segunda-feira, 31 de maio de 2010
domingo, 30 de maio de 2010
Queda, caio
Queda, cair, caio, rebolo no meio dos calhaus. Dores nas costas, nos joelhos, na nuca. Rebolo nas pedras. Demasiado mundo nos meus olhos fracos. Demasiado mundo. Expurgar o caos. Rebolar durante o tempo necessário para deixar o caos sair. O pânico transformado em soluço e em desilusão e em calma. Chorar o que houver para chorar. Esgotar o arsenal. Amontoo um conjunto de calhaus e sento-me, contemplo o dedo martelado (pena do dedo e de mim próprio), mais uma lágrima em honra da minha miséria. Tenho um buraco no lugar do coração. Chama-se infelicidade. Um buraco do qual não me sei livrar. Suplico-lhe, vai-te embora, infelicidade, tento expulsá-la com murros que me enchem de nódoas negras, sai, infelicidade.
sábado, 29 de maio de 2010
Que grande, grande, grande livro

E acontecera, mais uma vez, uma daquelas conversas planeadas que rapidamente perdem o rumo, que nos deixam apenas com raiva, uma raiva elucidativa, neste caso, em que tudo me regressou à memória sob uma luz crua: o arrefecer do nosso casamento, os dois anos em Nova Iorque em que ela me negara os beijos na boca, em que mos negara silenciosamente e sistematicamente sem queixas, desviando até os seus olhos.
- Joseph O'Neill, Netherland
Apagar
Esquecer a outra, estimar esta. Cortá-la aos pedaços. Retalhar o nome, deixar de dizê-lo. A primeira letra. T. Engolir o resto. Apagar a primeira letra antes de dizê-la. Apagar a mulher com os dentes cravados na língua. Não te vou dizer, se o fizer, fraqueza, cobardia, o costume, a decadência e a fraqueza. O só saber agir contigo por perto. O cheiro que me comanda.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Correr melhor
Não tenho a certeza mas, se passar cabisbaixo pelas pessoas, se fingir distracção, vergonha, talvez evite abrir a boca e deixar cair palavras que se transformam em ligação e em amizade e em solidão, talvez se baixar os olhos, não vi, olha o passarinho, peço desculpa, erro lamentável não ter falado, que encrenca, fica para a próxima, talvez se me limitar a ler os meus livros e a bater com a testa na parede com aquela vontade costumeira de morrer, pode ser que corra melhor.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
As Ondas, Woolf
Leio quatro romances de novos autores portugueses. Todos de fraca qualidade. O que leva os portugueses a escreverem quinhentas páginas recheadas de rendilhados poéticos, de vozes sem cara, muito sofridas e violentadas, que poderiam ser a Humanidade, sem deixarem de ser vazios? O que leva um escritor a ser apenas oco?
terça-feira, 25 de maio de 2010
Esperança
Acabar com a esperança. Vais ao supermercado comprar pão, carne, peixe e detergente. A livraria tem o livro novo do autor que aprecias. Entras no mercado e perguntas se o senhor ladrão tem pilhas recarregáveis. O eléctrico vai vazio, sabe bem ler dentro do transporte público. As fotocópias na faculdade. Dois cafés por dia. O restaurante com vista para o rio. Nenhuma ilusão para além do quotidiano.
domingo, 23 de maio de 2010
Aviso à circulação
Se de um poeta dos últimos cinquenta anos
o Gaspar Simões escreve um elogio,
e eu estimo esse poeta, quedo logo
numa aflição por ele (o poeta):
que defeito haverá nessa poesia
para o Simões gostar assim dela tanto?
- Jorge de Sena, Dedicácias
o Gaspar Simões escreve um elogio,
e eu estimo esse poeta, quedo logo
numa aflição por ele (o poeta):
que defeito haverá nessa poesia
para o Simões gostar assim dela tanto?
- Jorge de Sena, Dedicácias
sábado, 22 de maio de 2010
Como isto é bonito, até poderia ser cantado
Quando já era claro que eu tinha de ser transferida para a Casa e tu passavas as horas junto da minha cama, eu via-me tão bela, nos teus olhos; desejava-me através do teu olhar; sabia que estava branca e pálida, exausta devido àquele veneno, mas nos teus olhos estava ainda morena de sol e de mar como quando íamos para aquela nossa ilhazinha, chegávamos lá a nado e entrávamos no meio do estridor das gaivotas, nus e esplendorosos que nem deuses.
- Claudio Magris, E Então Vai Entender
- Claudio Magris, E Então Vai Entender
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Altamente recomendável
Dizem alguns directores literários
(e accionistas da própria propaganda)
que «o Sena não se vende». E é verdade:
Não se vende. Só as putas se vendem.
E em Portugal são tantas que não há
bolsas bastantes para comprá-las, nem caralhos bastantes
para fodê-las como mereciam.
- Jorge de Sena, Dedicácias
Mentecapto
Introduzir pensamento no cérebro de um mentecapto. Esfarrapar a testa com cabeçadas na parede.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Fica longe

Para Sethe, o futuro era apenas uma questão de manter o passado à distância.
- Toni Morrison, Beloved
sábado, 15 de maio de 2010
Perdes-te
«Perdes-te lá fora.»
Perder-me lá fora. Qual o mal? Apanhar ar, levar chapadas do vento na fuça. Mal nenhum. Levo o cão. Cadela. Quando regressar, talvez traga um zero dentro do estômago. Agora, parece uma bola de pêlo. Começaremos de novo, história nova, um zero no estômago para escorraçar a bola de pêlo, para perder a vontade de ficar sem pescoço.
Estar sentado na sanita
A sanita é o eremitério do homem no reino doméstico. Proporciona um breve período de privacidade e de reflexão, livre do rebuliço do trabalho ou da família.
-Tom Hodgkinson e Dan Kieran, O Livro dos Prazeres Inúteis
-Tom Hodgkinson e Dan Kieran, O Livro dos Prazeres Inúteis
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Abraçados
Sempre em frente até cairmos os dois juntos, abraçados, contra o mundo, no fundo do poço, disse ele, e engoliu um comprimido. De mãos dadas, até ao fim, e engoliu outro. O resto que desapareça, e engoliu outro e estatelou-se no chão, quase morto, sozinho, cão moribundo.
Arquipélago da Insónia
Deixou de narrar e passou a ser voz, várias vozes interiores cortadas por breves vozes exteriores que marcam as pausas e os ritmos. Uma linguagem tão evoluída que se torna ininteligível.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
No fundo, é isto tudo
Há já anos que me interrogo sobre o sentido dessa chamada Academia de Darmstadt e sempre tive de dizer a mim próprio que um tal sentido não pode consistir no facto de uma associação, que em última análise só foi fundada para satisfazer o narcisismo dos seus vaidosos membros, se reunir duas vezes por ano para a auto-incensação e, depois de viagens caras, porque luxuosas, pagas pelo Estado, em bons hotéis de Darmstadt se deliciar com bebidas e com comidas servidas à maneira da grande burguesia, para ao longo de uma escassa semana remexer a sua papa literária choca e sensaborona. Se um poeta ou escritor já é ridículo e onde quer que seja já é difícil de suportar para a sociedade humana, quanto mais ridícula e impudente não é toda uma horda de escritores e poetas e daqueles que como tal se considera, juntos num montão!
-Thomas Bernhard, Os Meus Prémios
Pensamento recorrente
Confesso: sinto-me derrotado. Mas trabalho sempre.
- Vergílio Ferreira, Diário Inédito
- Vergílio Ferreira, Diário Inédito
terça-feira, 11 de maio de 2010
A fisionomia do conde de Romanones

Nada como a leitura de um artigo fraquinho imbuído de fracas teorias peninsulares e de tiradas de humor para dar graça a uma tarde de má memória:
O seu nariz expressivo, que se desenvolveu em movimentos vários, guardou todos os estigmas da raça semítica. Os olhos espertos, fechados para melhor verem, parecem dois traços feitos com um tira-linhas. (...) As orelhas grandes, deslocadas do crânio, indicam uma tendência para a raça judaica.
(Lopez Muñoz, Jornal da Noite, 14/4/1917)
segunda-feira, 10 de maio de 2010
O mais reles animal
O desaparecimento dela é pior do que ser obrigado a entrar num lago de excrementos. Andar diariamente camuflado de fedor, cabisbaixo, complexado com o cheiro e com a fealdade, como se tivesse caído dos intestinos do mais reles animal.
Estilo - proferir a ofensa, responder ao tiro

Veja-se como Vasco Pulido Valente conta como Paiva Couceiro foi preso no dia 25 de Junho de 1881, o mesmo em que foi promovido a alferes:
Na véspera à noite tinha disparado cinco tiros com uma pistola de guerra Abadie contra um tal Luís Leon de la Torre Faria. Três dos tiros acertaram no homem, que esteve 42 dias «doente». Em Outubro, Couceiro respondeu em conselho de guerra pelo crime de «homicídio frustrado» e «uso de arma proibida». No conselho de guerra ficou satisfatoriamente estabelecido que o réu não conhecia a vítima nem antes houvera entre eles «altercação ou conflito». De acordo com o que se apurou, tudo se resumira ao seguinte: o «agredido roçara pelo ombro do réu» no Chiado, proferindo uma frase «injuriosa e ofensiva» para a «dignidade» dele: «desvairado pelo insulto», Couceiro dera-lhe imediatamente cinco tiros.
Curioso que este excerto, tirado de uma das primeiras páginas (p.14) de Um Herói Português: Henrique Paiva Couceiro (1861-1944), poderia servir de padrão para quase todas as atitudes tomadas por Couceiro ao longo sua vida. Sendo isso que VPV nos leva a crer, pode-se dizer que este é um bom exemplo de como um autor de um livro de história (é chato dizer historiador) pode, através de um estilo, criar uma personagem e analisá-la do modo que mais lhe agrada.
sábado, 8 de maio de 2010
Menstruação

Interrogado a esse respeito, Haas disse que o sangue provavelmente era de alguma das mulheres com quem tivera relações durante o período menstrual. Quando Haas deu essa informação, o inspector Ortiz Rebolledo perguntou-lhe se ele se achava muito homem. O normal, disse Haas. Um homem normal não fode com uma mulher que está a sangrar, disse Ortiz Rebolledo. Eu, sim, foi a resposta de Haas. Só os porcos é que fazem isso, disse o inspector. Na Europa somos todos porcos, respondeu Haas.
-Roberto Bolaño, 2666
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Enterrado
Na primeira noite, tive medo de ser mordido por alguma cobra se adormecesse. Um medo infantil, inocente e real, o medo de jazer dentro da casa em ruínas. Ela dormia feliz da vida e eu, obcecado com uma cobra irreal, encolhia-me na minha parte do colchão. Medo da cobra e do vazio. A primeira noite no sítio da amargura, ao lado de uma mulher que me enterrava no desespero, por não me despertar riso ou choro, só vazio. Não saber de outra muito mais importante do que esta, imaginá-la distante, satisfeita por ter-me deixado para trás, era esse o meu medo, o de ficar sozinho.
terça-feira, 4 de maio de 2010
Tefe-tefe
Parto a janela do quarto dela com uma pedrada e entro. O quarto vazio. Nem um cabide no armário. Estou perdido. Tenho a sensação de ter sido enterrado vivo e de estar debaixo do chão a esgatanhar para sair. O meu reino perdido. Sofro como um cão. Viva o rei, viva o rei, perdeu o ouro e a rainha. O tefe-tefe no peito cortado pelo vidro. Foguetes em honra do rei nu. O coração é vidro feito em pedacinhos.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
domingo, 2 de maio de 2010
Acabar com a metáfora
A tuberculose é muitas vezes vista como a doença da pobreza e da privação - roupas insuficientes, corpos magros, casas frias, falta de higiene, alimentação deficiente. (...) O cancro, pelo contrário, é uma doença da vida burguesa, uma doença associada à opulência e aos excessos.
- Susan Sontag, A Doença como Metáfora - A Sida e as Suas Metáforas
Boomerang
Olha para a vingança, o tempo passou e fiquei calado, não ouviste uma palavra minha, nem sequer uma notícia, podia ter telefonado, pois é, uma chamadinha, que a rapariga sofria, eu disse-te na altura para pensares bem, que era capaz de ser a última vez que me mandavas embora, não acreditaste, tenho cara séria, não me apanham a rir, e se uma mulher me diz que não me sei divertir, do género «não me acompanhas à noite», pior, que vingança terrível, esperar dois anos para te matar com o silêncio.
Adormeça
Não me faça essa cara que não tenho culpa por ter nascido assim, madame. Não é educado fazê-lo mas não consigo parar de olhar para as pernas das mulheres que me aparecem à frente. Não é bem de todas, que das feias ninguém quer saber, pernas como as suas. Deixou-me muito feliz esta tarde por ter aparecido. Mais feliz só se o maquinista ensandecesse ao ponto de nos matar num acidente digno de primeira página de jornal. É que viver não é motivo de felicidade. Custa muito, por exemplo, estar a olhar para si e não lhe poder tocar. Tocar em si interessa-me pouco. Nas suas pernas (se considerarmos que têm vida própria) e não propriamente em si. Não posso mordiscar-lhe o joelho, madame, isso é motivo suficiente para achar que viver não é coisa boa. Levante a saia. Ou adormeça. A viagem cansa, encoste-se à janela e adormeça, perca a consciência. Para que possa encostar-me a si e roçar-me nas suas pernas.
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