivo, cada vez mais fascinado com o brilho da lâmina, pensas em morrer, não na Morte, mas no fim, no acabar com tudo de uma vez.

A carta dela

Não é hoje. Uma voz de velho ligou-me dizendo que a tua chegada foi adiada. Perguntei porquê. «Informação confidencial», respondeu-me a voz. Desesperei. A voz ainda me tentou confortar: «Se não for hoje, será amanhã. Ainda esta semana estará com ele.» Quando desliguei o telefone, gritei histericamente. A vida é injusta. A vida é cruel. A vida mete nojo. Que nojo que mete. Fiquei rouca. Deitei-me na cama, mordi uma almofada, atirei o frasco de perfume que acabara de comprar contra a parede. Manchei os lençóis com batom. Se não me tivessem garantido que virias, não teria criado expectativas. Acontece que me disseram que os teus dias de guerra tinham acabado. E reactivei a minha máquina de construir ilusões. É certo que continuam a dizer-me que virás. Deveria estar feliz, mas não estou. Cá dentro, não sei bem onde, há um bicho a roer, a assustar-me com maus presságios. A passagem dos anos não nos ensina muito, no entanto, sei que, quando se tem um pressentimento, o melhor é dar-lhe atenção. Sentimos o mal à distância e, embora o reneguemos, ele acaba por impor-se. Talvez seja tudo imaginação. Os medos. Nos últimos tempos, acordei muitas vezes em pânico por ter sonhado com a tua morte. Pesadelos a mais. Pesadelos que não me ajudaram a ficar sã. Um copo de água ajuda. Os comprimidos. Só dois para dormir. Para sonhar. Para ter pesadelos com a tua morte.

domingo, 9 de agosto de 2009

Trevas

Uma visão cinzenta de desolação informe cheia de dor física e um desprezo apático pela evanescência de todas as coisas.

- Joseph Conrad, O Coração das Trevas

North by Northwest (1959), Alfred Hitchcock

sábado, 8 de agosto de 2009

A carta dela

Aprontei-me para a tua chegada. Comprei o vestido mais caro de uma loja chiquíssima. Comprei batom, verniz e perfume. Já não sabia o que era ser mulher. Vivi fora do presente durante demasiado tempo. Fui engolida por uma baleia e deixei de ver com nitidez. A lucidez abandonou-me. Os navios rasgavam o oceano, eu ouvia-os, mas não sabia como tocar neles. Os meus olhos não ultrapassavam a barreira. É o momento de me pôr bela. Vejo as crianças que brincam na rua com um sorriso. Falo com os vizinhos, dão-me os parabéns por ter ressurgido das trevas. Se eu era o navio e tu o capitão, não fazia sentido ir ao fundo sozinha. Fico ansiosa. Que palavras te direi? Sou muito tímida, especialmente, na tua companhia. A teu lado, sou uma rapariguinha, não abro a boca, coro com facilidade. Ensinaste-me tudo. Antes de apareceres, era uma saloia, não sabia nada. Pegava em livros para adormecer. Aprendi a ler na tua cama. Os teus livros agarraram-se-me para sempre aos dedos. Não foi apenas isso. Cresci. Dizias: «Respeita-te.» E eu respeitei-me. Ensinaste-me a ver o pôr-do-sol. Sei captar a beleza de uma tarde chuvosa. Antes de ti, não havia amor. Agora, dou lições sobre a matéria. Primeira lição: comprar muitos lenços. Segunda lição: chorar. Terceira lição: a relação não depende de mim. Quarta lição: as doses de sofrimento são equivalentes às de alegria. Quinta lição: é preciso saber esperar. Sexta lição: no corpo mais saudável esconde-se a doença. A lagarta esconde-se dentro da maçã vermelha. O beijo traz uma ferroada.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Não gostar deste mundo

Chateia-te a idade que tens?

Por um lado dá-me uma grande tranquilidade, porque não gosto muito deste mundo e suponho que isso sucede a todos os velhos, não gosto muito deste mundo normativo em que vivemos.

Vasco Pulido Valente em entrevista ao i.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Levar a pancada e levantar

Nada me sai bem logo de entrada, preciso de deitar para fora o acanhamento e ganhar fôlego com as guelras que respiram o sangue da vida; tenho portanto, de fazer crescer a existência.

- Ruben A., O Mundo à Minha Procura II

Situação



O bicho está triste, farto de acordar e de adormecer, enjoado da vida e da gente.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A carta dela


Sofri muito. Houve dias em que não saí da cama. Nos primeiros tempos, não desligava a televisão. Queria saber tudo o que se passava. Em todos os soldados que morriam via a tua cara. Via as bombas rebentarem e imaginava-te perdido no meio do fumo, a tentar sair do labirinto. Depois, quando me apercebi de que não receberia notícias tuas, desliguei-me do mundo. Fiz a minha vida. Fingi que poderia agir como se nunca tivesse conhecido homens. Li os meus livros. Fui ao cinema. Estudei matemática. Eu, que sempre fui péssima aluna a matemática, dediquei-me a equações. Plantei flores no jardim. Converti-me a uma religião. Rezei imenso. E voltei sempre a ti. Todas as minhas actividades se cruzaram contigo. Na igreja, enquanto esfregava água benta na testa e me benzia, acreditava que o teu destino dependeria das minhas preces. No cinema, procurava finais felizes. Nos livros, encontrava histórias que se assemelhavam à nossa. Nunca me desliguei de ti. A partir de certa altura, comecei a comportar-me como se estivesses em casa. No banho, pedia-te: «Esfrega-me as costas, querido.» No quarto, apelidava-te de desarrumado por teres a roupa fora das gavetas. É verdade, desarrumei a tua roupa para poder falar contigo. A imaginação é fértil, prega-me partidas. Fiz-me passar por louca para não me tornar realmente demente. Dei voltas e voltas para fugir do abismo. Ainda me lembro dos dias que antecederam a tua partida. Falavas tão apaixonadamente sobre o militarismo que parecia que eras casado com a pátria. Implorei-te para que ficasses, mas não me deste ouvidos. Desapareceste. Assustada com a possibilidade de te perder, vomitei inúmeras vezes. Pedi para morrer, assim, sem mais nem menos, morrer, acabar tudo de repente. E agora dizem-me que voltarás. Não sei o que pensar. Gosto de ti, claro. Continuo viva por tua causa. Mas estou confusa. Sinto-me feia, acabada. Chegas como herói. O teu nome apareceu nos jornais. Queres-me? Reformulo. Ainda haverá espaço para nós os dois? Se me pedisses para fazer as malas, fugiria para onde quisesses. Eu e tu num deserto, só os dois, sem vizinhos, sem telefones, sem água, sem comida.

Para evitar revoltas

Podes perdoar um criminoso, mas não o faças se tiveres a certeza que ele se acha superior ao teu perdão.

O bicho

O bicho é acompanhado diariamente pelo medo de falhar. Olha para as pessoas e inveja-lhes a riqueza, a saúde, a alegria. Olheirento, vagabundo, faminto, o bicho não consegue ser como os outros.

Da traição

Cuidado com as traições: estão todos a ver-te.

domingo, 2 de agosto de 2009

Eraserhead (1977), David Lynch

sábado, 1 de agosto de 2009

Quotidiano


A Sé


Igreja de S. Vicente de Fora


Lisboa a partir da Igreja de S. Vicente de Fora

Two Lovers (2009), James Gray




Depois de um excelente filme deste realizador (We Own the Night), um filme ainda melhor. O espírito de Noites Brancas, de Dostoiévski, está lá todo. Joaquin Phoenix é um grande actor. Isabella Rossellini está mais velha. Gwyneth Paltrow mostra o seio. Estranha Forma de Vida, de Amália Rodrigues, faz parte da banda sonora.

No que fui já mal me reconheço

Os infelizes chorem, que à última lágrima da penitência segue-se a primeira da santificação.

- Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico